Mário Sérgio
Os adolescentes, bastante orgulhosos por compor o grupo discente da Escola Técnica Federal de MG, formavam uma trupe alegre e, quase sempre, festiva. Não era para menos, pois o vestibular para estudar naquela Instituição renomada era bastante concorrido, exigia muito empenho dos estudantes. Instalado na Av. Amazonas, Gameleira, além da imponência da edificação, o educandário contava com professores altamente qualificados. Aqueles que ministravam disciplinas das áreas técnicas atuavam em diversas empresas em suas áreas de especialização. Assim, dispunham, além do cabedal de conhecimentos teóricos, da experiência vital possível apenas com a prática. Convictamente, isso os tornava diferenciados enquanto mestres de alunos ávidos pelo saber.
O elevado padrão de ensino naquela Escola se compunha, muito além das aulas de conhecimentos técnicos, de uma gama de matérias na área de humanas, como Organização Social e Política Brasileira – conhecida como OSPB; música e canto coral; história e geografia. Todo esse acervo de saberes permitia ao estudante optar, com ampla consciência, qual o caminho que gostaria de trilhar em sua vida adulta, em sua jornada profissional. Tanto é assim que, atualmente, um dos nossos brilhantes colegas segue a carreira de maestro; outros são administradores, advogados, médicos, atores, escritores.
Aquele campus formou pessoas de muito valor. Agora, depois de quase cinquenta anos, ainda preservamos amizades consistentes com muitos daqueles adolescentes, que hoje já se aposentaram ou estão próximos disso. E se enternecem com filhos e netos.
Dentre as boas lembranças dos tempos estudantis, como bem observaram Ney Azambuja e Tavito no delicioso sucesso “Rua Ramalhete” (1979), os namoros, ou tentativas, foram muito importantes na construção dos adultos que nos tornamos. As paixões fugazes que acreditávamos eternas, a juventude mais deslumbrante cuja beleza, à vista de outras, com o tempo desbotava um pouquinho, dando lugar à novidade.
Frequentamos diversas “repúblicas” onde moravam a maioria dos egressos do interior ou de outros estados. Nossa classe abrigou até um jovem chinês, naturalizado, Lan Ming Ram, que nos mostrou um pouco da sua cultura oriental.
Uma dessas casas, no entanto, era mantida pelo Poder Público, não para nossos colegas alunos, mas como hospedagem temporária para professores e outros profissionais de ensino, residentes em outras cidades, que vinham a Belo Horizonte fazer algum treinamento, simpósio, conferência ou outra atividade qualificadora para suas cadeiras.
O imóvel era bem simples, parcamente mobiliado e sua ocupação era mínima, exceto em eventos especiais. De uma a três ocupantes, pois normalmente eram professoras do interior recém-formadas que ainda traziam o brilho da esperança de transformar a educação para melhor.
Alguns veteranos de nossa Escola, trajando sua juventude transbordante de hormônios e de coragem juvenil, conhecedores daquela casa, faziam suas investidas. Era muito raro que não acontecesse um namorico, alguns “pega”, como nos referíamos então. Houve mesmo um que chegou mesmo a se casar com uma bela professorinha. Em minha última viagem de retorno a BH, passei em frente àquela saudosa casa de lembranças maravilhosas e uma nem tanto, quando a linda morena que me olhava estranhou quando me levantei: “Oh! Você manca?!?!”.