Anchovas

Taís Civitarese

Estou obcecada por anchovas. Não sei de onde surgiu essa mania. Fui tomada pelo desejo repetitivo de comer o peixe azul em abundância. Certamente, tem uma explicação oculta.

Tenho vívida a lembrança de infância da pizza de aliche ser a menos prestigiada das pizzarias. Até nas histórias em quadrinhos, ela era sinônimo de “pegadinha”. Me vejo subitamente desejando comer potinhos desse ingrediente de sabor forte e odor marcante. Teria a ver com alguma peculiaridade minha? Ou estaria eu em identificação com os significantes da rejeição e da estranheza?

Não me perguntem os motivos de tamanha volúpia alimentícia.

Não tenho sequer uma memória afetiva relacionada a esta iguaria. Ou melhor, tenho. Meu avô as amava.

Será uma manobra inconsciente de resgate das minhas origens? Talvez, agora que nossa família sofreu outro baque (link para o texto de 21/07), um sinal de que as tradições perduram para além da presença física de quem as iniciou?

Tenho certeza que esse frisson, como todos, carrega seus significados…

Anchovas nadam em cardume. Uma protege a outra. Talvez isso remonte a um desejo de pertencimento e coesão com meus próprios parentes.

O seu sabor forte e salgado chega a ser repulsivo para algumas pessoas. E em gostar do que é considerado polêmico, ainda exercito o prazer de ter certa peculiaridade.

Anchovas. Fui acometida por elas.

E haja significantes…

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