Mar de vento sul

Sandra Belchiolina
sandrabcastro@gmail.com

O vento sul desceu cortando, daqueles que vêm de mansinho, mas deixam tudo arrepiado. Em Cumuru, quando o vento vira daquele jeito, pescador já sabe: “o mar não tá para peixe.”

O pescador estava lá, como todo dia, com o pé enterrado na areia da beira. Olhava seu barco balançando preguiçoso, meio torto, meio cansado. A canoa parecia conversar com ele, pedindo um tempo. E ele entendia.

O mar, inquieto, jogava na praia um rastro de avisos: cordões de algas emboladas, conchas partidas, pedaços de recife que se soltaram. O mar cuspia parte de seu corpo, deixando na areia um belo caminho e algas e fragmentos de animais marinhos. O pescador, calejado, sabia ler aquilo como quem lê bilhete antigo. “Hoje, não”, dizia o mar.

Sem pressa, foi até sua canoa. Tirou a areia acumulada do fundo, tirou a água que o mar deixara de presente na última volta. Não reclamava, não xingava. Era o trato entre ele e o mar. Dia sim, dia não. Hoje era não.

Em Cumuruxatiba, ninguém precisa de aplicativo pra saber o tempo. É no cheiro do vento, no jeito que a restinga se curva, no silêncio dos bichos. É no faro antigo que vem do sangue, aprendido com o pai, que aprendeu com o avô, que aprendeu com o mar.

“Hoje o mar tá de birra”, murmurou o pescador, olhando pro horizonte. E voltou a limpar a canoa, como quem faz cafuné num filho doente. Porque pescador, de verdade, não briga com o mar. Escuta ele.

Enquanto isso, a vila despertava devagar. Uns passavam e acenavam, outros perguntavam se ia sair. O pescador só balançava a cabeça, olhando o céu baixo, meio fechado, como quem diz: “Só amanhã, se ele deixar.”

E assim ficou, na espreita, não do peixe, mas do tempo. Porque quem vive do mar aprende cedo: mais vale perder um dia de pesca do que se perder no mar.

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