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Devaneios

Eu sempre tive a sensação que escrever era uma maneira de não me sentir só. E à medida que o lápis cortejava o papel as palavras iam vencendo a boemia das minhas emoções que sempre estavam por ali, na noite do meu quarto esperando a hora de descansar.

E passado alguns anos eu já não me contentava mais com aquela clausura que mantinha os meus pensamentos em sigilo sem sequer perguntar se é bom ser livre, e vivendo num mundo completamente ao léu acreditando apenas nas superfícies da realidade.

Precisei deixar as minhas palavras em algum lugar pra que elas se tornassem memória dentro de mim, e pra que elas decidissem o que queriam ser. E elas quiseram ser sonho.

Num encontro comigo mesma, deixei que houvesse uma concepção de premonições que há tempos me fazia companhia pelos arredores do intangível e quis vivenciar aquele coito. Os dias foram desafiando o calendário e uma gestação estava ali, pronta pra abraçar aquela espera, não só no meu ventre mas em cada célula que compunha a minha alma.

Senti todos os sintomas de quem carrega dentro de si um corpo estranho: medo, alegria, coragem, desistências, persistência, sins, nãos, e todas as contrações que me contavam que aquele nascimento seria possível.

As semanas se passavam e uma força embrionária começava dar os seus primeiros sinais de vida buscando por algo que a nutrisse e a mantivesse respirando, afastando pra longe um possível e implacável abortamento. Dali em diante não demorou pra que ela conquistasse uma nova fase e já pudesse ser vista com uma silhueta fetal.

Gostei tanto daqueles movimentos que se exibiam dentro de mim que me entreguei ao inusitado. E no ápice da minha inquietude, eis que um sinal vindo de dimensões longínquas capaz de transformar entusiasmo em exatidão chega com asas de borboletas e anuncia aquele parto.

Sem temer aquela emoção que nascia de forma natural e sem a necessidade de uma conversa com o bisturi me coloquei bonita e com um sorriso aceso pra receber esse “ser” tão planejado.

E ele veio sem apego e com uma capacidade surreal de me envolver e de me encontrar a qualquer custo, trazendo consigo um olhar destemido e emocionalmente saudável, me divertindo com uma profundidade gostosa. E quando me lembro da sua corajosa maneira de vir ao mundo, sem melindres e completamente disposto a desbravar itinerários energéticos me sinto bem e com a sensação de dever cumprido.

Hoje, embalo em meus braços o meu primogênito, e quando olho pra ele encontro uma vibração que eu costumo chamar de sonho.

Mas agora ele só me responde pelo nome de: DEVANEIOS.

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