Repescagem 2025: Blue Moon

Ambientado em um recorte histórico bem delimitado, Blue Moon (2025) aposta na reconstrução de personalidades e ambientes de época com grande apuro técnico, como se estivesse interessado em preservar uma certa memória cultural, mostrando exatamente como as coisas aconteceram. O problema é que essa fidelidade formal, enquanto os minutos passam, cobra seu preço, fazendo parecer um cansativo teatro filmado.

Blue Moon é um drama centrado em um encontro entre figuras do meio cultural norte-americano dos anos 1930. O protagonista é o compositor e letrista Lorenz Hart, habitual parceiro de Richard Rodgers, que foi seu protegido. O filme acompanha uma noite específica, a do lançamento da peça Oklahoma!, marcada por conversas, tensões e acertos de contas. Hart se vê confrontado pelo avanço do tempo, pela transformação da indústria do entretenimento e pela percepção de que seu espaço está se estreitando, já que ninguém mais aguenta seus excessos. Oklahoma! foi escrita por Rodgers e Oscar Hammerstein e Hart se ressente de ter sido deixado de lado.

Ethan Hawke surpreende fazendo esse papel no mesmo ano em que lançou O Telefone Preto 2 (The Black Phone 2, 2025), mostrando sua versatilidade. Ele sustenta o filme com uma interpretação segura, consciente do tom que a obra exige. Seu personagem é construído menos por grandes arcos dramáticos e mais por inflexões de voz, pausas calculadas e uma presença que domina a cena. Hawke entende que Blue Moon depende de ritmo interno e domínio da fala, e entrega exatamente isso: um trabalho técnico, preciso, que nunca descamba para o excesso. É uma atuação que mantém o filme em pé mesmo quando ele ameaça se repetir. Ajuda estar em sua oitava parceria com o diretor Richard Linklater, da “trilogia do Antes”.

A narrativa se constrói quase toda a partir do embate verbal entre os personagens, sendo os principais, além de Hart: Richard Rodgers (Andrew Scott, de Vivo ou Morto, 2025), Elizabeth Weiland (Margaret Qualley, de A Substância, 2024) e o barman Eddie (Bobby Cannavale, de MaXXXine, 2024), que sabe que não deve, mas continua servindo o alcóolatra Hart. Os diálogos, criados a partir de cartas entre Hart e Weiland, exploram as relações profissionais desgastadas, vaidades, dependências emocionais e a dificuldade de lidar com a própria obsolescência. Mais do que contar uma história de ascensão ou queda, o filme observa um artista em crise, preso entre o passado que o consagrou e um futuro que já não parece lhe pertencer. É menos um retrato biográfico tradicional e mais um estudo de caráter sobre ego, criação e esgotamento.

O problema é que o filme parece confiar demais nessas trocas entre os atores. A ausência de variação visual e rítmica transforma a agilidade dos diálogos em um exercício de resistência. O que no início soa estimulante, aos poucos se torna cansativo, não por falta de qualidade, mas por saturação. Falta ar, falta deslocamento, falta uma dinâmica que vá além da palavra.

Blue Moon termina como um filme correto, bem interpretado e formalmente coerente, mas também exaustivo. É um trabalho que se contenta em permanecer num único registro até o fim. Em seu trabalho anterior, Assassino por Acaso (2023), Linklater conseguiu um ótimo equilíbrio entre comédia, ação e romance, o que não repetiu aqui. Ao optar por filmar o teatro sem traduzi-lo plenamente para o cinema, o diretor entrega bons momentos isolados, mas deixa a sensação de que poderia ter ido além se tivesse ousado sair um pouco do palco.

Linklater levou seu elenco a Berlim para o lançamento

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Repescagem 2025: Jay Kelly

Jay Kelly, disponível na Netflix, é um filme que se coloca num lugar delicado entre a comédia e o drama, com uma reflexão sobre a vida sob os holofotes. George Clooney (de Tudo Pelo Poder, 2011) interpreta Jay, uma estrela de cinema madura que, em uma viagem pela Europa com sua equipe e, em especial, com seu empresário, Ron, começa a confrontar não só o incerto futuro de sua carreira, mas também as dificuldades nas relações pessoais com quem é mais próximo. Parece tão familiar quanto previsível principalmente para quem já viu obras do diretor Noah Baumbach (de História de Um Casamento, 2019), que passam por territórios parecidos.

A escolha de Clooney para o papel título é bastante acertada. Ele carrega no olhar e em sua presença em cena uma espécie de cansaço existencial que casa com a proposta do filme: um homem famoso e bem-sucedido que parece pouco certo de quem ele é fora daquela persona pública. Essa tensão implícita entre a imagem e o sujeito real é o que sustenta grande parte da narrativa, e Clooney a explora com gestos comedidos, que evitam o melodrama.

O roteiro, coassinado por Baumbach e Emily Mortimer (a Candy do filme), se apoia em diálogos que muitas vezes atingem um ritmo ágil e espirituoso, e revelam camadas de relacionamento e frustrações de forma mais eficiente do que os momentos silenciosos. Há um prazer claro em ouvir personagens articularem suas inseguranças e contradições, e é nesse terreno verbal que Jay Kelly encontra seus melhores instantes.

