Embrulhos

Peter Rossi

Esses momentos luzidios e chuvosos de dezembro nos convidam às reflexões, muitas delas repetidas de anos anteriores e nunca levadas a termo.

Nos preocupamos, em demasia, com cartões e papeis de embrulho coloridos. Seguimos em fila indiana aos caixas das lojas do shopping, absolutamente resignados com a demora. Também, por qual razão deixamos para a última hora?

E haja formalidade! O mais importante é atender o consumismo, embrulhando sentimentos, transformados em objeto. “Ah, vou dar um presente a fulano e certamente minha ausência não será notada”.

E assim vamos construindo essa rede interminável de “amigos ocultos e esquecidos”, preenchendo as estantes das relações humanas com brinquedos, livros, artigos de cozinha, roupas e garrafas de vinho.

E tão logo colocamos tudo nessas “estantes de Natal”, damos por encerrada nossa obrigação e, devidamente enterrada a nossa culpa.

Se pararmos para pensar, damos esses presentes a nós mesmos, como salvo-conduto pelas nossas ausências, pelas distâncias diárias. E nos convencemos tão absolutamente que saímos dessas confraternizações risonhos e realizados. “Ufa! Deu tudo certo!” Nada como uma comprinha a atuar como band-aid em nossas feridas, mesmo que resultantes de meros raspões.

Essa lógica às avessas, não fosse outra coisa, já não faria sentido sob o ponto de vista financeiro. O cartão de crédito que absolve todos os nossos pecados.

Nós devemos mesmo é não pensar em realizar a paga e com isso seguirmos no eterno equívoco. Presentear é, antes de tudo, estar presente! Pensemos assim. Que estejamos mais próximos uns dos outros. As dificuldades são imensas e a venda das telas a cada dia nos expulsa de nossos valores, preenchendo o espaço com a estopa murcha do imediatismo. Não entender direito, não captar a mensagem é a regra do jogo. As informações devem ser rápidas e dinâmicas, mesmo que norteadas por um GPS que não leva a lugar algum.

Vamos aproveitar essas luzes que iluminam a cidade e nos deixar atingir pelo bem-querer, pelo amor, pela mensagem efetiva e produtiva. Esqueçamos os invólucros e também os recheios, o preenchimento da estante. Ao invés de presentear com uma garrafa de vinho, convidemos o amigo ou a amiga para tomá-la conosco.

Ao invés de presentear com um livro, vamos indicar aquele livro que tanto mexeu com a gente e nos fez pensar em algo novo, diferente.

Quem sabe convidar aqueles que gostamos para dividir uma boa massa. Certamente será muito melhor do que dar uma panela de presente.

Vamos alimentar nossa alma e não apenas pagar nossos pecados, literalmente, com indulgências embrulhadas para presente.

A gente parece não perceber, mas a felicidade de quem amamos é mais essencial que a nossa. Aliás, é parte integrante da nossa. E até hoje, me perdoem os que pensam de forma diferente, nada foi inventado que substitua o sorriso, o abraço, o dividir a mesa com os amigos.

E para aqueles que entendem que o brilho dessa época é indispensável para a felicidade, que então nos embrulhemos para presente e sigamos para debaixo da janela das casas daqueles que tanto amamos.

Antes de nos absolver, vamos nos deixar absorver por aqueles que nos são indispensáveis, que como disse o compositor, são os grãos da nossa felicidade, a serem regados diariamente, com água e lágrimas de gratidão.

E sigamos felizes, plena e continuamente!

6 comentários sobre “Embrulhos

  1. Saudade do tempo em que enviávamos cartões de Natal pelo correio, escolhidos com carinho e a mensagem escrita a mão.
    Hoje, infelizmente, teremos cada vez mais, a ausência embrulhada como presença!

  2. Parabéns Peter, seu artigo é um verdadeiro presente, e, como você mesmo disse:
    presentear, antes de tudo, é estar presente! Que estejamos mais presentes em 2026! Abraços
    João Café

  3. Meu caro PR!!! Esse artigo é a mais pura verdade da realidade que todos nós estamos vivendo. Precisamos de mais convivência e menos tecnologia. Que possamos vivenciar isso em breve, em uma de minhas ida a BH. Abs!!

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