Egerton brilha como Elton Rocketman John

por Marcelo Seabra

Cinebiografias musicais são um ótimo filão, as músicas e as histórias do biografado automaticamente levam público aos cinemas. Se for alguém do peso de um Elton John, então, a expectativa aumenta muito. Mas Rocketman (2019) vai muito além de simplesmente retratar uma vida. Ele trata de vários temas, preocupando-se mais com a fluidez das cenas do que com a cronologia. Longe de ser uma aula de História, é um espetáculo para olhos e ouvidos.

O jovem Reginald Dwight se mostrou um prodígio no piano desde cedo, e a descoberta de Elvis e do rock ‘n’ roll o roubou da música clássica. Integrando bandas de apoio, ele viu que precisaria se reinventar para ter sucesso. É quando o tímido Reggie se desfaz praticamente de sua personalidade e se transforma no espalhafatoso Elton John, que se tornaria o monstro da música que conhecemos hoje. Mas essa persona é apenas o que aparece para o público.

O maior atrativo de Rocketman é explorar a dualidade de Elton: em frente ao público ou às câmeras, ele faz valer o valor do ingresso, proporcionando um grande show; em sua intimidade, é ainda introvertido e em busca de amor. Crescendo com um pai frio e ausente e uma mãe frívola e pouco atenciosa, ele só tinha a avó para incentivá-lo. O fato de ser gay também não ajudou, dificultando suas relações românticas, o que levou a mãe a lhe dizer que ele nunca encontraria o amor.

Na descrição, o material pode parecer muito pesado. De fato, o roteiro de Lee Hall aborda assuntos sérios, como fez em dramas mais sisudos, como Cavalo de Guerra (2011), Victoria e Abdul (2017) e em sua estreia, Billy Elliot (2000). Mas o diretor Dexter Fletcher (de Voando Alto, 2015) tem uma forma bem lúdica de trazer tudo para a obra, tornando o resultado leve e divertido, entretenimento de primeira qualidade. As pessoas começam a cantar de repente, remontando aos antigos musicais, e isso funciona muito bem. E há as músicas ouvidas nos shows, além do que toca como trilha.

No papel principal, Taron Egerton se mostra um artista completo, se entregando de tal forma que o ator some e é possível ver Elton em vários momentos. Famoso pela franquia Kingsman, ele esteve no trabalho anterior de Fletcher, Voando Alto, e a relação entre eles deve envolver bastante confiança. O parceiro de composições, Bernie Taupin, é vivido por Jamie Bell, lembrado até hoje por Billy Elliot, apesar de ter muitos outros bons filmes. A dupla formada por Elton e Taupin (abaixo) é um dos pontos altos do longa, a relação entre eles é bem crível.

O elenco é completado por gente boa serviço. Os pais de Elton, interpretados por Bryce Dallas Howard (dos novos Jurassic Park) e Steven Mackintosh (de Wanderlust), são muito bons, mas o destaque é a ainda melhor Gemma Jones (a mãe de Bridget Jones), como a avó carinhosa e incentivadora. Tate Donovan (de Manchester à Beira-Mar, 2016) parece interpretar uma versão de Austin Powers, bem a cara dos anos 60, e Charlie Rowe (de Vanity Fair) e Stephen Graham (de Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar, 2017) são os empresários iniciais, todos muito bem. E não podemos nos esquecer dos garotos que fazem Elton mais jovem, muito competentes.

Outra figura real retratada em Rocketman é John Reid, empresário e amante de Elton. Na pele de Richard Madden (o Rob Stark de Game of Thrones), ele é mostrado como alguém calculista que sabe exatamente como ganhar dinheiro em cima de seus clientes. Reid foi personagem recentemente também em Bohemian Rhapsody (2018), coincidentemente vivido por Aidan Gillen – também de GoT. A relação com Elton, por ser mais pessoal, é mostrada de forma mais abusiva, e Madden vai do charmoso ao inescrupuloso em segundos (ambos estão abaixo, nos extremos).

