A briga foi por causa dos legumes. Cenouras, beterrabas, cebolas e os indecifráveis rabanetes. Meu marido chegou carregado da feira e logo saiu de novo para uma jornada à farmácia.
Gentilmente, no exercício da prática intensiva dos afazeres domésticos, os quais, devo ressaltar, em nada aprecio, fui guardar as compras.
Após a desinfecção geral e secagem, guardei os legumes de qualquer jeito na geladeira. Sim, guardei tudo embolado na gaveta. Não “respeitei” a delicadeza das cenouras-anãs, tampouco os tenros talos de beterraba, os quais chegaram a se partir. Os mini-rabanetes se perderam no amontoado de hortaliças e as cebolas, tão frescas, foram de encontro às suas antecessoras semi-mofadas, passíveis de lhes transmitirem incontáveis esporos.
Guardei tudo daquele jeito e fui fazer outra coisa que queria, que gostava ou que precisava.
Qual não foi minha surpresa quando, mais tarde, ouvi brados da cozinha: “Quanta falta de capricho!”, “Quanto desrespeito ao alimento!”.
Fiquei me perguntando se deveria respeitar os legumes.
Capricho é, definitivamente, para mim, uma certa perda de tempo. Uma prisão a uma estética pouquíssimo prática que em nada favorece aos não-entusiastas dos afazeres domésticos, como eu. Higiene sim. Mas capricho…? Seria tudo isso uma desculpa para a preguiça? Talvez.
Confesso que prefiro organizar meus sentimentos e pensamentos em uma caixa couro-cabeluda, nada refrigerada, do que ceder à impecável ordem exterior que supostamente simbolizaria equilíbrio. A meu ver, alguns tipos de capricho são prisões que nos consomem um tempo precioso que poderia ser usado para caprichar e organizar algo realmente importante, embora invisível.
Não, não sou caprichosa. E por vezes, não sê-lo é um pequeno emblema para mim.
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