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Onde moramos há três, quatro ou dez prédios subindo ao mesmo tempo. São filhotes de gigantes de pedra, que acordam cedo e tocam músicas estranhas, feitas por britadeiras, furadeiras e martelos. Prefiro as guitarras dos Rolling Stones pela manhã. Que importa? Não se fazem prédios com pedras rolantes.
Enquanto perdem a cadência na batida de martelos em descompasso, os prédios lançam uma poeira vermelha no ar. Faz parte do show. E, como os bebês, vão crescendo de um dia para o outro. Quando estiverem bem grandes, lançarão suas sombras sobre nós. Um abraço sufocante.
O horizonte que vejo da minha janela termina do outro lado da rua. Uma vez, as montanhas emprestaram o adjetivo “belo” à vista que se tinha de nossa cidade. Agora, a beleza se esconde atrás de paredes. Daqui, vejo apenas um trechinho da Serra do Curral, como a introdução de uma canção engolida pela monotonia do silêncio.
Às vezes, uma brisa fresca consegue encontrar caminho entre as paredes e chegar até a minha janela. Tenho certeza de onde ela veio: das montanhas. Recebo-a como uma amante, que atravessou uma floresta de prédios só para me encontrar.
Embora eu às vezes a encontre na janela, prefiro evitar dar as caras ali. A altura me apavora. Depois, tudo o que vejo do outro lado é um enorme espelho: mais janelas. E se não me vigiar, acabo entrando na sala de um desconhecido.
Dia desses, peguei-me tomando um café com um vizinho, eu aqui e ele lá. Logo me censurei e fechei a cortina. Pois nascia em mim a própria personagem de Amy Adams, em “A Mulher na Janela”, excelente suspense que estreou na Netflix. Ela espia os vizinhos pela janela e acaba testemunhando um assassinato. Opa, mas esse não é o roteiro de “Janela Indiscreta”, clássico do Hitchcock?
Pois é, o cinema também é um grande espelho. No reflexo, aparecem as mesmas boas ideias de outros tempos. Aquele tempo em que havia nas cidades mais praças, livrarias e cafés — e menos prédios.
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