Peter Rossi
Acho que todo mundo, quando pequeno, foi apaixonado por um cachorro, quando nada um gato. Na minha infância, tive vários cães e alguns gatos. Me lembro de dois cachorrinhos brancos com algumas manchas pretas – eram o Tip e o Top. Top mais gordinho, roliço. Tip mais esbelto, porém menos carinhoso. Eram irmãos.
Já tive um gato que chamava Rivelino, pode? Veja lá se Rivelino é nome pra gato!? Existiu também um mico que, rendendo aplausos à obviedade, se chamava Chico. Aliás, já repararam que todo macaquinho tem nome de Chico? Por que será? A rima apenas? Mico e Chico? Não sei.
Passarinhos não os queria presos. Não aceitava gaiolas. Em lugar delas, colocávamos no jardim garrafinhas com o bico em forma de flor de plástico. Dentro delas água e açúcar. Em questão de minutos os passarinhos, em especial o beija-flor, vinha nos visitar. Eram lindos assim, soltos. Ainda acho que prender passarinho é uma das maiores maldades que o homem faz. Não me convenço do contrário. Alguns dizem que se soltas estivessem, as aves morreriam. Não acredito, isso é mera retórica! Passarinho só é bonito no contraste do azul do céu!
Mas falava de cachorros …
Uma cadela teve e tem um lugar especial no meu coração. Era enorme, dourada. Seu nome: Aleia! Na época tinha acento agudo, agora não tem mais. Me pergunto, será que em nome próprio essas malditas regras gramaticais devem ser seguidas à risca?
Enfim, o nome em si, já era lindo. Aleia: árvores dispostas lado a lado, como que riscando um caminho com sombra aconchegante.
Aleia era mesmo assim. Uma sombra aconchegante em minha vida. Era uma menina a mais na casa. Menina a mais não, era a única menina! Brincava a todo tempo, esquecendo-se do seu próprio tamanho. Pulava sobre nós, meninos mirrados, chegando a derrubar. Era uma cadela da raça pastor alemão, das mais puras que vi em minha vida. É lógico que falo com olhos apaixonados, mas que Aleia era perfeita, lá isso era.
Uma companheira e tanto. Logo pela manhã, nós, com uniforme completo: camisa absolutamente branca, calção azul, meias brancas e tênis, com uma pasta nas mãos – naquela época não se usava as tão difundidas mochilas que hoje nos transformam em verdadeiras tartarugas ninjas, e finalmente uma merendeira atravessada no ombro, seguíamos felizes para a aula, chutando pedrinhas e contornando poças d’água, prestando atenção a cada detalhe do caminho. Logo atrás vinha Aleia. Não se convencia de que era um cão e insistia em assistir as aulas conosco. Ficava sentada ao lado de nossa carteira, sem incomodar ninguém. Quando cansava, se estirava no chão e dormia o melhor dos sonos, a despeito das contas e ditados que aula nos impunha.
O que lhes conto é a mais pura verdade. Aleia era uma aluna pontual, assistia conosco todas as aulas e a singeleza do coração da professora, naquele tempo, não se opunha à sua presença. Ela não representava perigo algum para as demais crianças e, falemos a verdade, o irritante politicamente correto, naquela época, não era assim tão difundido. Certo ou não, o fato que a Aleia ia conosco todos os dias à escola e conosco voltava, alegre e feliz, para casa. Se algo aprendia, verdadeiramente não sei …
Era o tempo de almoçar, fazer o dever de casa para, em seguida, disparar para a rua que, na verdade, era uma extensão do nosso quintal. Aleia sempre conosco; comigo e meus irmãos. Às vezes estragava o pique esconde ou as brincadeiras de polícia e ladrão pois insistia em latir e pular e, por isso mesmo, éramos sempre os primeiros a serem descobertos. Ela nem se preocupava com isso, muito pelo contrário, parecia estar feliz em estragar a brincadeira e fato é que de tanto amor, não entendíamos que a brincadeira fora estragada, muito pelo contrário. Nossos pequenos corações ficavam à espreita de sermos alcançados pela polícia de brincadeirinha só para que pudéssemos nos divertir com a presepada da Aleia, nos denunciando, mostrando onde estavam os nossos esconderijos.