No entanto, essa fluência nos diálogos não impede que a trama siga caminhos familiares demais. A progressão da crise pessoal de Jay, as tentativas de reconciliação com familiares distantes e o percurso quase ritualístico pela Europa acabam por dar ao filme um contorno previsível: sabe-se cedo demais onde cada arco irá desembocar, ainda que o como seja interessante de acompanhar.

A valorização do papel do empresário vivido por Adam Sandler (de Jóias Brutas, 2019) é uma das escolhas mais sensíveis do filme. Ron não é apenas o suporte prático de Jay, ele representa uma espécie de espelho moral e emocional, alguém que é leal e acredita em Kelly, fazendo o lado bom dele aparecer, e não apenas o ego. A interação entre os dois acrescenta uma textura humana que, em muitos momentos, enriquece o que poderia ser apenas mais um estudo de vaidade hollywoodiana.

Embora simpático, Jay Kelly é um filme mediano, que trabalha temas relevantes, como identidade, legado, arrependimento, sem nunca ultrapassar a fronteira do familiar. É um filme cativante, a que se assiste com interesse, mas cuja previsibilidade narrativa e hesitação em aprofundar de forma mais ousada suas propostas deixam a sensação de oportunidade apenas parcialmente aproveitada.

Clooney empresta seu carisma ao personagem título

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Repescagem 2025: Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Chegando esse mês na Netflix, Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man, ou simplesmente Knives Out 3) confirma o que já vinha ficando claro nas duas aventuras anteriores da franquia: quando o mistério é bem bolado, o cinema de gênero pode ser ao mesmo tempo engenhoso e divertido. Rian Johnson retorna com autoridade ao universo que criou, assinando um roteiro bem escrito que se equilibra com uma trama complexa e clara que exige que o espectador fique dedicado até o último minuto.

O mistério central — intricadamente costurado e pontuado por reviravoltas que raramente soam gratuitas — é um dos grandes méritos do filme. Johnson sabe que o público contemporâneo já não se satisfaz com artifícios óbvios; ele constrói uma teia onde cada personagem carrega motivos críveis, e onde a verdade, quando finalmente exposta, ressoa menos como golpe de mestre e mais como consequência lógica de pistas inteligentemente distribuídas. Não se trata apenas de surpreender, mas de fazer sentido.

Essa verossimilhança se reflete nos personagens. Cada figura que circula pelo enredo possui uma coerência interna que vai além do estereótipo do “suspeito de mistério policial”. Ao invés de servirem apenas como peças expositivas, eles respiram, com desejos, contradições e pequenas falhas que os tornam palpáveis. Essa humanização dos personagens enriquece a experiência, porque o suspense não se apoia apenas no quebra-cabeça, mas nas relações entre quem está envolvido.

E boas atuações completam esse quadro sólido, começando pelo mestre de cerimônias, o grande detetive Benoit Blanc, um Daniel Craig ainda mais à vontade no papel. Ele faz parecer que o personagem terá vida eterna, repetindo a dobradinha com Johnson sempre que convocado. Como de costume, os demais nomes são todos novos, com Josh O’Connor à frente, seguido de Josh Brolin, Glenn Close, Jeremy Renner, Mila Kunis, Andrew Scott e etc etc etc. Todos muito bem, com destaque para a segurança de O’Connor e Close, sempre roubando cenas.

A condução do diretor é outro elemento que distingue Knives Out 3. Johnson mantém um pulso firme sobre o ritmo, alternando momentos de investigação meticulosa com intervalos de respiro que jamais soam dispersivos. Ele nunca perde de vista que, em um filme de mistério, a montagem, a composição de cena e o controle do tempo são tão essenciais quanto as palavras no papel.

Knives Out 3 não reinventa a roda, e nem pretende. O que ele faz é lembrar que, com um bom roteiro, personagens críveis e uma direção atenta, o cinema popular ainda pode oferecer mais do que puro entretenimento: ele pode exercer um convite inteligente à participação ativa do espectador. É um filme que honra suas promessas e, acima de tudo, reafirma que o bom mistério continua sendo, quando bem feito, uma forma refinada de narrativa cinematográfica. Pena que não passou pelos cinemas.

O padre e o detetive são os personagens principais desse mistério

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Stephen King chega aos cinemas até como Richard Bachman

São tantos os livros de Stephen King adaptados ao Cinema todos os anos que sobra até para Richard Bachman, o pseudônimo falecido. Na década de 70, o escritor adotou o outro nome para não saturar o mercado, podendo assim lançar mais de um livro por ano, além de testar seu talento, vendo se conseguia vender sem o seu já estabelecido nome por trás. Pois a proposta, agora, chegou ao cinema, com dois filmes recentes baseados em livros assinados por Bachman. Só que, na ficha técnica, no entanto, consta King como o autor: ele realmente vende mais.

