O Banco Master e a desesperança

Taís Civitarese

O escândalo do Banco Master me fez perder parte da fé na humanidade. Não que “banco” e “humanidade” combinem. Na verdade, são quase antônimos. Porém, foram as pessoas envolvidas no caso e os cargos que elas ocupam que destruíram o paradigma esperançoso de país que eu ainda cultivava.

A história é um triste clichê da corrupção brasileira. Um banqueiro cria uma fraude para vender seu banco falido a um banco estatal de Brasília. Ele falsifica documentos, forja contratos e aparenta – para terceiros – manter uma instituição financeiramente saudável. A compra seria consumada com dinheiro público. Seriam dois bilhões de reais sob alegação de ser um excelente negócio para a expansão de mercados. O governador do Distrito Federal a apoiava fortemente.

A operação é fiscalizada pelo Banco Central. Alguém desconfia, denuncia e tem início uma investigação. Descobre-se a falta de lastro nos investimentos do banco, assim como transações com empresas “fantasma” e toda a sorte de falcatruas financeiras. Qual o sentido então em se adquirir uma instituição assim? A única resposta possível é que algumas pessoas embolsariam muita grana com isso.

O nome do banqueiro e de outros envolvidos vai parar na Polícia Federal. Milagrosamente, ele é preso ao tentar viajar para o exterior. Pensamos que alguma justiça se cumpriu. Poucos dias depois, sem surpresa, obtém um habeas corpus e vai aguardar o processo no conforto do seu lar.

Até aí, infelizmente, nada de novo. O que era revoltante ainda não estava morto. Haveria o desenrolar da ação e a esperança de que a “sala da justiça” não deixaria essa passar. E aí, veio a facada final do ano de 2025. Descobriu-se que o banco fraudulento tinha um contrato para prestação de serviços jurídicos com o escritório de advocacia da esposa e dos filhos de um ministro do Superior Tribunal Federal. Contrato altamente suspeito por envolver um valor final de mais de cem milhões de reais. Valor esse muito distante do que é praticado em contratos semelhantes no Brasil.

Traduzindo, um ministro da maior instância da justiça brasileira mantinha uma relação financeira próxima e significativa com uma empresa que se revelou uma bomba-relógio da trapaça.

Se isso não cheira bem, para mim, deixou algo bem claro: o balaio de gatos pardos que abriga os figurões do poder no Brasil. A certeza de que não há integridade que resista aos apelos da vida burguesa. E toda a sorte de justificativas que se forjam à luz do brilho do ouro. O dinheiro é sedutor e, aparentemente, realmente capaz de comprar tudo. Compra bons travesseiros, compra juízo de valor e parece comprar também consciências.

Termino o ano com a percepção de que não há consequências em se agir com falta de escrúpulos porque, ao final, se você acumular o suficiente, pode comprar a liberdade, pode comprar a justiça e pode comprar o governo. Pode comprar quem faz as leis e quem as executa Dependendo do caso, compra-se até a opinião pública. Só me resta desejar a todos os envolvidos um belo carma. Isso talvez seja a única coisa que consiga perfurar a bolha protegida das fortunas.

3 comentários sobre “O Banco Master e a desesperança

  1. Tudo isso me deixou, também, muito indignada e a sensação de impotência que isso trás reforça a desesperança no futuro político do país.
    Eu sinto muito…

  2. Texto perfeito na análise dos fatos e principalmente na descrição do sentimento de desesperança cansada em relação à justiça corrompida do país.

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