Quinto Pânico apresenta Woodsboro a novos espectadores

A onda de nostalgia não é de hoje, e segue firme. Um novo Matrix nos cinemas, outra temporada de Dexter na TV anos depois da última. Pode ser uma oportunidade para corrigir erros, continuar uma boa história ou mesmo ganhar um dinheiro com material de retorno seguro. Em qualquer categoria que se encaixe, temos um quinto Pânico (Scream, 2022) e mais cadáveres se empilhando em Woodsboro, cidade natal de nossa velha conhecida Sidney Prescott (Neve Campbell). E, pela primeira vez, não é o saudoso Wes Craven quem dirige.

Vinte e cinco anos depois dos primeiros crimes na cidade, a população parece ter se acostumado a perder alguns adolescentes (e adultos que cruzem o caminho do assassino) de tempos em tempos, e a adaptação daquela realidade segue quente no Cinema. Os assassinatos cometidos por Billy Loomis (Skeet Ulrich) e Stu Macher (Matthew Lillard) ganharam notoriedade na tela grande e o filme que conta a história deles, Stab (A Punhalada), teve várias continuações. Na vida real (deles), outros apareceram, com poucos ou nenhum motivo, e mataram mais. O filme dentro do filme gera diversas metapiadas, como que dando piscadelas ao espectador.

Parte da responsabilidade dessa fama é da jornalista Gale Weathers (Courteney Cox), que escreveu o livro sobre a tragédia e agora se sente culpada por tantos malucos de plantão se proporem a levar a matança adiante. Quem muito se ferra nessa história é o policial Dewey Riley (David Arquette), para quem sempre sobra a investigação e a resolução dos crimes. Sidney, Gale e Dewey são os personagens clássicos que estão sempre voltando ao foco da ação, como abelhas no mel. Além desses três, outro que repete seu papel é Roger Jackson, que faz a voz do assassino Ghostface – e a famosa fala “Hello, Sidney!

Com as duas veteranas da franquia fora da cidade seguindo suas vidas e o ex-xerife aposentado, novos adolescentes aparecem para fazerem a alegria de quem gosta de ficar tentando acertar quem é o culpado. Uma garota, Tara (Jenna Ortega, da série You), sozinha em casa, atende o telefone e o jogo sádico de conhecimento cinematográfico começa. E é aí que começa a autorreferência também, já que o filme está sempre voltando à sua própria história. Como Tara é atacada e vai para o hospital, a irmã distante, Sam (Melissa Barrera, de Em Um Bairro de Nova York, 2021), vem correndo para vê-la e participar do show de horrores.

Com apenas dois rostos famosos entre as novidades, Jack Quaid (de The Boys) e Dylan Minnette (de 13 Reasons Why), o novo Pânico consegue divertir e tem alguns momentos mais inspirados. Para quem gosta dos episódios anteriores, este é altamente recomendado, apesar de girar em torno do mais do mesmo. As regras de filmes de terror são constantemente reapresentadas e as piadas aparecem com tanta frequência que quase transformam a obra numa comédia. Isso pode incomodar, e aponta situações que são realmente discutíveis, como a prática de excluir o número de sequências do título para dar a impressão de se tratar de um começo (de novo). Daí, temos Pânico, sem o 5.

Na direção, no lugar do experiente Craven, falecido em 2015, chega a dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett (ambos de Casamento Sangrento, 2019). Outro que não retorna é o roteirista Kevin Williamson, que deixa a vaga para James Vanderbilt (dos dois Homem-Aranha com Andrew Garfield) e Guy Busick (de Casamento Sangrento). A função dos novos diretores e roteiristas é basicamente contar a história como Craven e Williamson fariam, emulando o estilo dos dois fundadores desse universo. A missão é satisfatoriamente cumprida e é bacana rever Campbell, Cox e Arquette novamente tentando passar a tocha adiante.

Jack Quaid, Jasmin Savoy Brown, Melissa Barrera, Sonia Ammar, Mason Gooding, Mikey Madison e Dylan Minnette

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Eduardo e Mônica leva a Legião Urbana ao Cinema

Quando escutamos, na voz de Renato Russo e sua Legião Urbana, a história de um garoto de 16 anos que se apaixona por uma médica com signo em Leão, temos uma balada divertida e funcional sobre um casal improvável. Já na hora em que vemos essa mesma história transportada para as telonas, nos deparamos com uma comédia romântica divertida, bem estruturada e com uma química azeitada entre os protagonistas.