A Longa Marcha (The Long Walk, 2025) é um filme aparentemente simples, com um orçamento baixo para os padrões de blockbusters (U$20 milhões), que consegue um resultado muito bom. Apostando nas relações entre os personagens, o roteiro revela no conta-gotas o que precisamos saber sobre eles para nos importarmos, e logo temos nossos favoritos.

Seguindo um tema pouco explorado na época, que ganhou muita força nos anos 2000, King escreveu sobre um futuro (próximo) no qual uma crise econômica quebrou os Estados Unidos e o país promove anualmente uma disputa, selecionando um candidato de cada um dos 50 estados para a Longa Marcha. Eles saem caminhando e precisam manter o ritmo, ou recebem advertências. Na terceira, são executados pelos militares que acompanham a prova. A ideia é promover a bravura dos inscritos, que serviriam como exemplos para os cidadãos empobrecidos em casa que não viam uma luz no fim do túnel.

O diretor, Francis Lawrence, tem experiência com o tema, trazendo em seu currículo quatro longas da franquia Jogos Vorazes, além de Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007). E o roteiro é de J.T. Mollner, mesmo nome que escreveu o surpreendente Desconhecidos (Strange Darling, 2023). No elenco, Cooper Hoffman (de Licorice Pizza, 2021) lidera um grupo menos conhecido, mas muito eficaz – e você deve reconhecer o eterno “Jojo Rabbit” Roman Griffin Davis. Do outro lado, liderando os fascistas executores, ninguém menos que Mark Hamill, o próprio Luke Skywalker, que dá o peso necessário ao misterioso Major.

A outra grande estreia da temporada que traz o nome de King (onde deveria constar Bachman) é O Sobrevivente (The Running Man, 2025), nova adaptação do livro de 1982. O diretor e roteirista Edgar Wright é responsável por bons filmes, como Todo Mundo Quase Morto (Shawn of the Dead, 2004) e Noite Passada em Soho (Last Night in Soho, 2021). Ao mesmo tempo, assina obras duvidosas, como Scott Pilgrim (2010) e Baby Driver (2017). Infelizmente, esse novo trabalho cai na segunda turma, com saídas e soluções bem fracas que, desde o início, deixam claro a preguiça dos roteiristas (Wright e Michael Bacall, também de Scott Pilgrim).

O filme começa mostrando (sem querer) que Ben Richards não era um bom funcionário, e ao mesmo tempo a empresa não dava boas condições de trabalho. Mostrando o sujeito como um coitadinho, vítima do sistema, acompanhamos sua luta para conseguir um paracetamol para a filha, que arde em febre. Parecendo sem saída, Richards aceita participar do programa espetaculoso The Running Man, no qual ele e mais dois candidatos devem sobreviver um mês sendo caçados por psicopatas mascarados contratados da Rede. E qualquer cidadão de bem que queira treinar a pontaria e ganhar um dinheiro.

O longa é bem mais fiel ao livro que a primeira adaptação levada aos cinemas, de 1987, que tinha Arnold Schwarzenegger como Richards. O personagem funcionava muito mais como um militar rebelde que se recusou a cumprir ordens fascistas. O atual, vivido pelo simpático Glen Powell (de Twisters, 2024), demonstra ter habilidades e consegue proezas que nenhum pai de família comum conseguiria. Se o programa, em 1987, era restrito ao prédio da Rede, agora é no mundo, o que torna as coisas para Richards muito mais difíceis. Ou, ao menos, deveria.

Dá para perceber, nas entrelinhas, que a intenção de Wright era fazer um filme divertido, mas aproveitar para fazer algumas críticas. Todas cabíveis, é bom afirmar. O programa força a barra de várias formas e o público compra as ideias facilmente. Tudo é deturpado via Inteligência Artificial, algo que já acontece hoje, e todos acreditam cegamente. Richards é pintado da forma que interessa aos executivos do canal, e isso torna o produtor Dan Killian (Josh Brolin, de A Hora do Mal, 2025) mais poderoso que o presidente de um país. O problema é que tudo isso é mostrado superficialmente e mal amarrado, parecendo o trabalho de um adolescente afobado.

A Longa Marcha e O Sobrevivente são duas histórias passadas em futuros distópicos, que ressaltam a espetacularização da miséria e mostram como o mundo ruma facilmente aos braços do fascismo quando a situação econômica não está boa. É muito fácil acreditar numa fala de crescimento e abundância quando não se tem nada, nem esperança. E os dois filmes atingiram quase o mesmo resultado nas bilheterias: pouco mais de US$60 milhões. A diferença é que A Longa Marcha faturou três vezes o seu orçamento, enquanto O Sobrevivente está longe dos US$110 milhões gastos.

