Zé do Boi

Mário Sérgio

Recostado numa cerca de tela que encimava um muro baixo, como era padrão naquelas casas de meu bairro, eu descansava para, a seguir, continuar a subida até a minha rua. Uma manhã como qualquer outra, para uma criança fragilizada pelas sequelas de pólio, que a obrigava a mais períodos de descanso do que necessário para as outras crianças. Clara, modorrenta e tranquila, seguia a manhã e a vida.

Um jovem senhor vem subindo a mesma rua. Sabia quem ele era e que morava na quinta ou sexta casa depois da minha, mas já não lembro seu nome.

Ao passar por mim, quis fazer um gesto amigável, com tapinha de amigos nas costas, porém, a diferença de altura entre mim e ele, fez com que o toque, que deveria ser um aceno gentil, atingisse as nádegas e não as costas. A reação foi imediata. Ele me olhou de cenho franzido e disse, um tanto bravo:

– Olha a liberdade!

Naquele momento, assustado pelo tom da fala, eu não fazia ideia do que ele queria dizer com aquilo: “Olha a liberdade!”? O que será que significava isso? Quando entendi o recado, já ia longo tempo do episódio e já não havia contexto.

Quantas contendas, em todos os níveis, seriam evitadas se as linguagens fossem mais bem compreendidas? A mensagem amigável do meu gesto infantil, se perdeu nos filtros emocionais daquele adulto.

Experimentamos outras situações arriscadas, cuja intenção era ser apenas brincadeiras de mau gosto, mas criavam um ambiente conflagrado entre os atores envolvidos.

Havia, por exemplo, um senhor que vagava pelas ruas do bairro totalmente desequilibrado pelo efeito das muitas doses de cachaça de que se fartava desde muito cedo. Pelo fato de o bairro estar numa encosta, apenas as ruas transversais eram planas. A avenida que as contorna tem aclives bastante acentuados. Com isso, o Sr. Joaquim ia de um lado a outro da rua tentando se manter de pé. Foi apelidado de “carteiro” em razão de seu ziguezaguear. Às vezes algumas crianças gritavam-lhe antes de correrem para longe:

– Cerca a porca, seu Joaquim.

E o velho senhor respondia com muitos palavrões. Claro que se tornou mais uma alcunha para o pobre senhor: “Cercaporca”.

Algumas dessas atitudes ensejadas mais pelos meninos do que pelas meninas, tinham o poder, naturalmente triste, de estigmatizar as pessoas que se tornavam alvos dos gracejos. Nos dias atuais, há um nome para o problema, apesar também de muitas vezes seu uso não se justificar: Bullying.

Fui, e ainda sou em raros momentos, objeto de algumas dessas chacotas pelo caminhar instável, por alguma queda ou incapacidade de acompanhar pessoas em passo comum. Tais situações sempre foram parceiras próximas em minha existência e, talvez por isso, nunca chegaram a ser incômodo. A falta de réplica aos achaques evitou que os apelidos “colassem”, por sorte.

Um outro senhor ali, também se tornou motivo de brincadeiras ofensivas à sua honra, às quais respondia com voz gutural, embargada pelo álcool:

– Zé do Boi é a PQP.

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