O longa de René Sampaio mostra a história de um estudante de cursinho que, meio sem querer, se encontra com uma complexa médica em uma festa estranha com gente esquisita em Brasília. Nos primeiros minutos, René se apega à letra de Russo quase literalmente, numa brincadeira divertida de mostrar simultaneamente os dois personagens, cada um em seu momento do dia, na tela.

Mas não se trata de um filme que tenta preencher as lacunas de uma música de 4 minutos em um filme de 2 horas. Diferente de Faroeste Caboclo (2013), do mesmo Sampaio (também saída de uma música de Renato Russo), Eduardo e Mônica é uma história mais orgânica, que flui com naturalidade. Gabriel Leone, na pele de Eduardo, e Alice Braga, a Mônica, possuem uma química ótima e conseguem passar exatamente a ideia de um garoto bobo e uma mulher mais intelectualizada, como Renato Russo canta.

Outros personagens são acrescentados com mais profundidade aqui. Seu Bira, o ótimo Otávio Augusto, é o avô com quem o garoto joga futebol de botão. Ele ganha ares mais complexos e traz discursos que já eram ultrapassados em 1985 (e continuam até hoje). E também Inácio (Victor Lamoglia), o carinha do cursinho do Eduardo que o leva para as festas mais estranhas da capital. Por parte da Mônica, conhecemos sua família e seus traumas, que não couberam na letra de Renato, mas que no filme ajudam a dar complexidade à mulher que gostava de Bandeira e do Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud.

A trilha consegue ambientar o filme, ainda que se apegue a clichês e force uma ou outra música da Legião Urbana (que poderá deixar confuso o fã mais chato quanto à época em que uma ou outra foram lançadas). Forçadas também são algumas participações. Com o nome no pôster do filme, Fabrício Boliveira – o João de Santo Cristo de Faroeste Caboclo – faz uma participação totalmente dispensável. Há também uma “participação afetiva” de Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo e responsável por colocar o nome da banda nas páginas policiais nos últimos anos por conta de suas crises de herdeiro irresponsável.

Eduardo e Mônica é uma boa comédia romântica que lida de forma realista com as crises do casal e explora bem a relação entre duas pessoas tão diferentes. Assim como a música, que você pode achar uma boa balada, o filme é aprovado por contar uma história leve e divertida. Sofrida tem sido a data de estreia, mas agora é definitivo: o longa, que seria lançado no dia 7 de janeiro, chega às telas no dia 20.

O diretor comanda o casal em parque de Brasília

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Repescagem 2021 – Parte II

Seguimos para a segunda e última parte da repescagem 2021, com comentários rápidos sobre filmes lançados no ano passado.

Imperdoável (The Unforgivable, 2021)

Sandra Bullock não costuma ser lembrada como uma grande atriz, até seu trabalho no filme do Oscar é questionável. No entanto, ela acertou em cheio na escolha com Imperdoável, disponível na Netflix. Ela vive uma ex-presidiária saindo da cadeia e tentando voltar a viver em sociedade. A personagem é bem construída, vamos conhecendo-a pouco a pouco e entendendo sua jornada. O elenco, que inclui Jon Bernthal e Vincent D’Onofrio, dá um ótimo suporte à atriz e ainda temos a grande Viola Davis, que aparece pouco, mas rouba a cena.

Espíritos Obscuros (Antlers, 2021)

A simpática Keri Russell cai numa armadilha ao topar fazer um filme de terror sem pé nem cabeça que não tem um pingo de sutileza ao lançar metáforas para o público. Uma criança mostra sinais de abuso na escola e a professora, preocupada, acaba entrando demais na vida do aluno, e há um espírito maligno envolvido (um, ao contrário do que o título nacional indica). O diretor e roteirista Scott Cooper até cria uma boa atmosfera de suspense, mas desperdiça tudo com uma entidade estapafúrdia e não cria nenhuma regra para seu universo, deixando o espectador perdido. Assim como Jesse Plemons, que parece constrangido na tela.

Venom 2: Tempo de Carnificina (Venom: Let There Be Carnage, 2021)

Buscando um resultado melhor que no genérico primeiro filme, a Sony usou um vilão de maior apelo para servir como antagonista ao Venom sem sal de Tom Hardy, ele próprio originalmente um vilão. Surge então o psicopata Cletus Kasady, que se une a um pedaço desgarrado do simbionte e origina outro personagem: o Carnificina. Woody Harrelson não precisa fazer esforço para ficar com cara de doido e lembra seus tempos de Assassinos por Natureza, parecendo ser o único a se divertir. Depois desse novo desastre, Venom deve ser incorporado ao Universo Cinematográfico Marvel, onde fará mais sentido combatendo seu velho inimigo, o Homem-Aranha.