Mark Hamill reforça o elenco de A Longa Marcha

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PTA e DiCaprio se unem para Uma Batalha Após a Outra

Depois de passar pelos cinemas nacionais, Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, 2025) chega aos serviços digitais para aluguel (como o Prime Video) e tem emplacado indicações em premiações como os Globos de Ouro, Critics Choice Awards e diversas associações. Não é difícil prever que o longa deve levar algumas das estatuetas principais da Academia, como Melhor Filme, Diretor e Ator. Seria mais uma consagração para Leonardo DiCaprio e o primeiro Oscar de Paul Thomas Anderson.

Assim como em Vício Inerente (Inherent Vice, 2014), o diretor e roteirista trabalha em cima de uma história de Thomas Pynchon, dessa vez focando em um grupo revolucionário que libertava imigrantes presos nos Estados Unidos. Passados 16 anos, reencontramos Pat Calhoun (DiCaprio), um sujeito de meia idade que passa seus dias invariavelmente chapado de drogas e álcool, enquanto a responsável filha adolescente (Chase Infiniti) segue com seus estudos.

Como que inspirado no clássico Os Miseráveis, Anderson cria um vilão que persegue implacavelmente o grupo, sendo Pat seu alvo principal. Ao contrário do Inspetor Javert, a motivação do Coronel LockJaw (Sean Penn, de Licorice Pizza, também de Anderson – acima) é sexual: depois de ser humilhado pela terrorista Perfidia (Teyana Taylor, de Até a Última Gota, 2025), ela passa a desejá-la. Assim, temos o nosso núcleo principal, cercado por coadjuvantes bem interessantes. Benicio Del Toro (de O Esquema Fenício, 2025) talvez seja o melhor, e menções em premiações não serão acidentes.

Quase como um cosplay de Jack Nicholson, DiCaprio passa boa parte do filme de roupão, com uma acertada cara de perdido, entre o trágico e o cômico, que cabe bem em seu personagem. Penn também capta com sucesso o espírito de seu militar perturbado, que monta toda uma operação para fins pessoais e consegue perturbar uma cidade inteira. Numa mistura de espírito livre e depressão pós-parto, Taylor ainda consegue acrescentar sensualidade a Perfidia, a razão de ser desse filme. Tudo gira em torno dela, e para ela.

Com essa premissa maluca, Anderson faz um filme acelerado, bem montado, que não deixa muito tempo para pensar no absurdo do cenário. Rapidamente, você compra a ideia e segue junto com os personagens. Os heróis são os ditos terroristas e os vilões são as autoridades, os homens de bem, fascistas membros de um clubinho tão exclusivo quanto ridículo. O diretor aproveita para dar umas cutucadas, apontar uns dedos, da forma mais bem sucedida: fazendo um filme divertido.

PTA dirige DiCaprio rumo a prêmios

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Netflix apresenta a cúpula do jogo do bicho

Produção original Netflix (em parceria com a Paranoïd Filmes), a série ficcional Os Donos do Jogo estreou em outubro e segue firme entra as atrações mais assistidas do serviço de streaming. Criada a partir do sucesso da série documental Vale o Escrito (2023), no Globoplay, a atração mistura características de figuras reais para criar um rol de personagens interessantes e dúbios. O principal deles, no entanto, é a cidade do Rio de Janeiro, a casa do jogo do bicho brasileiro, onde contraventores se misturam à paisagem e ao tecido da sociedade, se infiltrando em todas as camadas.

Fugindo dos clichês dos cartões postais das novelas de Manoel Carlos, e evitando cair no outro extremo, da estética da fome e da pobreza, Heitor Dhalia transita bem entre os vários núcleos cariocas. Com larga experiência no Cinema, como no famoso O Cheiro do Ralo (2007), o diretor vem se especializando no cenário do crime carioca, depois de comandar as séries Arcanjo Renegado (indo para sua quarta temporada), DNA do Crime (com duas) e O Jogo que Mudou a História. Como de costume, Dhalia não exagera no violência, mas tampouco pega leve, e evita moralismo ao contar uma história na qual ninguém é bonzinho.

Logo de cara, somos apresentados ao Profeta, como atende o jovem Jefferson Moraes, que pretende se meter no crime sem sujar as mãos, como é descrito em certo momento. Adotado e vindo do interior do Rio (da quente Campos dos Goitacazes), ele se considera um batalhador e vai buscar um lugar na Cúpula, reunião dos veteranos do jogo do bicho da capital. Esse grupo é formado pelas famílias tradicionais que dividem a cidade, como os Guerra. Jorge Guerra, o patriarca, está mal de saúde e já é preparada a inclusão de seu recente genro, Búfalo Victor, já que Jorge tem duas filhas e as mulheres não são permitidas nesse Clube do Bolinha.

O sexismo da Cúpula dá início a toda a movimentação da série – e é real, tendo em vista que o mesmo ocorreu com as filhas do famigerado Maninho Garcia, morto em 2004. No entanto, crítica social não é a ideia da série, que entretém com um roteiro bem pensado, que não pesa tanto no brilhantismo de Profeta, que faz jus ao apelido prevendo os ataques de seus antagonistas. Um poder de dedução que faria inveja a Sherlock Holmes. O ator André Lamoglia, muito lembrado por obras infantis e adolescentes, se desvincula totalmente dessa imagem, partindo para um personagem adulto, perigoso e que volta e meia se vê em situações sensuais. Mel Maia, carreira iniciada aos cinco anos de idade, é outra que deixa para trás a garotinha que já foi e tem uma ótima química com Lamoglia.

