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Seu Eurípedes é um liberal raiz e não gosta nada de o Estado meter o dedo na vida dele. Foi por isso que tomou um cafezinho na padaria da esquina e pagou com um lenço de bolso. Afinal, quem é o Estado para dizer que uma moeda vale mais que um lenço? Pendurou um jornal na conta e voltou para casa.
Aposentado, Seu Eurípedes lê o jornal tranquilamente, mas pula o caderno de economia, pois não quer saber de onde vem o dinheiro da aposentadoria. Embora não faça vista grossa quando o assunto é o lixo acumulado lá fora. Ele mesmo faz questão de recolher e pôr na caçamba do caminhão. E ainda sobra para o gari: “Meu lixo, minha propriedade!”.
Outro dia, Seu Eurípedes cismou com o guarda que faz o patrulhamento da rua. Saiu na porta de casa com um roupão e uma espingarda nas mãos. E quase tomou um tiro! Não fosse a dona Clotilde para livrar o marido do sufoco, dizendo que havia um ladrão nas redondezas. O guarda ligou a sirene e cantou os pneus da viatura.
Seu Eurípedes só vai à igreja, porque acredita que o Estado é laico; só aposta no jogo do bicho, porque sabe que ali o Estado não se intromete. E almoça no restaurante do centro da cidade todos os dias um almoço que não é grátis.
Como o vírus não discrimina ideologia, Euripinho, o filho mais novo de seu Eurípedes, tenta pôr na cabeça do velho que é preciso vacinar. “Eu sou lá cobaia de Estado?” Nem da China, nem do Dória, nem da Rainha. Seu Eurípedes não quis saber de vacina. E essa história não podia acabar bem.
Outro dia, Seu Eurípedes tomou o cafezinho na padaria da esquina, e a bebida desceu insípida como água. Sentou-se na poltrona para ler o jornal e sentiu que o ar lhe faltava. “É gripe!”, asseverou. Levou a mão no bolso da camisa, mas não encontrou o seu lenço.
“Dane-se. Era um lenço vermelho”, desdenhou.
Seu Eurípedes hoje ocupa um leito do SUS.
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