A Crônica Francesa (The French Dispatch, 2021)

Um elenco primoroso não torna menos vazio esse exercício estilístico do diretor, produtor e roteirista Wes Anderson. Com uma coletânea de histórias variadas sendo costuradas uma na outra, ele faz uma homenagem ao jornalismo partindo da morte súbita do editor de um jornal americano publicado numa cidadezinha francesa. Junto com o obituário, a última edição do jornal trará matérias pitorescas que são encenadas para o público. Tudo muito excêntrico, que ficaria melhor pintado num quadro que em um filme. Deve agradar exclusivamente os fãs de Anderson, que já sabem mais ou menos o que esperar. Para os demais, serão 110 minutos que demorarão uma eternidade para passar.

The Velvet Underground (2021)

O diretor e roteirista Todd Haynes tem uma carreira bem diversa, mas boas músicas costumam estar presentes em seus trabalhos. Isso, quando elas não são o foco, como é o caso aqui. Com ótimas imagens de arquivos e entrevistas, ele constrói o quadro que levaria à formação da Velvet Underground, importante banda surgida no cenário da Nova York do fim da década de 60. Os integrantes tinham formações variadas, interagiram com outras celebridades da época e influenciaram gerações que viriam. Todo esse contexto é abordado por Haynes, que não tenta abraçar o mundo, já que o assunto é enorme, focando no caminho trilhado pela Velvet até o seu fim.

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Repescagem 2021 – Parte I

Como de costume, alguns filmes lançados em um ano acabam sendo assistidos no ano seguinte, já que é impossível ver tudo. E mais complicado ainda é escrever uma crítica completa sobre todos. Por isso, segue a primeira parte da repescagem 2021, com comentários rápidos sobre filmes do ano passado assistidos tardiamente.

King Richard: Criando Campeãs (2021)

Cinebiografia de Richard Williams, homem obstinado que traçou um plano para duas de suas filhes, Serena e Venus. Com uma educação rígida e amorosa, ele as levou a serem as prováveis melhores jogadoras de tênis da história. O elenco, com Will Smith à frente, é ótimo, e o roteiro ainda aborda questões raciais, decisão muito acertada, e não deixa de mostrar as formas criativas que Richard tinha para driblar a pobreza. Apesar de excluir passagens polêmicas, como a primeira família que Williams tinha e abandonou, o filme faz bem o que se propõe, focando mais nas pessoas que no esporte.

O Último Duelo (The Last Duel, 2021)

Uma recriação impecável da França medieval nos traz uma história de traição e vingança quando ex-amigos são levados a duelarem pela honra da esposa de um, que alega ter sido estuprada pelo outro. O diretor Ridley Scott, cujo primeiro filme chama-se Os Duelistas (The Duellists, 1977), volta a fazer o que sabe bem, filmando cenas belíssimas de guerra e, com a mesma competência, enfocando os dramas pessoais dos envolvidos. Os amigos Matt Damon e Ben Affleck coescreveram o roteiro (com Nicole Holofcener) e atuam, ao lado dos igualmente competentes Adam Driver e Jodie Comer.

Ghostbusters: Mais Além (Ghostbusters: Afterlife, 2021)

Mistura de nostalgia e homenagem, o novo filme dos Caça-Fantasmas faz o que franquias longevas sempre tentam: emplacar novos personagens para seguirem no lugar dos veteranos. Com a morte do Dr. Egon Spengler (o saudoso Harold Ramis), a filha e os netos vão à fazenda onde ele morava assumir a propriedade e descobrem um pouco da história dele, que largou repentinamente amigos e família e se isolou na área rural de uma cidadezinha. O diretor e roteirista Jason Reitman, filho do diretor dos dois longas originais, conta com o carisma de seu elenco principal, formado por Carrie Coon, Paul Rudd, Mckenna Grace, Finn Wolfhard e Logan Kim, além de não dispensar as participações especiais de Dan Aykroyd, Bill Murray e Ernie Hudson. Sempre reverenciando o cânone, Reitman consegue fazer um filme divertido e inteligente.

Identidade (Passing, 2021)

A atriz Rebecca Hall faz uma excelente estreia como diretora, além de escrever e produzir, adaptando um livro de 1929 sobre duas amigas que se reencontram anos após se casarem e seguirem suas vidas. As duas são negras, mas uma se passa por branca, escondendo suas origens até do marido, que é abertamente racista. Grandes interpretações de Ruth Negga e Tessa Thompson e uma inspirada fotografia em preto e branco são os pontos altos, além da questão racial, que o roteiro aborda de frente. O longa acabou comprado pela Netflix e foi muito bem recebido por público e crítica.

