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Tais Civitarese

Há algumas dores que se guarda debaixo do cobertor. Quando estamos fortes, deixamos que apareçam e doam o que têm para doer. Quando ainda não temos condições de suportá-las, elas vão ficando lá. Ajuntadas, amontoadas, espremidas entre um pé sonolento e a beirada do lençol. Às vezes, se acumulam, fazem volume e não dá mais para escondê-las. Às vezes, não. Podem ser adiadas, postergadas para um momento melhor. Mas sempre estão ali, à espreita, sob o cobertor.

Há um escorpião dentro da caixa e nós sabemos. Teimamos em ir lá e colocar a mão. Ele vai nos machucar. Porém, não resistimos. Pode ser que eu tenha o soro. Pode ser que não. A mão inflama, incha, necrosa e cai à minha frente. E penso nos motivos que me levaram a mexer ali.

Tem uns buracos em que não hesitamos em pular. Sabemos que quebraremos os ossos. E pulamos mesmo assim. Porque é da nossa natureza testar as fronteiras do viver. Às vezes, sentir dor é melhor do que nada sentir.

Não penso dessa forma. Mas meu cérebro, sim. E ele me leva por esses caminhos vez ou outra, sem eu saber. Tento enganá-lo e de nada adianta. Peço sossego, um café, um colchão. Ele insiste no movimento, fala sem eu querer, pensa à revelia de mim.

Só queria o meu livro. Aquele romance, que estou quase acabando de ler. Mas quem é que nasceu para ser sossegado? Quem é que nasceu para ler? Se há tanto, tanta gente, tanta energia, tanta pulsação.

E digo que trocaria tudo, tudo mesmo, pelo tempo que pausa na dança das páginas. E tudo o que eu sentisse ali seriam apenas emoções líricas. E todas aquelas, minhas, ficariam congeladas por mais tempo, na caixa, na sombra, no fundo daquele buraco, sem que eu tivesse que ir até lá resgatá-las e me apropriar delas, como parece ser um inevitável destino.

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