Reid não é a única ligação entre as duas cinebiografias. Fletcher assumiu o projeto do Queen após o afastamento de Bryan Singer e o finalizou, mas por exigência do sindicato ganhou crédito apenas como produtor. Em Bohemian, ouvimos as músicas em suas versões originais, diferente de Rocketman, que traz números elaborados cantados pelo próprio elenco. Além de ser mais inovador, o filme de Elton trata de frente as questões mais polêmicas, como a homossexualidade e os vícios de seu protagonista, além de não se preocupar em cobrir toda a cronologia do cantor – e não bagunçá-la. E Egerton procura viver um personagem inspirado em uma figura real, ao contrário de Rami Malek, que estudou os maneirismos de Freddie Mercury para imitá-lo à risca. Enquanto Malek se prende, Egerton voa.

Portanto, em uma comparação entre as duas obras, Rocketman ganha de lavada. A música de Elton é usada para ajudar a contar a história, e não o oposto. E ele é apresentado como o ser humano que é, com falhas, e não um mito irretocável, como no caso de Freddie. Se Malek ganhou o Oscar, Egerton merece no mínimo uma indicação. E, em categorias como figurino, maquiagem e som, seria apenas justo que o longa levasse. Mesmo que não leve, o filme já é vitorioso.

Elton e Egerton parecem ter se tornado bons amigos

PS: Logo abaixo você encontra uma edição do Programa do Pipoqueiro inteiramente dedicada a Rocketman, com diversos comentários e músicas de Elton John.

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Programa do Pipoqueiro #40

por Marcelo Seabra

A 40ª edição do Programa do Pipoqueiro traz sucessos de Elton John, biografado em Rocketman (2019), e vários convidados dão suas opiniões sobre o filme. Aperte o play abaixo e divirta-se!

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Godzilla se arrisca a perder a majestade

por Marcelo Seabra

Quem vai ao cinema ver um filme do Godzilla espera muita destruição, mortes e lutas entre monstros. E é exatamente isso que traz Godzilla 2: Rei dos Monstros (Godzilla: King of the Monsters, 2019), dando aquela inflada no número de criaturas estranhas e poderosas. Começando cinco anos depois do primeiro filme, a trama nos mostra que nosso amigo é apenas um entre vários monstros adormecidos ao redor do planeta, e alguns estão acordando. Se, antes, a cidade de São Francisco foi dizimada, agora quem corre perigo é o mundo todo.

A Dra. Emma Russell (Vera Farmiga, de Invocação do Mal) trabalha para a corporação Monarca, responsável por conter e estudar os vários espécimes descobertos pelo globo. Com muitos “Titãs” já catalogados, bases são montadas com o objetivo de ter a situação sob controle. Mas terroristas ecológicos (liderados por Charles Dance, de Game of Thrones) têm outra ideia: comercializar o DNA, que serviria para muitos propósitos e, por isso, seria muito caro. A doutora logo se vê em perigo, e a filha (Millie Bobby Brown, a Eleven de Stranger Things) a acompanha.

Para ajudar no caso, as sumidades científicas do primeiro filme (acima), Dr. Serizawa (Ken Watanabe) e Dra. Graham (Sally Hawkins), vão atrás do ex-marido de Emma, Mark Russell (Kyle Chandler, de A Noite do Jogo, 2018). Russell participou da elaboração, ao lado da ex, de um aparelho que simula os sons das criaturas e consegue, dependendo da situação, atraí-las ou enxotá-las. Mark é o Indiana Jones da vez, o sujeito que reúne inteligência e aptidão para armas e combates. Contando com um reforço paramilitar da Monarca, eles vão tentar resgatar Emma e a filha do casal.