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O Melhor do Cinema em 2021

Como já é tradição no Pipoqueiro (e mundo afora), fim de ano é sinônimo de lista de melhores do Cinema. É necessário apontar que, se os serviços de streaming já tinham grande destaque entre os principais lançamentos, esse ano mais opções se consolidaram. Antes, tínhamos Netflix, Amazon Prime Video e Hulu como os protagonistas, e agora temos também Disney+, HBO Max, Mubi, Looke, Apple TV+… E a lista só cresce!

Há duas décadas (até menos um pouco), era necessário ir a uma locadora pegar o que estivesse disponível – às vezes, passavam-se semanas até dar para levar para casa o filme mais cobiçado do momento. Hoje, você liga a televisão (ou o computador) e muita coisa está lá, só esperando o seu clique. Se, por um lado, isso democratiza o acesso aos filmes, também provoca uma avalanche de opções no mercado. E está cada vez mais difícil de ver tudo, o que torna impossível fazer uma lista definitiva de melhores do ano. Um filme que pode ter aparecido na lista de um colega, como no Cinema de Buteco ou no Cinema no Escurinho, pode não aparecer por aqui pelo simples motivo de não ter sido visto em tempo.

Há quem diga que quem se mete a ser crítico de Cinema tenha que ver de tudo. Mas são coisas diferente ver de tudo e ver tudo. É preciso diversidade, mas, é bom repetir, não dá para ver tudo. A presença dos streamings também permite que o público brasileiro confira o lançamento junto com o resto do mundo, como foi há pouco o caso do comentadíssimo Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up, 2021). Curioso, mas longe de ser um dos melhores do ano (leia a crítica completa aqui). Já entre os lançamentos nos cinemas, a distância entre estreias continua existindo. Por isso, ressalto que será considerada a data de lançamento no Brasil, desconsiderando as obras que não chegaram oficialmente.

Muitos dos filmes listados abaixo têm crítica completa no Pipoqueiro, basta clicar no título para conferir. Demais críticas publicadas podem ser pesquisadas usando-se o campo de busca no alto da página.

Bela Vingança (Promising Young Woman, 2020)

Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah, 2021)

Meu Pai (The Father, 2020)

Ataque dos Cães (The Power of the Dog, 2021)

Nomadland (2020)

Uma Noite em Miami… (One Night in Miami, 2020)

Noite Passada em Soho (Last Night in Soho, 2021)

Old Henry (2021)

A Lenda de Candyman (Candyman, 2021)

Marighella (2019)

Val (2021)

A Chorona (La Llorona, 2019)

O Refúgio (The Nest, 2020)

The Velvet Underground (2021)

Duna (Dune, 2021)

Menções honrosas:

The Beatles: Get Back (2021)

Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (Spider-Man: No Way Home, 2021)

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Não Olhe Para Cima é sátira na Netflix que tem tudo a ver com o Brasil

Quem tem um presidente como o do Brasil assiste a um filme como Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up, 2021) e se preocupa mais em achar paralelos com a nossa situação do que em prestar atenção à obra. Não faltam estereótipos na trama, do assessor puxa-saco que além de tudo é filho ao empresário ganancioso que manda no governo, e é exatamente isso o que nos preocupa: vivemos numa realidade ridícula, estereotipada, e nada daquilo é impossível de acontecer. Frente a uma catástrofe em potencial, qual é a resposta da presidente? “Não olhe”.

O diretor e roteirista Adam McKay vem buscando desenvolver temas espinhosos, como fez em A Grande Aposta (The Big Short, 2015) e Vice (2018), de uma forma palatável para quem não tem grande repertório nas áreas abordadas. Dessa vez, ele opta por fazer uma sátira, provando seu ponto com uma alegoria de um meteoro que vem em direção à Terra e vai destruir tudo em seis meses. A estudante de doutorado que faz a descoberta leva o caso ao professor, que faz os cálculos necessários e prova que a ameaça é real.

Aí começa a via sacra dos cientistas, que precisam convencer o mundo do que está para acontecer. A presidente dos Estados Unidos, de quem se esperaria uma providência rápida, prefere esperar para não perder poder político. Questões financeiras interferem também, deixando claro que o dinheiro manda nas decisões tomadas em Washington. “De que adianta dinheiro se todos estaremos mortos?”, pergunta um personagem. Parece exagerada, mas a questão é totalmente cabível. É como dizer que é preferível ter liberdade do que ter vida, o que sabemos que já aconteceu. Ou tentar embutir uma propina no preço de vacinas em meio a uma pandemia.