Enquanto Profeta e Mirna estão em um lado do ringue, do outro estão Búfalo e Suzana, colocando as duas irmãs e seus respectivos em guerra (trocadilho não intencional) pelas praças que pertenceram ao pai doente delas. Como o ex lutador Búfalo, Xamã mostra ter presença e marca mais um ponto em sua mais recente carreira, depois do sucesso como cantor. Giullia Buscacio, de Arcanjo Renegado e diversas novelas globais, também aproveita bem seu tempo em cena, mostrando boa sintonia com o parceiro. Pedro Lamin e Ruan Aguiar completam o núcleo mais jovem como os dois irmãos do Profeta, cada um com suas questões, uns mais trabalhados que outros.

 

Se o elenco menos conhecido já funciona muito bem, os medalhões são a cereja do bolo. Juliana Paes, figurinha tarimbada da TV, emana segurança como a primeira dama da contravenção, a pessoa por trás do líder informal da Cúpula, Galego. Este, por sua vez, ganha vida com o ótimo Chico Díaz, ameaçador até sorrindo. Irônico, calmo e certeiro, Galego acha que está no comando, mas segue exatamente o que sua Leilinha sugere. Otávio Müller, Stepan Nercessian, Adriano Garib e Tuca Andrada são outros nomes já bem estabelecidos que dão as caras, além de uma ponta de Bruno Mazzeo, em seu primeiro papel desde o final de seu contrato de 30 anos com a toda poderosa Globo.

A primeira temporada, com oito episódios, é bem conduzida e finalizada a contento. As situações convenientes acontecem aqui e ali, com algumas soluções fáceis ou apressadas, mas não chegam a incomodar. E ficamos na expectativa do desenrolar da história, prometida para durar quatro temporadas – se bem sucedida. E isso é fato consumado, com a segunda temporada já encomendada. Se contratos foram assinados, vale o escrito.

Os Moraes, de Campos, e os donos do jogo

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Ethan Hawke volta a assustar em Telefone Preto 2

O Telefone Preto 2 (The Black Phone 2, 2025) chega como aquela continuação que, em vez de se ajoelhar diante da própria mitologia, resolve cutucá-la — e com uma certa dose de insolência. Scott Derrickson retorna ao universo do escritor Joe Hill, mas agora troca a segurança do protagonista conhecido por um novo ponto de vista, uma escolha que, dentre várias sequências preguiçosas, soa quase como um ato de coragem. O filme parte da premissa de que as cicatrizes do original ainda sangram, mas evita qualquer dependência emocional fácil, não se escorando no passado.

A grande provocação está justamente no fato de que o vilão, o Grabber (no Brasil, o Sequestrador), já está morto. Morto, mas não resolvido. A solução poderia descambar para o truque barato do “espírito que volta por voltar”, mas Derrickson e seu corroteirista, C. Robert Cargill, tentam transformar essa limitação em motor dramático: se o monstro não pode mais tocar o mundo físico, resta-lhe manipular, seduzir, distorcer memórias — e esse deslocamento dá ao filme uma textura menos sanguinolenta e mais psicológica. É uma continuação que compreende a força de seu próprio fantasma e decide amplificá-lo em vez de substituí-lo, tornando-o uma espécie de Freddy Krueger.

E é aí que Ethan Hawke, mesmo com tempo de tela reduzido e novamente oculto por uma  máscara, mostra por que continua sendo a alma soturna desse universo. Há uma economia perversa em sua presença: cada aparição é um golpe cirúrgico. Hawke atua como quem sabe que não tem mais corpo — e ainda assim encontra uma nova forma de invadir o espaço mental da nova protagonista. É um retorno que não repete, prefere expandir.

A protagonista substituta — uma sobrevivente colateral dos eventos do primeiro filme — sustenta a narrativa com uma vulnerabilidade menos heroica e mais errática. A troca, ousada para um estúdio que facilmente teria cedido à nostalgia, acaba revitalizando a estrutura: observar o Grabber assombrar alguém que não o enfrentou diretamente abre margem para tensões diferentes, mais ambíguas. Quase como se o filme se perguntasse o que faz um trauma quando ele não pertence a você, mas insiste em se infiltrar.

A vítima original, o garoto Finney, aparece no fim da adolescência, ainda marcado pelo acontecido e levando uma vida bem desajustada. Mais uma vez, é interpretado por Mason Thames (acima), que viu sua carreira crescer após o primeiro filme e fez a adaptação em live action do sucesso Como Treinar o Seu Dragão (How to Train Your Dragon, 2025). Madeleine McGraw (abaixo) também trabalhou bastante nos últimos anos e volta agora nos holofotes, já que Gwen se vê como o foco do assassino. Ela herdou uma mediunidade da mãe, tornando sua comunicação com o mundo dos mortos mais direta e assustadora. A garota se vê obrigada a lutar uma luta que não era sua, e é construída com falhas e acertos, de forma bem crível.

