Sobre eventos adversos graves

Sobre eventos adversos graves – fonte: Pixabay
Daniela Piroli Cabral
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Na última semana, um imbróglio, envolvendo a Anvisa e o Instituto Butantã, quase roubou nosso fio de esperança em relação à vacina da Covid. Por determinação da Anvisa (e quem está por trás dela), as pesquisas da imunização, já em fase 3, realizadas no instituto, foram interrompidas temporariamente. O que aconteceu foi um “evento adverso grave”.

Depois de muita desinformação, idas, vindas e esclarecimentos prestados, a solução veio (graças!) tempestiva e a nossa angústia em relação ao nosso incerto futuro no contexto da pandemia se arrefeceu. As pesquisas foram retomadas a tempo.

O que está por trás disso? Um presidente, cuja a única preocupação é seu próprio ganho pessoal com a pandemia. Se os estudos chineses bem sucedidos foram suspensos, “Oba, minha vitória”. Você ganha, táoquei? Mas a perda é de todos. Perde a população que se vê insegura frente a um líder que comemora o fracasso da vacina. Perde a nação que já perdeu mais de cento e sessenta e seis mil pessoas e toda a credibilidade no plano internacional.

Desculpem-me se avanço mais uma vez para além do meu campo de conhecimento, que é a Psicologia, mas a verdade é que fica cada vez mais evidente a perversidade deste que nos (des)governa. E de perversão eu sei um pouco. Sei também dos impactos que a pandemia e o distanciamento social estão provocando em termos de saúde mental. Difícil localizar um momento na nossa história recente em que estivemos tão vulneráveis psíquica e materialmente.

O voluntário da pesquisa faleceu por suicídio, o laudo finalmente revelou. Então essa confusão toda também esconde em si a dificuldade de se noticiar adequadamente as mortes por suicídio. Claro, preservar a privacidade dos envolvidos é fundamental, mas tratar o suicídio como um “evento adverso grave” chega a ser quase tão hipócrita quanto o “estupro culposo”. Mais uma vez, a criatividade da mídia, para esconder, atenuar e evitar tratar dignamente a temática da morte voluntária, me preocupa.

Novamente houve desinformação e a perda de um momento oportuno para se abordar adequadamente a morte por suicídio e sensibilizar a população a respeito da saúde mental e da busca por ajuda. Fico me questionando se esse voluntário imaginou que sua morte seria comemorada desta forma, que causaria toda essa mixórdia nacional. E que mensagem pode ser extraída disso, neste contexto todo. Não é paradoxal morrer voluntariamente num momento em que se busca a preservação da vida?

Então, para finalizar, vamos às redefinições: evento adverso grave é a pandemia. Evento adverso grave é termos como liderança máxima de nossa nação este ser perverso.

E sim, sou maricas e quero a vacina. Gratuita e obrigatória para todos.

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Daniela Piroli Cabral

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