Era um sábado como qualquer outro.
Ela fechou o livro, saiu da cama.
Olhou para o relógio na mesinha de cabeceira e viu que já eram quase dez horas.
Resolveu se levantar e abrir a porta para que a gata entrasse. A amiga dourada miou delicadamente. Era um bom dia, ela entendeu. Resolveu abrir as cortinas que, até então, continuavam fechadas. O sol brilhava e, de tão azul, o céu lhe incomodava.
Raramente passava um sábado assim, sem nenhuma programação, nenhum café marcado com amigas. Nada de shoppings, nada de churrasco em casa de primos, nenhuma pequena viagem ali por perto! Quis um final de semana só para ela. Recusou alguns convites dando uma desculpa qualquer. Era importante que, de vez em quando, ela tirasse um final de semana exclusivamente para si.
A sua própria companhia lhe agradava mais do que qualquer outra. Não era fácil exteriorizar esse sentimento. As pessoas achavam que era prepotência, arrogância ou “que mulher convencida”, como dissera uma prima!
Ao longo do tempo, ela se cuidou muito. Procurou se conhecer a fundo: tanto seu lado luz quanto o seu lado sombra. Se conhecia muito bem, mas nem sempre tinha nas mãos todas as soluções e todas as respostas. Foram anos em busca do autoconhecimento que hoje lhe equilibrava, mantendo-a, na medida do possível, mentalmente sadia.
Há muitos anos, vinha se dedicando integralmente ao Budismo; não como religião, mas como um meio leve e inteligente de viver os maus pedaços que a vida reserva para todos, sem nenhuma distinção.
O sofrimento é uma constante em nossas vidas. Somos todos atingidos por ele em algum momento de nossa existência. Todos, sem exceção.
E ela aprendera muito, lera muitos livros, conversava sobre o assunto com a sua terapeuta – que, para sua felicidade, era simpatizante do Budismo. O envelhecer, o adoecer, o morrer – já eram assuntos por demais pensados e, como espectadora, conseguia manter-se no equilíbrio diante das perdas, das mortes – o que não impedia o sofrimento, apenas lhe minimizava a dor. A impermanência em absolutamente tudo.
Insistia em sentir e oferecer compaixão para com (quase) todos.
A quem precisasse. Ajudando a todos a quem pudesse ajudar. Não precisava ser muito. Um pouco de cada vez, se possível todos os dias. Não se tratava apenas de minimizar as necessidades dos mais necessitados. Às vezes, um bom dia, com um sorriso, fará diferença para aquele pedreiro que está na calçada olhando para o prédio onde trabalha. Não custa nada mesmo!
Após um tempo, chegara o momento de fazer tudo que tinha vontade.
Um banho demorado, bem quentinho.
Cabelo lavado com muito cuidado, lentamente, como se fosse parte de um ritual. Creme hidratante, perfume e, diante do espelho, creme facial.
Liberdade plena para gastar o tempo que lhe parecia necessário.
Com carinho, espalha o creme no rosto. Reconhece as rugas, as marcas do tempo, o roteiro de sua vida escrito ali. Em nenhum momento se sente infeliz por isto. Pelo contrário, tem orgulho verdadeiro de cada traço, de cada dobrinha, de cada sinal que o tempo deixou e voou, passou rápido demais.
Nenhuma olhada no celular.
Nenhum telefonema para ninguém.
O filho estava viajando com a família para São Paulo e só voltaria na terça-feira. As amigas mais próximas já sabiam que aquele final de semana era dela, só dela, unicamente dela. Nada poderia lhe interromper o sossego. Respirou fundo, foi até a geladeira, pegou a metade de um abacate e começou a preparar uma vitamina.
Mas nem tudo sai como a gente planeja…
Ouviu um barulho estranho, seguido de algumas vozes, uns gritos.
Como o seu apartamento era nos fundos, não lhe era possível ver a rua, mas percebia-se, pelos mais diferentes sons, que algo estranho se passava.
Levou para o quarto a vitamina, deixou o livro aberto sobre a cama, colocou uma roupa e desceu.
Desceu os primeiros três lances de escada e encontrou o Ernani, filho do Dr. Jairo. Ele também não sabia o que acontecera, mas vira o carro de polícia e uma ambulância. Estava também querendo saber o que acontecera, saber o que se passava. Algum morador do prédio envolvido? Assalto?