McKay parece ter um trânsito gigantesco em Hollywood, basta olhar para seus elencos. Dessa vez, ele conta com ninguém menos que os oscarizados Leonardo DiCaprio (de O Regresso, 2015) e Jennifer Lawrence (de Operação Red Sparrow, 2018) nos papéis principais. É interessante perceber que, mesmo sendo a aluna a descobridora do cometa, a sociedade de uma forma geral dá mais holofotes para o professor, mostrando o machismo que aparece quando menos se espera. Uma mulher chamando a atenção enfaticamente para uma questão gravíssima é logo tachada de doida, desequilibrada, enquanto o homem é incensado por ser bonito. O cientista de Rob Morgan (de Estados Unidos vs. Billie Holiday, 2021) evidencia também o racismo estrutural.

Para dar peso à presidência da república estadunidense, ninguém melhor que Meryl Streep, que busca alguns projetos com relevância social, como foi o caso de A Lavanderia (The Laundromat, 2019), em meio a outros mais leves. Linda e segura no papel, a atriz exemplifica bem como figuras como Trump e Jair (entre outros) se comportam, colocando interesses próprios acima do país que deveriam representar e com o rabo preso aos financiadores da campanha. O filho da presidente, vivido por Jonah Hill (de Cães de Guerra, 2016), ajuda a reforçar o nonsense e também o paralelo com a realidade brasileira, já que lembra muito um fulano do chamado “gabinete do ódio”.

Outros nomes famosos no elenco ajudam a compor tipos facilmente encontráveis nesse quadro, como os apresentadores que tentam tornar tudo leve (Cate Blanchett e Tyler Perry), o empresário que tem a presidente no bolso (Mark Rylance), o jovem alienado (Timothée Chalamet), a influencer que vive de fofocas (Ariana Grande) ou o militar tido como herói de não passa de um escroto (Ron Perlman). E não nos esqueçamos do general que cobra por algo que é gratuito (Paul Guilfoyle). Caricaturas não faltam, assim como o principal: o cidadão comum, que acredita no que quer, mesmo que evidências deixem algo claro. O fato não importa, posso acreditar no que eu quiser. E as palavras da presidente têm grande influência nisso.

No desenrolar da sessão, o filme se preocupa com alguns dramas pessoais, perdendo um pouco o foco das críticas que vinha fazendo. McKay mira em vários alvos, com muito exagero envolvido, e vai deixando a peteca cair em alguns. Há uma mensagem clara sendo passada, mesmo que não se concorde com a forma como ela é passada. A montagem deixa pouco espaço para sutileza, esfregando tudo na cara do espectador. Análises mais profundas ou interpretações não são necessárias, está tudo ali. No fim, Não Olhe Para Cima resume-se a uma comédia sem graça com ótimas interpretações e um recado importante: não basta ignorar a crise para que ela deixe de existir. Busque se informar, acredite em quem traz fatos e fuja de achismos ou opiniões vazias bancadas por interesses obscuros.

O diretor se reúne ao elenco para lançar o longa

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Matrix 4 retoma as aventuras de Neo e companhia

O filme de 1999 fez um sucesso enorme e deu uma sacudida nos gêneros de ficção-científica e ação. Em 2003, vieram duas sequências com meses de intervalo entre elas, buscando expandir aquele universo. E parecia ser o fim das aventuras de Neo e companhia. Eis que a Warner Bros. nos surpreende com Matrix Resurrections (2021), quarta parte da franquia que, ao mesmo tempo em que dá continuidade à história, a reinicia, permitindo que todos acompanhem mesmo sem conhecimento prévio. Ter visto o primeiro ajuda, mas não é imprescindível.

O filme de 99 funciona muito bem sozinho, mas era inegável o potencial para uma série. Os dois que vieram na esteira não foram tão bem recebidos pelo público. Apesar de inovarem tecnicamente e trazerem cenas esteticamente perfeitas, têm histórias confusas que pouco contribuem para o quadro geral. Talvez por isso, Lana Wachowski (sem a irmã Lilly) e seus colegas roteiristas tenham voltado na fonte original – e também para facilitar para quem está chegando agora. O pontapé inicial dos dois longas é basicamente o mesmo: um sujeito que trabalha com informática recebe a oportunidade de conhecer o mundo verdadeiro por trás da simulação na qual vivem.

