Atos e Consequências

Mário Sérgio

Éramos garotos, é verdade, certos de que podíamos tudo, que sabíamos a solução de todos os problemas, mesmo que não soubéssemos a raiz quadrada de 16. As diferenças sociais e econômicas entre nós eram irrelevantes, mas quem tinha uma caixa de lápis com 12 cores, ou um estojo de madeira com desenhos impressos e tampa de correr, se sentia o “rei da cocada preta”.

O tempo nos mostrou que aqueles predicados não eram, como pudemos enfim constatar, o suficiente para criar classes distintas entre aqueles operários. Todos morávamos no mesmo bairro, em casas padrão, construídas sobre uma planta semelhante em lotes de dimensões similares. Ainda assim, a nossa inocência nos fazia acreditar que alguém que trouxesse um refrigerante ou um biscoito recheado para o recreio mereceria destaque. Nunca imaginávamos que aquilo era uma exceção, talvez única, para todo um ano letivo. Mas o que importa? Éramos crianças. Nossos sonhos, nossos olhares, não podiam perceber muita coisa além das montanhas que nos cercavam. Não podiam contemplar quase nada além dos muros baixos, com portões sempre abertos, que delimitavam cada simples moradia naquele bairro de classe média baixa.

E éramos felizes, pois não faltava o básico, mas também desconhecíamos o especial, o diferenciado. Nossos luxos eram um bombom Sonho de Valsa, um sabonete Phebo, ou brinquedos de plástico, uma pequena boneca ou um carrinho. Também uma viagem a cada mês para a capital, Belo Horizonte. Ainda que não fosse a passeio e, sim, para a troca ou manutenção do aparelho ortopédico de que sempre dependi, desde que fui infectado pela poliomielite. Uma patologia infectocontagiosa, terrível, que era também chamada de Paralisia Infantil ou, de forma mais romântica: Doença das Manhãs, porque, de hábito, sua manifestação mais intensa é mais perceptível na manhã que sucede ao contágio.

Hoje, vendo as notícias preocupantes de que há sério risco de que nosso país, como um todo, venha a se ressentir por tarifas e impostos exorbitantes, me lembro daquela infância de ufanismo por um jogo de 4 canetinhas hidrocor. E imagino o quanto éramos tolos ao acreditar que aquilo seria suficiente para demonstrar um diferencial positivo frente a outrem. Que aquele fictício poder protegeria nossa comunidade, nossos valores, nossa dignidade.

Um de nossos jovens vizinhos, muito estudioso e dedicado, passou no dificílimo vestibular para engenharia na UFMG. Isso era bastante incomum naquelas plagas. Pouca gente comemorou. Não tínhamos a noção da grandiosidade que aquela conquista representava. Especialmente naquele ano de 1974. Engenheiros causavam um certo receio, pois o título gerava naquelas pessoas humildes de nosso bairro, a sensação de que eram sempre “chefes” a quem se submetia na usina siderúrgica. Não era de todo verdade. Nem era de todo mentira. Faltava-nos o conhecimento, ou a humildade, de entender a extensão daquela vitória individual, mas que deveria servir de exemplo e estímulo para o desenvolvimento de muitos entre nós.

Possou ligeiro o tempo. A infância ficou distante, perdida em nosso tempo. Mas entristece saber que o Brasil, hoje, revive o tempo de nosso bairro.

Um comentário sobre “Atos e Consequências

  1. Ironicamente ou Iconicamente hoje seu filho, engenheiro, mestre em gestão de projetos, se alegra ao comprar uma caixa de canetinhas e um livro de desenhar para seu neto, os famosos “bobbie goods”, febre entre as crianças. Nem sempre tudo muda, mas infelizmente tudo fica mais caro.

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