Não é preciso uma história mais elaborada ou uma direção afiada quando o que o público quer é destruição. E o filme já começa acelerando, com uma boa dose de adrenalina. E segura assim um pouco, para logo entrar no piloto automático. Daí em diante, vai revezando entre trechos de ação e paradeza total. E, assim como no longa anterior, cai numa mesmice que mesmo a luta melhor orquestrada não consegue empolgar. Com duas horas e dez minutos, a sessão vai cansar alguns e deixar outros apáticos. A não ser quando o personagem de Watanabe abre a boca. Ele é uma metralhadora de bordões e frases de autoajuda que desanima qualquer um.

Relembrando seus tempos de galã em King Kong (2005), Chandler encontra outra monstruosidade, mas dessa vez ele parte para a briga. O roteiro exige certo heroísmo e ele nos presenteia com umas caras e bocas que beiram o risível, enquanto Farmiga e Brown passam mais veracidade, carregando nas expressões de preocupação. Com elenco indo do correto para o exagerado, podemos ao menos aproveitar umas cenas bonitas proporcionadas pela câmera de Lawrence Sher (de Cães de Guerra, 2016). Mas, então, vem a trilha de Bear McCreary (de Rua Cloverfield, 10, 2016) e nos joga num filme de terror, ficamos na expectativa de ver um ritual satânico ou algo do gênero. E ano que vem tem mais, com Godzilla vs. Kong e outros quebra-paus de monstros.

Vem aí…

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Brightburn traz um Superboy mau

por Marcelo Seabra

Todo mundo que leu revistas em quadrinhos quando pequeno, em algum momento, deve ter pensado como seria se o Super-Homem fosse mau. A nave cai na cidadezinha e o casal bonzinho cria o alienígena, que cresce e se descobre muito poderoso. E decide tomar o planeta. Essa é mais ou menos a ideia em Brightburn – Filho das Trevas (2019), longa que leva essa premissa clássica em outra direção usando elementos comuns nos quadrinhos.

Assim como fez a série Smallville, este longa tem o nome da cidade onde a ação se passa. A pequena Brightburn vê os dias caminharem lentamente e o casal Breyer vive tranquilamente em seu casarão, criando galinhas e tudo o mais que fazendeiros fazem. Até o dia em que um estrondo os leva a uma luz no meio do mato e descobrem lá um bebê. Após um salto no tempo, estamos ao início da adolescência do garoto. Objetividade é uma característica do longa, que mal chega aos 90 minutos.

Ao contrário do universo criado por M. Night Shyamalan, concluído com Vidro (Glass, 2019), Brightburn não se parece uma fábula quadrinhística. Ele parte desse ponto para rumar ao terror, passando a ter um clima tenso e a mostrar cenas bem explícitas de violência e mutilação. Esses trechos são, ao mesmo tempo, criativos e nauseantes. Assim como acontece nas revistas, o garoto tem uma amiga que rapidamente se torna uma antagonista, algo como Clark Kent e Lex Luthor. Mas as relações aqui, claro, são bem diferentes. Essa lógica lembra mais Poder Sem Limites (Chronicle, 2012), que faz um estudo do impacto dos poderes sobre garotos e tem um resultado mais instigante.

Vividos por Elizabeth Banks (das franquias A Escolha Perfeita e Jogos Vorazes) e David Denman (de Logan Lucky, 2017), o casal de fazendeiros é simples e amoroso. Tentam ter uma criança há algum tempo e imaginam o acontecido como um presente divino. Sem maior alarde, criam o garoto, que sabe ser adotado, mas desconhece sua verdadeira origem. Ao fazer 12 anos, os poderes de Brandon começam a aparecer, bagunçando ainda mais um período que já é naturalmente conturbado. É, o menino já nasceu com nome artístico: Brandon Breyer – os quadrinhos adoram uma aliteração!