A diferença é que, agora, Thomas Anderson, o icônico personagem de Keanu Reeves, é um rico e famoso criador de jogos que é atormentado por visões de algo que ele aparentemente não viveu. São necessárias muitas sessões de terapia (com Neil Patrick Harris, o Barney de How I Met Your Mother) para superar esses delírios e uma tentativa de suicídio, quando ele quase pulou de um prédio. Algo como Robin Williams em Hook – A Volta do Capitão Gancho (1991). Sem saber exatamente o que é real, Anderson se depara com Bugs (Jessica Henwick, de Punho de Ferro) e uma outra versão de Morfeu (agora vivido por Yahya Abdul-Mateen II, o novo Candyman), que dão a ele a opção de escolher entre a pílula vermelha, que leva à verdade, e a azul, que o deixa na mentira confortável.

Retomando a mitologia da primeira parte, Lana homenageia o que ela e a irmã criaram, faz autorreferências e, por que não, piadas. Ou metapiadas. Há um diálogo, por exemplo, sobre a Warner ter pressionado por uma sequência, que seria feita com ou sem o envolvimento dos criadores. A conversa era sobre o videogame criado por Anderson, mas fica muito claro que cabe também para o próprio filme. Esse clima bem-humorado permeia a primeira parte do longa, enquanto as bases são montadas e conhecemos outros personagens, como o sócio do protagonista (vivido por Jonathan Groff, de Mindhunter).

A partir de aproximadamente 40 minutos, o ritmo é acelerado e a ação toma conta. E não demora a se tornar repetitiva e enfadonha, lembrando produções como O Homem de Aço (The Man of Steel, 2013), em que a destruição chega a uma proporção tal que você já não se importa mais com o resultado. E algumas opções visuais já não soam tão originais, como os corpos que caem dos prédios. Resta a curiosidade de reencontrar algumas figuras das aventuras anteriores, como o Merovíngio de Lambert Wilson ou a Niobe de Jada Pinkett Smith. Trinity, na pele de Carrie-Anne Moss, continua durona e linda. E a garotinha Sati cresceu! 

Ao som de White Rabbit, da Jefferson Airplane, acompanhamos Anderson se redescobrir como Neo. É bom rever personagens queridos e os novos são interessantes o suficiente. As explicações oferecidas para as substituições no elenco são razoáveis e aceitáveis. Não se pode dizer que esta sequência de Matrix seja puramente caça-níqueis, ela se sustenta e se justifica. É inclusive melhor que as anteriores – o que não quer dizer muita coisa.

Mas relevante mesmo ela será apenas para os fãs da trilogia, que se sentirão mais do que agraciados. Os demais não devem guardar lembranças dela por muito tempo. O embate que mais ficará marcado será o deste Matrix 4 contra Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (Spider-Man: No Way Home, 2021), pelas bilheterias e pelas salas de Cinema, já que os dois arrasa-quarteirões chegam praticamente juntos em cartaz.

Estes são apenas Thomas e Tiffany, pessoas comuns

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O Psiquiatra ao Lado repete dobradinha de Ferrell e Rudd

Em todas as profissões é possível achar maus profissionais, seja na vida real ou na ficção. Temos canalhas entre médicos, advogados, engenheiros, jornalistas… Até juiz ladrão, que fabrica sentenças! E quanto mais alto hierarquicamente é o cargo, maior a probabilidade de encontrarmos um sociopata. Por isso, não é de se surpreender que uma minissérie traga um psiquiatra que abuse do relacionamento com seus pacientes. Adaptação de um podcast de sucesso, O Psiquiatra ao Lado (The Shrink Next Door, 2021) está disponível na Apple TV+.

A primeira coisa que chama a atenção na produção é a dupla de protagonistas: repetindo a dobradinha dos dois O Âncora (Anchorman, 2004 e 2013), temos Will Ferrell e Paul Rudd. Ambos já provaram serem ótimos na comédia e no drama e, aqui, ficam numa linha tênue entre os gêneros, indo e voltando. Mas, apesar do humor presente, trata-se de uma história triste que escancara a fragilidade do indivíduo e a facilidade que é entrar em um relacionamento abusivo. E isso não acontece apenas com casais, é bem possível ter uma amizade tóxica.

O primeiro episódio dá uma amostra do futuro e volta quase trinta anos para mostrar o início da relação entre Martin Markowitz (Ferrell) e o Dr. Isaac Herschkopf (Rudd). É a irmã de Marty, Phyllis (Kathryn Hahn, de WandaVision e também de O Âncora), que sugere que ele procure um psiquiatra. Após a morte do pai, Marty se vê obrigado a tocar os negócios da família, mas por dentro ele ainda é uma criança que precisa de direção. A menor possibilidade de confronto faz com que ele tenha problemas estomacais e todos se sentem confortáveis ao abusarem dele.

