Peter Rossi
Já contei antes que a casa onde morava, na Rua da Paz, contornava quase que um quarteirão, toda ornada por uma cerca de arame, encarapitada por plantas e mais plantas. Era uma descida danada. A garagem ficava na parte de cima, a única com uma rua reta. Em seguida, pela esquerda, era uma ladeira só, depois uma virada pra direita, e outra descida, dessa vez menos íngreme.
Pois bem, quando meu pai chegava em seu carro velho, a gente descia pra abrir o portão da garagem, sempre fechado com uma corrente igualmente velha e um cadeado amarelo. Abrir o portão da garagem era obrigação de filho. O pai não tinha muita paciência com isso não. E quando estava sozinho, na maioria das vezes, a gente tinha que correr e deixar o portão aberto, senão ela chegava e batia de propósito na porta de madeira, com o carro.
Melhor que deixar ladrão entrar era não deixar papai estragar o portão. No fundo, bem lá no fundo, a gente sabia que não tinha ladrão naquelas paragens. Mas o nosso pai, com umas cervejas na cabeça, deixava a preguiça vencer e, invariavelmente, quebrava o nosso portão de madeira.
Mas eu contava da casa, não quero me lembrar do pai quebrando o portão, isso já passou, não vale a pena lembrar. Meu pai já não está mais aqui. Acho que nem portão existe mais.
A garagem ficava no alto, perto da única rua reta, como eu falei. Pra chegar na casa, o único caminho era uma escada com degraus apertados, muito inclinada. Enorme, toda feita de cimento. Não adiantava tentar descer correndo que o tombo era inevitável. Acho que a escada foi construída daquele jeito justamente para que ninguém descesse rapidamente.
E quando a gente chegava com as compras era um “Deus nos acuda”. Carregar aquelas sacolas pesadas por infinitos degraus até a porta da cozinha. Não tenho mais tanta certeza assim, mas acho que eram quase sessenta degraus. Uma coisa absurda. E nossas perninhas de menino tinham que vencer aquela tarefa todo santo dia.
Primeiro descia a nossa mãe e a nossa avó. Em seguida meu irmão mais velho. Eu vinha logo atrás. Por último vinham meu irmão do meio e o meu pai. Eu não sei porque a ordem era essa, mas era sempre assim. Mamãe vir na frente eu até entendia, porque era ela que sempre tinha a chave. Era quem abria a porta da cozinha. A vovó vinha logo atrás porque sempre estava apertada para ir pro banheiro. Agora, a ordem a seguir daí, para mim, não fazia o menor sentido, mas era seguida à risca.
E quando precisávamos subir a escada? Puxa vida, quanto esforço! Minha mãe e minha avó não subiam, elas saíam pelo portão lateral. Meu pai subia, tirava o carro, descia a ladeira e parava pra buscar as duas. Encalhava a rua. Outro carro não conseguia passar ao mesmo tempo. Paciência de quem quisesse ou, por infortúnio, precisava circular por aquelas bandas. Mas eu subia, afinal tinha que fechar o portão, depois que o carro saísse da garagem.
No lado direito da escada, olhando de baixo para cima, eu tinha a minha ilha da fantasia, que de ilha não tinha nada. Mas era lá que eu enterrava o meu tesouro. No encontro entre o cimento e a terra do barranco, usando uma colher, eu cavei um buraco de tamanho razoável e lá guardava todos os meus segredos, os meus tesouros mais sagrados: num saco plástico, minha coleção de calendários de mão e cinco bolinhas de gude, das maiores, coloridas. Tinha também três chaveiros e duas caixas de fósforos que minha avó trouxe do estrangeiro, todas escritas em inglês. Era chique demais. Só eu tinha aquilo na minha cidade, pensava.
Quando meu irmão mais velho se casou e me deu a escrivaninha que ficava no quarto dele, toda pintada de vermelho, lá eu guardei em uma de suas gavetas, o meu tesouro. Não precisava mais do vão da escada.
Sinto saudade daquelas joias, das quais não cuidei bem, tanto que não tenho a menor ideia aonde foram parar. Tivesse deixado no esconderijo, na certava ainda estariam lá. Bem faziam os piratas ao enterrar os seus tesouros. Basta fazer um mapa e mexer com o imaginário do mundo inteiro.
Mas eu, raivoso com o tamanho da escadaria tanta, queria tirar meu precioso bem dali. Era uma justa vingança. Não queria dividir minha felicidade com aquele espaço tão indesejado.
Mas a vida tem dessas vírgulas que não fazem só separar as frases. Elas nos dão tempo pra respirar. Mas nós, na miudeza da nossa meninice às vezes não recolhemos ar suficiente a inflar nossos peitos de forma a perceber todos os desarranjos. A velha escada que me fazia cansar era a mesma que me trazia de volta. Era quem abrigava meu diário, meu tesouro. Eu, pequeno pirata, entretanto, não cuidei de perceber a importância de tudo isso. O caminho que leva é o mesmo que traz. Os degraus são complacentes e, apoiando um no outro, só pretendem amenizar o esforço, nada mais. Se são monótonos, por um lado, são diáconos, por outro, eles nos ajudam. Fui um menino pirata meio desconjuntado. Desenterrei meu tesouro, pus em outro lugar e, de forma displicente rasguei o mapa. Agora, como encontrar? Tem jeito não! Ah, se eu tivesse entendido melhor aquela grande escada de cimento, com degraus apertados. Ah, se eu tivesse entendido melhor tantas outras coisas nessa vida …
Muito bom! Todos nós temos essas caras lembranças de infância tecidas sobre fatos tão simples. Você soube muito nem trazer isso de volta! Parabéns!