Taís Civitarese
Algumas amigas sentem dificuldades em estabelecer limites com seus filhos. Outro dia, ouvi uma pessoa dizer que tinha dificuldade em dar limites à sua filha porque não queria replicar o clima de autoritarismo (que rondou o país recentemente) na criação dela. Com isso, deixava que a menina riscasse as paredes da casa “para se expressar artisticamente” e dizia, com certa desvinculação, que ela poderia escolher ser o que quisesse quando crescesse entre qualquer profissão existente no mundo.
A maior tentativa que se tem ao criar filhos é que eles cresçam com menos neuroses do que nós crescemos. Que sejam de fato melhores que nós, mais felizes, mais resolvidos e mais seguros.
Nessa empreitada, queremos fazer diferente do que foi feito conosco. Damos mais carinho, falamos mais manso, usamos chinelos e cintos apenas como peças de vestuário, evitamos o castigo no cantinho do pensamento. Compramos a bugiganga que nos pedem na ida mesmo e deixamos de vez em quando comer um biscoito antes do almoço.
Entretanto, não há parentalidade saudável que sobreviva a uma criação sem imposição de limites. A relação entre pais e filhos existe inevitavelmente dentro de uma hierarquia, embora ela nem sempre seja fácil de ser sinalizada ou simples de ser percebida.
Quem cria é uma referência, um ponto de partida. Se somos frouxos demais ou ausentes, onde estará a base de apoio para um bom desenvolvimento?
Sempre digo às minhas amigas que a quantidade de adoecimentos mentais em jovens de famílias com pouco limite é infinitamente maior do que as que acontecem em famílias com regras claras (segundo minha mera observação ao longo de sete anos de trabalho no ambulatório de psiquiatria da infância e adolescência do Hospital das Clínicas da UFMG).
Podemos fazer analogia à sensação de se estar no mundo como se fosse o mesmo que nadar em um mar imenso. Os limites são as bóias flutuantes que nos impedem de afogar. Podemos nadar de uma para a outra, mas sempre precisaremos delas para pausas, para descanso, para delimitar nosso percurso. Um mar com bóias demais será impossível de se percorrer. Um mar com bóias de menos nos deixará perdidos, caóticos, cansados, afogados e sem referências.
Precisamos de bóias e, como gosto de pensar, de bordas. Ainda que elas se modifiquem ao longo do tempo, se alarguem, flexibilizem ou mudem de lugar. Sempre poderão existir novos acordos diante de novas necessidades.
Limite é amor, base e segurança. Temos a obrigação de civilizar nossos filhos, o que, ironicamente, também ajuda a organizá-los psiquicamente. Acreditem, a falta de limites definitivamente não é um modo melhor de amar.
Maravilhoso, Taisinha. Muito bem escrito e gostoso de ler, mesmo sentindo a dor de termos errado.
Parabéns, meu amor. Você está cada dia melhor.
Bjos
Linda analogia.
Adorei, como país o desafio é sempre buscar um equilíbrio
Que texto perfeito, Professora!
Dar limites é também uma prova de amor!