O Dr. Ike, como seus pacientes o chamam, é um psiquiatra bem recomendado pelo boca a boca. Marty então começa seu tratamento e logo nota uma mudança benéfica em seu comportamento, se posicionando mais. Essa aparente força recém-construída faz com que ele confie cada vez mais no Dr. Ike e os dois se tornam muito próximos. A partir daí, acompanhamos uma situação mais comum do que imaginamos: uma personalidade se apaga, deixando a outra dominar. E trata-se de uma história real.

Criado, escrito e apresentado pelo jornalista e escritor Joe Nocera, o podcast chega à TV pelas mãos da premiada Georgia Pritchett, de séries como Veep, Succession e Run. Ferrell, quando bem guiado, é capaz de muita coisa, e se segura bastante para criar um personagem introspectivo. E Rudd consegue dar humanidade a um sujeito manipulador que engana a si mesmo ao posar como bonzinho, o marido ideal que ainda por cima colabora na sinagoga local. Esse é o retrato do cidadão de bem, alguém acima de qualquer suspeita que você gostaria de ter como vizinho, parente ou amigo. Quando você acordar e quiser retomar as rédeas da sua vida, pode ser tarde.

A minissérie é uma ótima oportunidade para os amigos trabalharem juntos novamente

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Homem-Aranha fecha a trilogia do MCU com muita diversão

A identidade secreta do Homem-Aranha já não é tão secreta assim. Todos sabem que se trata de Peter Parker, um colegial que vive no Queens com a tia. E isso torna a vida do rapaz um inferno, complicando situações que seriam num primeiro momento bem simples. É aí que Peter tem uma ideia brilhante: pedir ao Doutor Estranho que apague essa notícia da cabeça das pessoas. Esse é o ponto de partida de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (Spider-Man: No Way Home, 2021), terceira aventura solo do amigo da vizinhança no Universo Cinematográfico Marvel.

Como os trailers e cartazes adiantaram há meses, teremos uma espécie de abertura de um portal para o multiverso, conceito que vem sendo introduzido no MCU, como na série do Loki. O Dr. Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) fará algum feitiço e a consequência será a chegada de vilões apresentados em filmes anteriores, como o Dr. Octopus (Alfred Molina) e o Duende Verde (Willem Dafoe) – com suas respectivas músicas-tema. Dizer mais do que isso sobre a trama seria entregar demais. E surpresa é o que não falta no longa, com algumas participações bem especiais que farão marmanjos chorar copiosamente. Quase temos a formação de um Sexteto Sinistro.

Assim como nos filmes anteriores, a mistura entre humor e drama é bem saudável, e não falta ação. A decisão da Marvel de manter o diretor, Jon Watts, para toda a trilogia foi muito acertada, além de que os dois roteiristas, Chris McKenna e Erik Sommers, também estavam envolvidos nos anteriores. Eles demonstram conhecer bem os personagens e cuidar com carinho do desenvolvimento deles. Conseguimos ver um avanço em quase todos eles: Stephen Strange é o único que parece preso em sua arrogância, mesmo tendo melhorado do filme solo para cá, e mostra que não é tudo aquilo que pensam dele.

O elenco de Sem Volta Para Casa também está bem azeitado. Tom Holland passa muita segurança no papel-título, mesmo nos momentos em que Peter mete os pés pelas mãos. Como descreve Strange: “por ter ajudado a salvar o mundo, esquecemos que, no fundo, Peter é uma criança”. E talvez esteja aí o maior fator de identificação do público com o personagem: ele não é perfeito como os semideuses da DC, tampouco o modelo de comportamento que representava Steve Rogers. Ele é um bom menino que tenta fazer o bem e frequentemente erra. E tem ao seu lado MJ (Zendaya), uma mulher mais geniosa que ele e que disputa o protagonismo do filme de igual para igual, deixando longe a figura da dama em perigo.

Quanto aos demais atores, a nostalgia fala alto quando alguns deles aparecem em cena. Gritos foram ouvidos no cinema como se fosse uma final de Copa do Mundo. Uns mais alterados por efeitos visuais, rejuvenescidos, outros menos. O J. Jonah Jameson de J.K. Simmons continua odioso, pregando a verdade que ele se força a acreditar no melhor estilo da escola Steve Bannon de fake news. Na imprensa brasileira não é difícil achar tipos como ele. Há algumas situações que parecem forçadas, mas quando pensamos bem, concluímos que não seria difícil que acontecessem de fato.

