A menina de cabelo azul

Reprodução/Pixabay

Pelo menos neste ponto a sociedade está certa: bebida e direção, realmente, não combinam.

Thomas, por exemplo, esvaziou três garrafas de cerveja e não viu quando a garota de cabelo azul atravessou na sua frente. Ela girou por cima do capô e agora está deitada de bruços no asfalto. Ao seu lado, uma poça de sangue começa a se formar.

É meia-noite, a uma hora dessas ninguém circula naquele pedaço escuro da cidade, então, naturalmente, Thomas pensou em fugir.

Ele girava a chave na ignição quando escutou a porta do passageiro se abrir. No instante seguinte, a garota de cabelos azuis já estava sentada ao lado dele.

— Vamos logo! — disse ela, um tanto fanha, pois tentava estancar o sangue que escorria do nariz.

— Claro! Eu ia mesmo te levar ao hospital, que fica a menos de um quilômetro daqui Você vai ficar bem! Confie em mim!

— Hospital? Quem falou em hospital? Não temos tempo a perder. Dirige essa merda!

Durante vinte e cinco minutos, Thomas dirigiu em silêncio, obedecendo aos comandos da garota de cabelo azul. Ele pisou fundo no acelerador, alcançando uma velocidade de 120 km/h, quando perguntou:

— Quem é você?

— Não interessa. Precisei pular na frente do seu carro para você me notar, agora quer perguntar o meu nome, como um cavalheiro cheio de boas intenções? — respondeu a garota. — Dirige, estamos quase lá.

Uma ruela escura ladeada de casebres parecia se fechar contra o carro, à medida que eles iam avançando. Thomas nunca havia transitado naquele ponto da cidade. Mal sabia ele que, adiante, o cenário se tornaria ainda mais lúgubre.

Foi debaixo de um poste com luz bruxuleante que a garota pediu que ele parasse. A menos de cem metros dali, no chão de asfalto, havia um bueiro fumegante.

— É aqui. — disse, abrindo a porta do carro. Ela então deu a volta no automóvel, olhou nos olhos de Thomas e falou: — Lembre-se, você foi escolhido para conhecer a verdade. Prepare-se para o que verá.

Thomas engoliu em seco e ficou em silêncio. Por alguma razão, ele sabia que todas as suas perguntas seriam desnecessárias, pois as respostas estavam bem ali, debaixo de seus pés.

Ele ajudou a garota a arrastar a pesada tampa do bueiro, e os dois começaram a descer uma estreita escada de ferro.

Thomas já havia perdido a conta de quantos degraus havia descido quando parou para descansar. Acima dele, o buraco destampado do bueiro havia se transformado em uma pequena circunferência luminosa. Abaixo dele, escuridão. E foi da escuridão que ele ouviu a voz chamá-lo.

— Ande logo! Ainda estamos na metade do fosso.

Lá embaixo o ar era denso e malcheiroso. A única fonte de luz era a lanterna do celular.

Thomas vinha seguindo a garota de cabelo azul por uma longa galeria de túneis. Ele já havia perdido o sentido de direção. Havia uma verdadeira cidade por baixo da cidade.

Uma cidade invertida.

De repente, a luz do celular foi ofuscada por um clarão. Thomas e a garota chegaram a um enorme salão, repleto de luzes, computadores, cabos elétricos e equipamentos tecnológicos vistos apenas nos filmes de ficção científica. Ao menos uma centena de milhares de poltronas se enfileirava entre os computadores. Em cada uma delas, descansava um rato enorme, ligado a inúmeros eletrodos.

Thomas percorria pelo salão boquiaberto, ao lado da garota de cabelo azul. Ele quis perguntar, mas as palavras lhe falharam. Então ela se antecipou:

— Esta é a sala de controle. — Começou a garota. — É aqui que nós controlamos os nossos avatares humanos em suas vidas mundanas. É daqui que saem os comandos para as tarefas mais simples, como dar a descarga após usar o banheiro, bem como para os trabalhos indispensáveis à nossa sobrevivência, como produzir toneladas de lixo todos os anos.

— Mas…

— Venha! — disse a garota, interrompendo a fala de Thomas, que ainda permanecia boquiaberto. — É hora de conhecer a sua verdadeira natureza!

A garota conduziu Thomas até um dos cantos do salão, e lá estava ele: um jovem rato, aparentemente adormecido sobre uma poltrona, enquanto o computador ao lado captava as suas frequências cerebrais.

Ao lado do roedor, Thomas não pôde deixar de perceber uma linda ratinha, que também jazia em uma poltrona, enquanto um discreto fio de sangue escorria pelo nariz. Mas foi um detalhe na pelagem fina sobre a cabeça dela que chamou a atenção de Thomas.

Eram pelos azuis.

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