Desceram juntos mais três lances de escada, quando uma das portas se abriu e dona Zélia, a portuguesa, se aproximou, aos prantos. Como ela morava no apartamento da frente, ouvira as vozes, ouvira o som do carro da polícia e, chegando à varanda, lá de cima, avistara uma ambulância.
Dona Zélia estava sozinha em casa. E chorava de nervosa, afirmando que algo muito grave deveria ter acontecido.
Chegando ao térreo, viram a porta de segurança, a porta de entrada e o portão que dava para a rua, os três escancarados, sem ninguém conhecido por perto.
Pessoas desconhecidas circulavam por ali.
Foram se aproximando da calçada quando notaram um corpo coberto. Policiais e agentes do Corpo de Bombeiros falavam ao telefone. Olharam para o lado e viram o Maurício encostado na parede, muito quieto, olhando para o corpo.
– Por amor de Cristo, Maurício, diga-me o que se passa – disse dona Zélia, já chorando, muito nervosa.
Maurício olhou para os três. Estava pálido e ofegante. Olhava o corpo coberto na maca. E ele contou:
– Sabem o Alexandre, filho do Dr. Maciel? Então… ele subiu até o último andar e se jogou, agorinha mesmo. Dizem que já está morto, mas, mesmo assim, a ambulância vai levar ele para o hospital.
Ninguém disse nenhuma palavra, quando, de repente, dona Zélia desmaiava, caindo ao chão. Ela tentou segurar as pernas, e os meninos, o tronco, bem pesadinho.
De repente, surge o porteiro. Seu Lourival orienta para que dona Zélia seja levada para o bar do play, no térreo, onde poderiam deitá-la sobre duas mesas, cobertas com os colchões de yoga. Assim fizeram.
Dez minutos depois, ela já estava melhor. Procuraram um enfermeiro que pudesse lhe tirar a pressão. Ela tomou água, olhou para ela e disse:
– Ô menina, não me deixe sozinha em casa. Peço-lhe que cuide de mim. Quero ir para sua casa, até minha filha chegar.
Ela respirou fundo. Telefonou para Aninha, a filha. Relatou o ocorrido e soube, então, que a filha encontrava-se numa fazenda não muito longe, mas que só chegaria ao final da tarde.
O que depende da gente, a gente faz… o que não depende, a gente aceita. Ela vê naquela situação uma chance real de fazer o bem, mesmo tendo que mudar completamente seus planos para aquele sábado.
Levou a senhora para seu apartamento. Fez um chá que as duas tomaram juntas. Comeram uns biscoitos, e ela perguntou para dona Zélia se não seria bom se deitar um pouco.
– Claro, menina, só não queria lhe dar tanto trabalho!
– Trabalho nenhum, dona Zélia, um prazer cuidar da senhora até que a Aninha chegue. Vou arrumar a cama da sala de TV e volto para lhe buscar.
Ajeitou os travesseiros sobre os lençóis cheirando a lavanda.
Colocou-lhe uma manta para que ela ficasse quentinha. Colocou-a na cama depois de tê-la levado para fazer xixi. Puxou as cortinas, deixou a porta da sala aberta.
Enquanto abria novamente o livro e esperava pela chegada de Aninha, refletiu sobre o dia. Imaginava a dor dos pais do Alex. Fosse qual fosse o motivo, nenhuma razão justificaria uma morte assim, tão estúpida.
O que dizer da vida. Das pessoas. Do sofrimento de cada um. Soluções absurdas, sem justificativas. No dia seguinte, iria visitar a família. Todos em solidariedade: amigos, familiares, colegas da faculdade, a namorada. Ela poderia esperar um pouco antes de levar alento e abraços aos pais do Alex.
Acendeu uma vela. Um incenso. Que a viagem do Alexandre fosse coberta de luz, que sua alma chegasse em paz aonde deveria.
Levantou-se e foi ver dona Zélia, que dormia profundamente. Olhou para aquela senhora, agradeceu pela oportunidade de ser útil.
Ela esperaria por Aninha, o tempo que fosse necessário. E tudo que programara para aquele sábado ficaria para o domingo.
Por que não?
Respirou fundo e voltou para o livro.
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Que sentimento, quanta sensibilidade!! Conto maravilhoso!! Obrigada querida!! Bjss...
Fantástico ! Adorei o suspense da narrativa!!
Parabéns!!
Ótimo conto querida Rosa ….
Conto belíssimo. Adorei!! Parabéns! Abraços.