A forma como o roteiro reúne esses vários personagens e dá importância a cada um deles é bem interessante. O filme olha para o passado do Aranha no Cinema já indicando o caminho do futuro, evitando ficar apenas no saudosismo. Há duas cenas nos créditos: enquanto a do meio soa totalmente sem sentido, feita apenas para agradar a base de fãs, a segunda mais parece um trailer de uma próxima produção do MCU. De uma forma geral, Sem Volta Para Casa entrega o que todas as produções baseadas em heróis dos quadrinhos deveriam: diversão. E o Homem-Aranha segue sendo um dos que têm maior apelo junto ao público, que deve seguir lotando salas por algumas semanas.

O Dr. Octopus rejuvenescido de Molina foi um dos que mais arrancaram gritos no cinema

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Get Back traz a intimidade dos Beatles como nunca vimos

Depois de tantos documentários, especiais e shows divulgados ao longo das últimas décadas, pensava-se que não existiria mais material inédito sobre os Beatles. Tudo já era conhecido – ainda mais depois do projeto Anthology (1995), que originou três álbuns duplos, um livro e uma série documental. Daí a surpresa do premiado diretor Peter Jackson (da trilogia O Senhor dos Anéis) ao descobrir que havia 60 horas de material filmado e mais de 150 horas de áudio, um material riquíssimo sobre a banda mais famosa do mundo. A maioria disso nunca foi divulgada, talvez devido à complexidade da edição e montagem desse conteúdo.

Jackson e sua equipe, então, foram ao trabalho – com a benção dos beatles remanescentes (Paul e Ringo) e das viúvas dos colegas (Yoko, de John, e Olivia, de George). O material que daria origem à ótima série The Beatles: Get Back se originou de uma tentativa, em 1969, de os quatro gravarem um especial para a TV que também geraria um álbum inédito. Por isso, eles precisariam criar mais músicas, que acabaram entrando no álbum Let It Be. Esse, inclusive, é o nome de um documentário em longa-metragem lançado em 1970 que usa uma parte pequena do material captado pelo diretor Michael Lindsay-Hogg, causando em quem assiste uma impressão que não necessariamente refletia a realidade.

Os primeiros dez a onze minutos de Get Back dão uma ótima contextualizada para os que estão chegando agora nessa história. Mas, para os fãs dos quatro rapazes de Liverpool, é um deleite acompanhar com riqueza de detalhes os músicos discutindo, criando, tocando e brigando. Para os neófitos, trata-se de uma banda em pleno processo criativo, mesmo que em meio a desentendimentos. Para os fãs, trata-se da verdade por trás de vários mitos, como por exemplo o de que Yoko Ono teria sido a responsável pelo fim da banda. A esposa de John Lennon estava presente, sim, mas parecia em outro planeta, longe de ser causa para atritos. A presença até podia incomodar os outros, mas não era para tanto.

A montagem final, longa, é dividida em três episódios, cada um cobrindo uma parte dos 21 dias que eles tinham para criar e ensaiar as novas canções. Ao longo de quase oito horas, vemos a realidade das relações entre eles. Como irmãos, eles se divertiam, debatiam e brigavam. Poderiam fazer as pazes logo, relevando certos comportamentos. Em outros momentos, pareciam se comunicar pelo olhar, tamanha a cumplicidade entre eles. Ver músicas hoje clássicas, como Don’t Let Me Down, Let It Be, I Got a Feeling e obviamente Get Back ganharem forma é uma experiência impagável. Essa troca entre eles permitia que um contribuísse na composição do outro, mostrando porque essa experiência muitas vezes era em conjunto.

Apesar de alguns palavrões e muitos cigarros (sempre com avisos no início de cada episódio), Get Back se enquadra bem nos padrões do Disney+. Há trechos tensos, que vão deixar os espectadores apreensivos, por mais que conheçam o final da história. Lágrimas vão descer e muitas informações valiosas serão acrescentadas ao que já se sabe sobre aquela que, para muitos, é a melhor banda de todos os tempos. Até o jeito bem mandão de Paul McCartney, que acabou assumindo um pouco o papel de empresário deles com a morte de Brian Epstein, pode ser mais bem compreendido. Ao final de tantas horas, assim como George Martin, Neil Aspinall e tantos outros que os rodeavam, nos sentimos parte da família de Paul, John, George e Ringo.

Yoko de fato incomodava, mas não chegou a ser a causa do fim

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