Existia, naquela vida simples, uma brincadeira que se chamava “pula carniça”. A razão do nome jamais entendi, mas a mecânica era demasiado simples: a criança à frente agachava e a de trás da fila, com o apoio das mãos nas costas da primeira, saltava para a sua dianteira. E não é que a Aleia participava da brincadeira. Bastava a gente ficar de pé, com as costas arqueadas que lá vinham duas patas enormes em nossos ombros. Era Aleia equilibrando nas pernas traseiras a participar daquela festança. Linda demais essa imagem em minha memória. O olhar da Aleia a nos transmitir tanta pureza e bem querer.
Certo dia, saí com Aleia para o centro da minha pequena cidade. Não a levava na coleira, ela estava sempre comigo. Como menino descompromissado, atravessei a rua e não me dei conta de que Aleia estava do outro lado. Ao me ver, se precipitou e foi apanhada em cheio por um ônibus. Essa imagem não sai da minha cabeça, sempre que toco nesse tema. Me lembro da Aleia girando por entre as rodas do ônibus, para logo em seguida, estatelada no chão, tentar me alcançar. Seus olhos estavam tristes, e ainda assim ela queria estar perto de mim. Arrastava com dificuldade, impondo toda força nas patas dianteiras, mas as traseiras estavam inertes e inerte ela ficava, apesar do esforço. Como menino chorei todas as lágrimas que consegui. Busquei ajuda e após diversas recusas, acabei levando Aleia para casa. Uma das vezes que mais ódio senti quando um taxista se recusou a leva-la, dizendo que iria sujar o carro de sangue. Me recordo que aquele motorista nunca mais nos atendeu. Ficou gravado em nossa memória aquele desaforo, aquele gesto de impensada recusa.
O tempo passou, e após muitos meses de carinho e abnegação de meus pais, Aleia se curou. Ela quebrara a bacia, mas o veterinário conseguiu colocar tudo no lugar. Seu apetite voltou, e a Aleia voltou a devorar enormes caldeirões de angu e bofe, seu prato preferido.
Fui me tornando um adolescente e comigo a Aleia, sempre presente.
Mas um descuido nosso pôs tudo a perder. Sem se preocupar em buscar a opinião do veterinário, trouxemos um macho para cruzar com a Aleia. Ela logo ficou prenha, mas não conseguiu dar à luz aos cinco cachorrinhos que trazia em seu ventre. Ao quebrar a bacia o espaço destinado à saída dos filhotes se estreitou e os cãezinhos morreram ainda na barriga da Aleia. Não nos demos conta disso a tempo e na concepção dos filhotes, Aleia acabou por nos deixar.
Lembro bem desse dia. Logo pela manhã, era um sábado, meu pai nos levou, a todos, ao clube para nadar e desfrutar de um piquenique. Ao final da tarde, quando já voltávamos para casa a fatídica notícia nos foi dada ainda dentro do carro. Aleia fora sacrificada, estava sofrendo demais! A estratégia do meu pai foi a de nos afastar enquanto o veterinário cuidava de extirpar o sofrimento da nossa cadela.
Esse foi um dos dias mais tristes da minha vida. Não me despedi de Aleia, não olhei uma última vez para seus negros olhos, olhos de menina triste. Não estive ao seu lado naquele momento. Meu pai me preservou, mas a vida não conseguiu esse intento. Enquanto menino, nunca mais tive um cachorro meu. Aleia continuava ali. Minha saudade contemplava a ausência e me dizia que, de uma forma ou de outra, estava ela ao meu lado. Sempre acreditei e ainda acredito. Quem um dia foi menino e teve um cachorro pelo qual foi apaixonado sabe bem do que falo e, certamente, lendo essa história até certo ponto triste, se lembrará da cachorrinha que alegrou a sua vida sem pedir nada em troca.
Que relação doida essa: eles nos dão todo o amor que dispõem e incondicionalmente trocam a vida deles pela nossa. Só quando os perdemos, conseguimos entender essa injusta equação. Mas aí já é tarde. Esse talvez seja o amor infinito, o amor derramado de olhos negros, de uma menina triste que só fez alegrar nossas vidas.
Recebe meu beijo Aleia, não minto ao dizer que me emociono sempre que me lembro de você, sentindo seu pelo áspero em meu rosto, mas que me acariciava a alma. Você preencheu minha vida de menino. Com você vivi os melhores momentos de minha infância. Fiquei velho, você não está mais aqui. Nesse aspecto sou obrigado a reconhecer: a vida perdeu a graça. É uma pena que as coisas que mais gostamos na vida são as mais frágeis e, em alguns momentos, por um motivo ou por outro, não somos fortes o suficiente a garantir sua integridade. As coisas se vão, e com elas um pouco de nós …
É por histórias assim, lindas e tristes que hoje gosto mais de bicho do que de gente.