Completando o trio familiar, Jeremy Davies também está de volta como o pai dos dois, dessa vez um ser humano ligeiramente melhor, mostrando que Terrence aprendeu algumas lições. Nas adições ao elenco, o destaque é Demián Bichir, que entra em mais um universo de terror em andamento (depois de A Freira, 2018, e O Grito, 2019), como o dono do acampamento cristão onde tudo acontece. Ao contrário do casal de funcionários, ele e a sobrinha (Arianna Rivas) são pessoas decentes, e não os hipócritas que esperamos encontrar nesses lugares. Miguel Mora, vítima anteriormente, volta como o irmão mais novo de Robin, Ernesto.

Derrickson filma com a mesma precisão granulada do original, mas agora aposta em corredores mentais mais do que físicos, e o uso do famoso telefone — agora deslocado de função — reforça essa atmosfera de delírio. A fotografia intensifica esse limbo, enquanto a montagem sabe alternar o silêncio opressor com ruídos estratégicos que dão ao espectador a sensação de estar sendo observado por algo que já não deveria existir. E a trilha conta com Pink Floyd e a presença constante da banda Duran Duran, em alta no início da década de 80.

O Telefone Preto 2 não tenta superar o primeiro filme, ser mais esperto. No entanto, busca desenvolvê-lo, encontrando elementos que não sabíamos que estavam lá. O resultado é uma continuação mais ousada do que o mercado costuma criar, guiada por um vilão que perdeu o corpo, mas ganhou densidade, e por um diretor que entendeu que, em um filme de terror, a morte não é o fim.

Derrickson dirige Hawke em meio ao gelo

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Ari Aster estuda a política de uma cidadezinha

Depois de transformar o luto em maldição familiar (Hereditário, 2018) e a culpa coletiva em ritual pagão (Midsommar, 2019), Ari Aster decide enfrentar um outro fantasma: a divisão política que se acentuou pelo mundo em tempos mais recentes. Eddington (2025), sua obra mais recente, é uma parábola sombria sobre uma nação que já não distingue fato, crença e delírio. Aster troca os gritos e as seitas por uma aflição silenciosa, quase burocrática, e parece mais interessado em mapear o esfacelamento do tecido social do que em provocar sustos. O resultado é inquietante, ainda que desigual, um retrato que fascina pelo desconforto que causa.

A cidade fictícia que dá título ao filme, perdida no deserto do Novo México, funciona como uma espécie de laboratório moral. Lá, o prefeito moderninho vivido por Pedro Pascal (de Amores Materialistas, 2025) tenta gerir uma gigantesca crise sanitária como se fosse uma planilha, enquanto o xerife de Joaquin Phoenix (de Beau Tem Medo, 2023, também de Aster) encarna a revolta dos que recusam a ciência e se alimentam de boatos. No Brasil, seria algo como um embate entre a direita e a extrema direita. Os dois lados parecem impotentes frente a catástrofe, até que o xerife decide acordar e concorrer contra o prefeito, que pretende se reeleger.

Aster mantém sua assinatura visual intacta. A fotografia de Darius Khondji (de Bardo, 2022) capta uma beleza mórbida nas paisagens áridas, com luzes que lembram tanto o crepúsculo dos westerns quanto o brilho metálico de um data center — símbolo de um país que terceiriza tudo que for possível. Cada plano é meticulosamente pensado, cada silêncio, calculado. A tensão cresce aos poucos, até que explode em violência explícita – a necessidade de se chegar a esse ponto pode ser discutida. O problema é que o artifício, tão controlado em seus trabalhos anteriores, agora se revela mecânico. O horror (por assim dizer) surge mais como efeito de estilo do que como consequência dramática.

A ambição de misturar gêneros — faroeste, sátira política, drama de pandemia — produz bons momentos e diálogos, mas também longos trechos em que o filme se perde em suas próprias metáforas. Quando acerta, Eddington parece um espelho trincado da América contemporânea, podendo aí representar várias outras nações. As subtramas, no entanto, se arrastam, os diálogos perdem ritmo, e o filme, com suas duas horas e meia, parece perdido quanto ao rumo a tomar. Além da discussão central, o roteiro dá um jeito de acomodar uma subtrama que não deixa de ser relacionada, mas acaba tirando o foco. Emma Stone e Austin Butler mereciam mais espaço.

Politicamente, Eddington é um reflexo da atualidade. Aster, num primeiro momento, não toma nenhum dos lados, condenando ambos. Se isso é lucidez ou covardia, caberá a cada espectador decidir. O fato é que, em pouco tempo, as coisas tomam um rumo extremo e revelam melhor o caráter de seus personagens. Ainda assim, é difícil escapar da sensação de que o filme prefere o espanto à análise, a constatação à reflexão. No plano técnico, tudo funciona: a trilha discreta, o desenho de som preciso, os espaços abertos transformados em claustrofobia. Eddington provoca, mas não transcende; diagnostica, mas não ilumina. Parece empacado.

