Peter Rossi
Conversando com um amigo, profissional liberal, com uma vida tranquila, morando em casa própria, ainda que em um bairro afastado, me dei conta de que não utilizo o transporte público há, pelo menos, quarenta anos!
As viagens ao exterior não contam! É incrível como em viagem nos submetemos a rotinas que jamais enfrentaríamos em nossa própria cidade. Andar de ônibus vermelho, de dois andares, em Londres é um luxo. Subir a bordo de um trem bala no Japão, uma experiência única. Enfrentar filas enormes para contemplar Velasquez, no Museo Del Prado, em Madri, é algo agradável. Mas faríamos isso aqui?
Como dizia, não me lembro da última vez que enfrentei um ônibus urbano. Metrô, sim. Já utilizei para ir até Interlagos, assistir a Fórmula 1, e ainda ao Maracanã, para ver um show do Phil Collins. Aqui, também tomei o metrô e fui de uma ponta a outra, só para ver como era.
Mas em situações cotidianas, não uso o sistema de transporte urbano da minha cidade. E, talvez por isso, me assustei quando um dentista me disse que usava todos os dias.
E me contava com um sorriso no rosto. – A única coisa que faço é evitar os horários de pico, para que possa ir sentado. É muito bom, e muito barato!
Em seguida me reporta algumas poucas situações desagradáveis, como quando um passageiro cismou de comer uma mexerica e, descascando a fruta cuidou de perfumar todo o ambiente. Ou quando um rapaz ficou ouvindo um funk no celular, na maior altura, sem fones de ouvido.
Mas, fora isso, são viagens tranquilas, dizia o amigo. – Aliás, em diversas situações da vida nos vemos obrigados a aceitar o exagero alheio, repetia, como querendo se justificar.
Num primeiro momento não tive o ímpeto de subir no ônibus. As constantes reclamações, sobretudo dos usuários, escancaradas diariamente nos noticiários me impunham ressalvas.
Mas, lado outro, a tranquilidade transmitida pelo amigo levantava suspeitas e resolvi aceitar o que poderia vir a ser um desafio.
Combinei de tomarmos um ônibus até Venda Nova, um bairro distante, onde ele morava. Na verdade, foram três! Procuramos sair no meio da manhã, evitando o grande fluxo de pessoas. Deu certo! Seguimos sentados, até porque, como sexagenários, ambos temos assentos reservados, ainda que nem sempre disponíveis.
O ônibus tinha ar-condicionado e estava relativamente vazio, ninguém em pé. Pude observar uma avó com um netinho que levava para uma consulta médica, meio atrapalhada com tantos resultados de exames que teimavam em pular de um amarrotado envelope.
Tinha, também, um casal de turistas. Eram ingleses, e seguiam para o Mercado Central. Estavam a fazer o que sempre fazemos em nossas viagens.
Uma mocinha com o livro aberto só minutos depois percebeu que perdera o ponto, absorta pela leitura. Levantou-se com cara de poucos amigos e pediu ao motorista que parasse tão logo fosse possível, pois teria que caminhar de volta. Seu destino ficara para trás.
Numa das últimas cadeiras percebi uma freira com um terço na mão e lágrimas nos olhos, certamente a rezar por alguém que de fato necessitava de auxílio.
Dois rapazes, entretidos com o celular, viajavam sem imaginar sequer onde iriam chegar.
Pessoas comuns, num mundo comum.
Descemos e numa determinada estação tomamos o segundo ônibus. Foi quando percebi que não precisaria pagar outra passagem. O que paguei tão logo tomei a primeira condução era o que bastava. Uma sensação de pertencimento preencheu meu peito.
Seguimos e, uns vinte minutos depois, saímos e alcançamos o terceiro e último ônibus. Logo chegamos a Venda Nova.
Nessa aventura toda, foram quarenta a cinquenta minutos, não mais que isso.
Descemos e logo alcançamos a casa do meu amigo. Pouco mais que setenta metros do ponto do ônibus. Uma casa dos anos cinquenta, com um alpendre que se alcançava após subir quatro degraus. Logo à frente, treliças de madeira faziam as vezes de balaustrada. Nos sentamos em cadeiras de fios plásticos. Eram perto de onze e meia da manhã.
– E então? O que achou? Era o amigo que me perguntava.
– Foi muito divertido, respondi. Mas com a nítida sensação de que aquela era uma situação especial. Fiquei a pensar em todos que se valem do transporte público diariamente e, o que é pior, se submetendo aos horários de pico, por força do trabalho e suas obrigações.
Mas o amigo insistia que, mesmo sendo um usuário contumaz, não se sentia incomodado em se valer do serviço público de transporte.
Que dilema! Será que é tão ruim como falam todos, ou o levar das vozes os conduzem ao eterno reclamar? Será que eu, um alienígena no assunto, menosprezo a dor alheia? Ou será que tudo é uma questão de ponto de vista e de disposição (e disponibilidade) de extrair das situações o melhor que elas podem nos oferecer?
Não tenho opinião formada. Foi uma experiência válida. Mas, na viagem de volta, dessa vez sozinho, me peguei pensando que essa amigo meu é, antes de tudo, um sábio!
Lindo texto que traz uma reflexão interessante sobre como a percepção do transporte público pode variar conforme a experiência de cada um. O autor, como usuário ocasional, questiona se as reclamações frequentes são justificadas ou um hábito, enquanto seu amigo, acostumado à rotina, encara a situação com mais leveza. Por fim, ele reconhece que a perspectiva e a atitude diante das circunstâncias fazem toda a diferença, valorizando a sabedoria do amigo. Sucesso aí Peter adorei
Eu sempre utilizei nos meus quase trinta anos de trabalho!!! Nunca tive problema, problemáticas são as pessoas q amam reclamar!!! Tenho até saudade da época q usava o TRANSPORTE PÚBLICO!!!!