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Fugitiva

Fuga - fonte: Pixabay
Fuga – fonte: Pixabay

Daniela Piroli Cabral
contato@danielapiroli.com.br

“É isso então o luto. Ela tem a sensação de que um saco de cimento foi derramado dentro dela e endureceu. Ela mal consegue se mexer.” (Alice Munro, Fugitiva, 2014).

Aquele ano seria de muitas mudanças na vida de Amanda. Além dos 18 anos recém completados, o que a permitiria votar e dirigir, a entrada na faculdade era o que ela mais ansiava. Estava decidida. Iria cursar jornalismo. Já havia se decidido há muitos anos, não tanto pela vocação, mas pela possibilidade de mudança de cidade. Sim, ela não buscava tanto o curso, mas sim os novos ares da capital. 

A escolha foi fácil. Por exclusão, foi eliminando da sua lista de preferências todos os cursos disponíveis nas poucas instituições de ensino da cidade. E, como sempre tinha sido boa em português, pela lógica, foi para as “humanas”.

Na nova cidade, ela poderia ser outra pessoa, ter uma nova identidade. Poderia deixar definitivamente o passado para trás, abandonado há mais de trezentos quilômetros e num canto escuro qualquer da memória. Lá na capital faria novos amigos e poderia, enfim, fazer as pazes com sua história.

A verdade é que Amanda vivia há muito tempo atormentada. Durante toda sua infância, o trabalho de seu pai obrigava a família a mudar-se constantemente de cidade, o que por um lado era bom, mas na maior parte do tempo era ruim. Sentia-se sem raízes, sem amigos, sem vínculos.

Praticamente a cada ano era um recomeço. Nova casa, nova escola, novos professores, novos “amigos”, como dizia a mãe, para valorizar o lado bom da mudança e subestimar as dificuldades de adaptação da criança frente à necessidade de subsistência da família. Sim, a precária e instável renda do pai era a única fonte da família.

Acontece que nesta última cidade, Bom Destino, o destino resolveu não ser tão bom assim. Infarto fulminante. Aos 42 anos, o pai de Amanda faleceu sem tempo de despedida. Ela estava na escola, a mãe não quis buscá-la. Preferiu tratar a coisa com “naturalidade”. Amanda não viu escorrer sequer uma lágrima dos olhos secos da mãe.

À Amanda foi dada a opção de ir ao velório, o que ela recusou. Ficou em casa, calada, brincando com as bonecas. O que pareceu um tanto estranho para uma garota que já tinha completado treze anos na época. A vizinha, que havia ficado de sobreaviso, comentou o fato depois com a mãe da criança. Preocupada, preferiu evitar mais mudanças e manteve a estabilidade na rotina das duas naquela cidade.

No dia seguinte, Amanda voltou para a escola. Nenhuma palavra. Rotina normal. Ninguém soube. Nunca. Nem os amigos, nem os professores. Preferiu tratar as coisa com “naturalidade”. Os únicos problemas ocorriam nos eventos escolares, quando a presença dos pais era requerida. Ela nunca participava, não mostrava o convite para sua mãe e repetia a desculpa: “Meu pai não poderá vir. Está viajando”. 

Mas, depois de quase cinco anos repetindo a mesma mentira, que ela mesma acreditava ser verdade, sustentar aquilo tudo sozinha ficou muito difícil. Ela precisava se libertar. Precisava respirar. Precisava chorar. E era isso que iria fazer.

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