Um menino e a cerca

Peter Rossi

Voltava o menino da escola sob um sol escaldante. A estrada de terra só fazia colorir seus sapatos e meias. Era uma poeira só! E o menino, como todo bom menino, não andava simplesmente, chutava o chão, raspava a sola na estada só prá levantar mais poeira ainda.

E assim a vida de menino transcorria, dia após dia, um sol atrás do outro. Ele passava diante da mesma venda de portas e escadinhas, seguia a cerca que ele jurava saber que contornava o mundo inteiro. Passava diante da praça e lá estava, sempre de cócoras, um senhorzinho daqueles muito simpáticos, embora carrancudos. Joelhos emparelhados, costas encurvadas e um chapéu imundo atarracado na cabeça. O sol refletia a testa cansada. Era ponto de parada obrigatória. O menino não seguia a cerca até o fim do mundo, sem antes deixar fugir um “bom dia”, com os ouvidos ansiosos em descobrir mais uma história qualquer. O homem de chapéu, por sua vez, deixava escapar uma palavra ou outra e com isso despertava a atenção do menino. As pequenas pernas se cruzavam e logo já estava sentado aguardando o falatório.

O homem, como que recobrasse a consciência de um longo sono, fixando os olhos antes desviados, encarando o menino faz o alerta: – a gente precisa aproveitar as coisas boas o máximo que a gente puder, por menor que sejam elas.

Intrigado o jovem quis saber a razão daquela frase. O homem, de seu turno, só fez reforçar o que antes tinha dito. Levantou-se, e já de costas, soltou o preguiçoso “tarde”!

O menino seguiu a cerca, e bem antes do fim do mundo, abria o portão de casa. Após o almoço a tarde cuidou de se apresentar, como aliás, todo dia, a tarde se apresenta. Os pensamentos se seguiram, brincadeiras, estudos, alguns desenhos coloridos e já era a hora de bater na cama. Como todo menino que se preza, bastava fechar o olho que o sono tratava de agasalhar aquele corpinho mirrado. O menino dormiu, e dormindo sonhou.

Estava num lugar que não conhecia, ao seu lado o pai e os irmãos. A mãe ele não conseguia distinguir bem, mas razão para isso ele tinha. Nunca a conhecera. De mãe ele só tinha ouvido falar. Conhecia uma ou outra mãe de um amiguinho, mas para ele não era mãe, era só um adulto a mais. Mãe de verdade, que ele pudesse abraçar e contar segredos, ele não teve não.

No sonho ele estava feliz. Brincava com os irmãos num gramado daqueles verdinhos, molhado de orvalho. Um grama que acaricia o rosto e abraça nossa preguiça. A todo momento alguém o chamava. O menino corria de um lado para o outro. Que sono mais elétrico aquele! Ele não parava nunca. O sonho corria solto e solto ele estava a todo tempo.

Em dado momento, entretanto, ele percebeu que mãe não tinha naquele sonho maluco. Sentiu um vazio daqueles que a gente não sabe explicar. E ele não sabia mesmo, pois nunca teve mãe pra sentir saudade. Sem saber como mãe funcionava, não podia entender se era bom o ruim. Todos os colegas lhe diziam que mãe é uma das melhores coisas da vida, mas ele sabia só de ouvir falar.

O sonho, à essa altura, sofreu uma tremenda reviravolta. Ele foi acolhido por mãos delicadas que lhe puseram sentado sobre os joelhos. Teve que firmar os olhos para entender que era uma moça a interagir com ele. Ela perguntava como as coisas andavam, se estava indo bem na escola, se era um bom filho para o pai. Se obedecia. Enfim, essas perguntas que os adultos, via de regra, cismam de desfiar como se fosse um rosário. A tudo respondia sem muita convicção e com a vergonha natural de estar conversando com alguém que nunca tinha visto antes.

A moça, a cada resposta, soltava um sorriso gostoso e calmo. Seu olhar despejava carinho, desaguava uma coisa boa que lhe envolvia. Ele se sentia muito feliz, mesmo sem ter a mínima compreensão do que estava acontecendo.

No mais, ele não lembrava de nada. Ouviu o relógio cutucar seu ouvido no princípio da manhã, avisando que era hora de seguir a cerca, só que em sentido contrário. Pro outro lado ele sabia bem onde a cerca iria dar: na escola!

No trajeto, chutando pedrinhas, ele pensava no sono. Naquela altura já não mais se lembrava dos detalhes. Tinha consigo, no entanto, uma felicidade sem explicação. Estava feliz, não entendia o porque, mas estava.

A manhã passou e a rotina lhe empurrou de volta pra casa. Passou pela mesma venda, e lá estava o velho acocorado, cotovelos apoiados nas coxas, mastigando um raminho de capim. Dessa vez foi ele quem abordou o menino. Fez um sinal pedindo que se aproximasse. O jovem chegou bem perto e percebeu que o olhar do homem de chapéu estava diferente. Sem meias palavras o velho lhe perguntara se tinha ele aproveitado bem o sonho bom que teve. Era um sonho, mas não poderia ser desperdiçado. Se estava bom tinha que ser sorvido em sua inteireza, como um sorvete daqueles que a gente lambe um pouquinho de cada vez, só para ter certeza que ainda tem muito sabor pra aproveitar. O homem repetiu, então, o que dissera na véspera: a gente deve aproveitar as coisas boas o máximo que a gente puder. Dessa vez, ainda acrescentou que as coisas ruins também acontecem, mesmo porque têm que acontecer. Delas não conseguimos nos desviar, são balas que nos atingem quando estamos encantoados. Com as coisas boas é diferente. São saboreadas, não apenas vividas. Nos tingem a alma a ponto de esquecermos que nem sempre assim ocorre.

O menino fez que entendeu, se despediu num gesto, e seguiu a cerca. A bem da verdade não tinha conseguido ligar uma coisa com a outra. A frase do homem ficara perdida na esquina da estrada. Mas ele – menino – seguia feliz, mesmo sem entender que coisas boas acontecem sempre, às vezes quando a gente menos espera, às vezes em um simples sonho, e é isso que nos impulsiona, é o que nos faz seguir vivendo com um sorriso, mesmo quando não temos uma razão específica para arreganhar a boca.

Ainda demoraria muito tempo para que ele entendesse que viver é, antes de tudo, manter vivos nossos sonhos, encontrando neles as saudades, os vazios a serem preenchidos, para neles – os sonhos – vivermos as experiências que a vida não nos permitiu, por um motivo ou outro.

Os sonhos não nos cansam, ao contrário, sempre nos alcançam, ainda que como tolos adultos continuamos a insistir que não vale a pena sonhar. Nessa estrada mágica a cerca tem um fim mais próximo, ela termina exatamente onde começou: no fundo de nós mesmos. E dentro de nós, um dia o menino irá saber, é que se encontram todos os motivos para sempre sermos felizes. É lá que estão os pedaços da nossa vida que pensamos nos faltar.

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