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Antigamente

Silvia Ribeiro

Antigamente eu acreditava que não deveríamos expor os nossos sentimentos.

Se nós mulheres gostassémos de alguém não poderíamos demonstrar, isso era ser fácil, e logo a outra pessoa perderia o interesse deixando ranhuras na nossa autoestima.

Aquelas coisas…

Na verdade eu nem sei de onde as pessoas tiram essas teorias e nem como elas dão crias. Parecem mais uma narrativa baseada em castrações e previsões apocalípticas que só servem pra nos deixar vulneráveis em nome de conceitos ditos aceitáveis, mas totalmente contrário à nossa evolução.

Ouvia dizer que se um homem se apaixonasse também não poderia dizer, seria tachado como bobo ou fraco causando uma hipnose na sua estrutura de caçador e deixando frágil o seu modo de ver e de sentir a sua conquista.

Confesso que isso durante muito tempo ficou rondando dentro de mim, como aquelas histórias que nos contam quando criança no intuito de nos amedrontar. É o fatídico momento em que nos apresentam todos os sacis, mulas sem cabeça, curupiras, lobisomens, e não a menos famosa loira do banheiro. Quem nunca?

Mas que fundamento teria não poder declarar o que sentimos?

Só sei dizer que hoje venci essa batalha pavorosa e me mostro desvairadamente e em cores néon à quem quer que seja que me arranque um suspiro, que traga à tona os meus desejos, que convença o meu corpo, que ria com as minhas emoções, e que sobretudo saiba conversar com o meu coração.

Declaro a minha amizade, a minha gratidão, o meu afeto, as minhas fragilidades, os meus escuros, as minhas manias, e até a minha TPM.

Declaro o meu amor: e como nada é perfeito, declaro também o meu des(amor).

*
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