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Saber de cor

Peter Rossi

Lendo alguns textos – meu Deus, será que não tenho nada pior pra fazer? – me deparei com uma frase que me remetia à contemplação de que a expressão “saber de cor” resulta da ideia de coração. Será?

Parei, olhei para o lado e esperei que a nuvem cinza a prenunciar uma chuva de março me desse a resposta. Revisitei alguns conceitos, abri janelas cerradas e esperei a metamorfose natural que não aconteceu. Aliás, nada acontece por acaso, não é? Da árvore de nossas escolhas, colhemos os frutos, ácidos ou doces, com os quais nos deliciamos. Já dizia o poeta “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. E sabe mesmo, pois a capilaridade conduz a seiva até nossa alma. A simbiose entre o medo e o incerto resultam na consequência.

Mas falava do “saber de cor”. Afinal, o que sabemos de cor? Nosso nome, o de nossos filhos? Nosso endereço? O surto recente de covid nos atrapalhou nessa empreitada. Eu mesmo, por vezes diversas, me deparei num diálogo com algum amigo a esquecer momentaneamente o seu nome. Incrível! Num átimo, tudo voltava ao normal. Será?

Saber de cor, então, significa dizer que sabemos de alguma coisa, sem maior esforço, porque ela mora em nosso coração? Mais uma vez – será? A metáfora é uma fantasia cercada de adereços, a desfilar no sambódromo do imaginário.

Coração, por favor, me explica isso. Tenho tantas coisas guardadas com você. Te encaminhei tantas cartas das quais sou remetente e destinatário, sem sequer preocupar com o endereço… Por favor, meu amigo, fala alguma coisa.

E os fatos, as fotos, os retalhos, as almofadas, as franjas? Sei que sempre se arruma, empurra alguma coisa pro fundo, a esperar espaço para as mais recentes, mas tudo isso são memórias que sei de cor? Aí a coisa toda se enjambra, pois se jogar no chão tudo que vivemos juntos, não conseguirei identificar todas as peças, e aí o conceito de “saber de cor” vai pro ralo! Aliás, a dissenção me permite outra pergunta: o coração tem ralo?

E as memórias mantidas sobre coisas profanas? Nosso coração aguenta manter lá todos esses dados, no HD muscular? As lembranças. Agora entendi, são as lembranças, delas sabemos de cor. 

Nossa! Que confusão! Paremos, uma dúvida puxa a outra e descarrilha o trem do raciocínio lógico. E não venha você, coração, me dizer que a lógica não se aplica ao seu habitat. Por favor, sem clichês. O filme, o final todos sabemos. Tratemos, pois, de remendar todas as fotos dos beijos, como em “Cinema Paradiso”.

Ali, sim, eu te vi pleno, coração. Se pudesse personificar a imagem, você estaria grudado com fita durex em todos aqueles fotogramas que um incêndio poupou. Quantas vezes vi e revi aquelas imagens, aqueles beijos todos a me emocionar escancaradamente. 

Ah! Mais uma vez eu entendi! Essas são imagens que sei de cor, sei de coração….

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