A banalidade do mal e a originalidade de Arendt

por Lívia Assis

Filmes que procuraram retratar fatos enfrentam o desafio de serem ou não fiéis ao que realmente ocorreu na história. Ainda que alguns exagerem para efeito dramático, Hannah Arendt – Ideias Que Chocaram o Mundo (2012) não parece cair nessa armadilha. Devido à história e ao passado da personagem principal, o filme parece já entregar qual será o posicionamento de Arendt em relação ao nazismo, tema principal tratado. E é daí que surge a reviravolta.

Com uma montagem ágil e não cansativa, a diretora e corroteirista Margarethe von Trotta (com Pamela Katz) mostra no filme a fase mais estável da vida da filósofa judia (interpretada por Barbara Sukowa, atualmente vista em Hunters). Ela e seu marido, Heinrich Blücher (Axel Milberg, de O Quinto Poder, 2013), se fixam em Nova York, exilados no período da Segunda Guerra. Por meio de uma boa fotografia, ainda que não haja uma trilha sonora para pontuar alguns momentos do filme, o trabalho de Trotta prende o espectador na jornada de Arendt.

Ao invés de abraçar a trajetória de toda uma vida, o filme enfoca um período específico e fundamental para a vida pessoal e acadêmica da filósofa: a sua participação no julgamento de Adolf Eichmann. Ele era tenente-coronel da SS da Alemanha nazista, um dos responsáveis pelo extermínio em massa dos judeus – também conhecido como Holocausto.

As cenas da participação de Hannah no julgamento são mescladas com imagens reais do processo, que ocorreu na cidade de Jerusalém em abril de 1961, tornando o drama ainda mais interessante do ponto de vista histórico e biográfico. Além disso, a narrativa fornece insights sobre o passado da filósofa, visando auxiliar na compreensão da sua postura no julgamento de Eichmann. Entendemos, por exemplo, a presença do também filósofo Martin Heidegger em sua vida.

Indicado para quem procura um filme cuja temática fuja da mesmice de simplesmente colocar os nazistas como vilões e os judeus como vítimas, o drama promove uma reflexão sobre a natureza humana, bem como sobre as motivações, influências e carreira de uma das figuras mais importantes da teoria política. Hannah Arendt procura, antes de qualquer coisa, polemizar a banalidade do mal e o colapso moral preponderante no nazismo.

A obra de Arendt segue atual e instigante

Sobre Marcelo Seabra

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM | Instagram - @opipoqueiroseabra
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1 respostas para A banalidade do mal e a originalidade de Arendt

  1. Márcio Morato disse:

    Vivemos hoje a banalidade da estupidez delirante. Os seguidores do Bolsonaro nos remetem à reflexão de como pessoas comuns ficam desprovidas de qualquer sensatez diante do comportamento do presidente em relação à pandemia, às estreitas ligações da família com as milícias, seus preconceitos e intolerâncias e às ideias do bruxo da Virgínia, terraplanistas, chamar João Dória e Rede Globo de comunistas.

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