Fica a impressão de que o diretor quis fazer o grande épico político de sua geração e acabou oferecendo um estudo de caso sobre a própria confusão de sua era. Ainda assim, é um esforço digno, como foi o caso de Beau Tem Medo. Aster continua sendo um cineasta capaz de transformar ansiedade coletiva em forma cinematográfica. E, mesmo quando se perde, o que ele nos entrega é uma obra perturbadora, sobre um país em que a verdade morreu, já que cada um pode definir a verdade que lhe convém.

O diretor levou seu elenco a Cannes para o lançamento

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Guillermo del Toro repensa clássico e cria novo Frankenstein

A nova versão de Frankenstein (2025), dirigida por Guillermo del Toro, é uma obra visualmente arrebatadora e ambiciosa, que reconta o clássico de Mary Shelley com um olhar poético e trágico ainda maior que no livro, seguindo um caminho distinto das adaptações anteriores. Ainda que carregue o peso da grandiosidade estética e da esperada assinatura autoral do cineasta, o filme também sofre com algumas decisões narrativas que o afastam das questões essenciais do romance original.

Entre os maiores acertos desta produção da Netflix, estão as interpretações. Jacob Elordi (o Elvis de Priscilla, 2023), no papel da Criatura, está surpreendente. Ele desaparece sob a maquiagem, equilibrando dor, inocência e fúria com rara sensibilidade. Sua presença em cena evoca empatia e desconforto, fazendo da criatura um ser complexo, mais humano do que monstruoso. Oscar Isaac (o Cavaleiro da Lua) também se destaca como Victor Frankenstein, dando vida a um cientista tomado pela obsessão e pela culpa, dividido entre o impulso criador e o horror de sua própria obra. O elenco de apoio,  principalmente Christoph Waltz (o Blofeld de 007) e Mia Goth (de Pearl, 2022), acrescenta qualidade ao longa, ainda que haja bons atores poucos aproveitados – o caso mais gritante é o de Charles Dance (Mank, 2020). E a estranheza de Goth afasta sua Elizabeth das mocinhas usuais. É curioso, mas foge da fonte.

A parte técnica é impressionante, como se pode esperar de uma produção de del Toro. A direção de arte e o figurino recriam com esmero o universo gótico da história, mesclando laboratórios sombrios e paisagens vitorianas de maneira hipnótica. A fotografia do colaborador habitual Dan Laustsen é um espetáculo à parte: o jogo de luz e sombras e o uso das cores para marcar os momentos reforçam a melancolia. Os efeitos práticos, privilegiados em detrimento do CGI, dão ao filme maior realismo, aproximando o espectador do desconforto físico e emocional que a narrativa propõe.

Del Toro dá ao filme um tom elegíaco, quase uma ode ao sofrimento e à solidão de suas criaturas. O dilema central original permanece: quem é, afinal, o verdadeiro monstro? O criador ou a criatura? A solidão, o desejo de pertencimento e o peso da rejeição atravessam as cenas, mantendo a reflexão sobre a natureza da humanidade e seus limites morais. No entanto, as liberdades tomadas com o texto original nem sempre resultam bem. A primeira metade da obra sofre com um ritmo excessivamente lento, com longos trechos dedicados ao passado de Victor e à preparação para a criação da criatura. Essa dilatação narrativa, embora compreensível no projeto de construção de atmosfera, acaba por enfraquecer a tensão e dispersar o impacto emocional.

Algumas mudanças na história soam desnecessárias, como o fato de Victor ter um mecenas. Ou de o irmão ser adulto e o amigo ter sumido, juntando os dois em um. Outras, vão no caminho contrário que Shelley havia colocado no papel. Victor é muito pior aqui do que a escritora jamais pensou, e o personagem perde complexidade com isso. Ele se torna apenas um babaca, perdendo boa parte da dualidade do livro. Ao humanizar demais a criatura e atenuar sua dimensão monstruosa, o filme perde parte da ambiguidade moral que torna o original de Shelley tão poderoso.

Certos acréscimos, como um fator de cura e aspectos quase heroicos, aproximam a trama do gênero fantástico e afastam-na da tragédia filosófica que a inspirou. A Marvel parece ter influenciado del Toro. O foco ampliado nas motivações paternas e psicológicas de Victor, embora interessante, também dilui a força do confronto entre criador e criação. E o ponto principal se perde: Victor não se arrepende de ter brincado de Deus, mas de ter criado algo que considera burro.

A estética basicamente se sobrepõe à essência. O filme, belíssimo em cada quadro, parece por vezes mais preocupado com esse aspecto do que em provocar desconforto ou horror. Ou mesmo de ter lógica: é para acreditarmos que um experiente capitão enfiaria seu navio naquele continente de gelo? Não era mais coerente ter feito um grande bloco, que poderia ter aparecido de surpresa? A grandiloquência da direção e a busca pelo espetáculo enfraquecem o silêncio, o medo e a inquietação moral que deveriam marcar a história.A mudança de comportamento de Victor rumo ao final é bem brusca, até atropelada.

