Campinho de pelada

Mário Sérgio

Das poucas memórias de esportes na infância, posso citar quatro, sendo que três deles nem sei se são, oficialmente, esportes. Senão, vejamos: tinha a “Finca”, que era uma pequena lança pontiaguda, normalmente feita de sobras de vergalhão. Desenhavam-se duas “casas” na terra, em um espaço plano, que eram o ponto de partida de cada jogador. A finca era arremessada e precisava ser cravada no chão.

Os buracos formados por esse arremesso eram ligados ao anterior por uma linha riscada no chão, até contornar a casa adversária e retornar à própria base. Se a finca não fincasse no chão, passava-se a vez ao outro competidor. A defesa se fazia dificultando a conexão entre os pontos adversários, especialmente próximo às casas, quando o espaço entre essas e a linha produzida fosse bastante estreito. Venceria o primeiro a concluir o percurso.

Outro, com regras similares, era dividido em duas categorias: a primeira jogada com bolinhas de gude (vidro), e a segunda, com tampinhas de cervejas/refrigerantes.
O terceiro, a Queimada, que, como o anterior, ainda sobrevivem ainda em umas poucas partidas em alguns locais.

E, finalmente, o nosso futebol de várzea. Esse nome, que inicialmente se referenciava ao futebol paulista, jogado em campos precários, amadores, virou referência a este esporte quando jogado em quaisquer campos improvisados, sem grama ou outra pavimentação.

No primeiro e no segundo, básicos, jogados com as mãos e, até sentado, me saí razoavelmente bem.

Quanto aos outros dois, sempre me coube a condição de plateia, apenas. No futebol, inclusive, fazia parte de uma galera que muito frequentemente também era excluída das partidas. Os times eram formados pouco antes das partidas, das “peladas”, como se designavam esses eventos quase festivos. Os dois considerados melhores jogadores ficavam como maestros ou, oficialmente nos jogos profissionais, capitães. Eles tinham também a incumbência de escolher os componentes de seus respectivos elencos.

Numa disputa tipo cara-ou-coroa, o vencedor escalava o primeiro dos muitos ali presentes e o perdedor optava pelo próximo e assim sucessivamente até completarem os times. A minha sequela de pólio, que afetou severamente minhas pernas, não foi impeditivo para ser escalado por um irmão mais velho, uma ou duas vezes, como goleiro. A minha incapacidade, no entanto, gerava a substituição em menos de cinco minutos. Mas já era o suficiente para não me sentir tão excluído, tão pária; para sorrir de orelha a orelha por participar.

Depois eu voltava para o pequeno promontório num dos lados do campo, perfilando com os “pernas de pau”, aqueles sem habilidades ou coordenação. Os convocados, diziam, às vezes, que eles tinham duas pernas esquerdas. E eu, criança, nunca percebi isso.

O avô materno de meu filho, usando uma referência do Sul de Minas, muitos anos depois, em nossas conversas, informava que já havia atuado como técnico nessas partidas amadoras. E, analisando alguns dos profissionais que víamos em jogos na televisão, dizia que eram tão ruins, que, caso ele fosse o técnico, aqueles jogadores não ficariam “nem no barranco”, também conhecido como “banco de reservas”.

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