Frankenstein (2025) permanece uma experiência cinematográfica digna, como qualquer projeto de del Toro. É uma leitura sensível e sofisticada, conduzida por um diretor que entende a beleza no grotesco, como é costume em suas obras. No entanto, a sensação final é desapontadora: a de que se assiste a um espetáculo fascinante, mas que carrega em si mudanças desnecessárias, distantes dos elementos que fizeram do Frankenstein original uma obra imortal. Para ver uma obra mais satisfatória e fiel, fique com o longa homônimo de 1994, e ainda tenha a chance de ver Robert De Niro como a Criatura.

A versão de 1994, de Kenneth Branagh, segue uma das mais fiéis, com De Niro como a Criatura

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HBO mostra como foi a chegada da AIDS no Brasil

Já temos a nossa própria Angels in America (2003). Ou, se preferir, nosso Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013). Trazendo elementos das duas obras, mas totalmente adaptados à nossa realidade tupiniquim, estreou Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, nova série nacional da HBO Max que mostra o estrago que a AIDS fez quando chegou ao Brasil – e as providências tomadas por cidadãos que queriam viver, e ainda ajudaram outros.

Expandindo o cenário visto no filme Os Primeiros Soldados (2021), o foco agora é um comissário de bordo (Johnny Massaro, também de Soldados) que faz questão de se manter alheio ao problema de saúde pública que toma conta do Brasil: a epidemia de AIDS que vem atacando milhares de pessoas, inclusive próximas. Ele só acorda e enfrenta a realidade quando ela bate à sua porta. A escolha de Nando como protagonista é interessante por fugir do habitual, como médicos e políticos, e as pessoas do meio dele também ganham destaque.

Para deixar claro que não se tratava de uma doença de gays, como se acreditava e o governo federal reforçava em campanhas oficiais danosas, a série apresenta vários personagens que se descobrem soropositivos, como esposas traídas e jovens que usavam drogas compartilhando seringas. Nesse ponto, a obra é um pouco óbvia, buscando ser didática e passando da conta. A AIDS era uma possibilidade para todos e era no mínimo arriscado ignorá-la, ou minimizar o problema.

A recriação do final da década de 80 é muito bem feita, com figurinos, objetos e lugares que casam muito bem com a trilha sonora e dão a ambientação perfeita. A consultoria de uma infectologista, Dra. Márcia Rachid, traz mais acertos no retrato da doença e das pessoas que foram vitimadas. E o maior ponto positivo é mostrar que a politização e a união foram essenciais para a luta dos soropositivos, já que o governo federal (assim como em outros países) demorou muito para tomar as devidas providências.

O cerne da trama é a liberação nos Estados Unidos do AZT. Criada 1964 para combater o câncer, a droga não se mostrou muito eficaz e caiu em desuso, mas foi novamente utilizada, em 1984, e deu muito mais resultado contra o vírus HIV, diminuindo a sua multiplicação, o que retardava o avanço da doença. O AZT dava mais tempo para o corpo humano reagir à doença, apesar de trazer consigo efeitos colaterais, como anemia. Ele foi liberado para comercialização nos EUA em 1987, mas ainda era ilegal no Brasil.

Aí que entra a ação dos comissários Nando e Lea (Bruna Linzmeyer, de Baby, 2024), que viram a oportunidade de trazer o remédio clandestinamente e ajudar muita gente, mas arriscar o próprio pescoço (leia-se emprego). A série, nesse sentido, pesa um pouco para fins dramáticos, aumentando o suspense relacionado ao tráfico do AZT. As outras instituições envolvidas, na época, faziam certa vista grossa, todas viam o benefício de trazer a droga. Nada que seja problemático.

Um outro núcleo importante que logo se mistura é o da boate Paradise, lugar que reunia gays e, consequentemente, pessoas infectadas. Entre elas, havia os que a doença avançou rapidamente, outros que conseguiram tempo para lutar e cobrar o poder público. E, no meio, temos Raul (Ícaro Silva, o Jorge Ben de Mussum, 2023), o segurança da Paradise que acaba comandando a boate e liderando a luta pelo reconhecimento das vítimas pela mídia e governo.

Começando pesando nas cenas de sexo (hétero e gay), a série dá o tom que seguirá e segue as histórias de seus personagens, que acabam se entrelaçando. Alguns são melhor explicados que outros, mais rasos, mas não deixa de ser satisfatório o tratamento que todos recebem. O foco dos diretores Marcelo Gomes e Carol Minêm, principalmente, é mostrar como a falta de informação, de posicionamento oficial e de empatia levavam ao preconceito, que piorava e muito a situação de pessoas doentes que precisavam, antes de tudo, de uma mão amiga. A AIDS, aliada a doenças oportunistas, ainda mata mais de dez mil pessoas anualmente no Brasil.

Antes do Brasil, a série teve seu lançamento no Festival de Berlim

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