Além de Banks e Denman, outro que faz um ótimo trabalho é o jovem Jackson A. Dunn (o Scott Lang aos 12 anos de Vingadores: Ultimato, 2019). Ele consegue nos convencer nos dois extremos: como um filho dócil e obediente e como um psicopata sanguinário, falando pouco e usando bastante suas expressões faciais. As vozes que ouve não ajudam muito e se mostram um recurso totalmente desnecessário. Tim Williams (de Deadpool 2, 2018), responsável pela trilha sonora, consegue se segurar, compondo faixas que casam bem com as cenas, sem passarem do limite do invasivo. A montagem também é bem-sucedida, deixando as coisas ágeis.

Como o diretor David Yarovesky não é dos mais conhecidos e este é apenas seu segundo longa (depois de A Colmeia, 2014), o nome principal a aparecer no cartaz de Brightburn é o do produtor, James Gunn. Irmão e primo dos roteiristas (Brian e Mark Gunn, respectivamente, ambos de Viagem 2, 2012), James aproveitou sua fama, adquirida com Os Guardiões da Galáxia, para chamar um pouco de atenção para o projeto. Como o orçamento foi baixo e a bilheteria está se mostrando expressiva, não é difícil prever que os Gunns voltarão a esse universo em breve.

James Gunn, o produtor, apresenta o projeto com a atriz Elizabeth Banks

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Programa do Pipoqueiro #39

por Marcelo Seabra

Esta edição do Programa do Pipoqueiro traz os destaques da trilha sonora do filme Bumblebee (2018), além de diversos comentários sobre produções originais Netflix para assistir em casa! Aperte o play abaixo e divirta-se!

 

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Netflix viaja no tempo com A Gente Se Vê Ontem

por Marcelo Seabra

Muito mais próximo do drama que da ficção-científica, A Gente Se Vê Ontem (See You Yesterday, 2019) é uma nova produção Netflix que traz ar fresco a um subgênero bem famoso: o das viagens no tempo. Com um elenco jovem que ainda vai chamar muita atenção, o longa marca a estreia do estudante de Cinema Stefon Bristol na direção, depois de realizar curtas e colaborar com outros nomes, dentre os quais se destaca o de Spike Lee.

Bristol diz que seus filmes favoritos são Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989) e De Volta Para o Futuro (Back to the Future, 1985). Por isso, não é por acidente que A Gente Se Vê Ontem parece ser a mistura deles, trazendo conceitos ligados a espaço e tempo numa mistura interessante com temas como racismo e violência policial. Para que a referência fique ainda mais clara, temos uma participação mais do que especial logo no início da obra.

Novamente vivendo os papéis do curta homônimo de 2017, Eden Duncan-Smith e Dante Crichlow têm a chance de desenvolverem as aventuras de CJ Walker e Sebastian. Eles são melhores amigos que passam o tempo fora da escola desenvolvendo pesquisas científicas para vencerem uma importante competição e ganharem bolsas de estudo em institutos renomados. No centro da pesquisa da dupla está a possibilidade de viajar no tempo, e eles já fizeram mais de cem testes quando os conhecemos.

Uma atitude acertada, que outros filmes recentes também tiveram, é não se aprofundar muito nas teorias científicas, mas usá-las como ponto de partida para algo muito mais profundo. Bristol e sua co-roteirista, Fredrica Bailey, estão mais interessados em enfocar o círculo de violência que envolve as populações negras nos Estados Unidos, algo que segue na linha do mentor de Bristol, ninguém menos que Spike Lee (diretor e roteirista de Faça a Coisa Certa). Lee, inclusive, é produtor do longa.

Desenvolvendo as ideias que apresentaram no curta, a dupla faz com que CJ e Sebastian consigam voltar no tempo e, frente a uma tragédia, contemplem a possibilidade de mudar os rumos da história. É interessante perceber que o passado – e as questões que ele levanta – se torna um caminho bem mais atrativo que o futuro. Nos preocupamos mais com o que conhecemos, e não com o que ainda não aconteceu. E, assim, nos vemos torcendo pelos amigos, e o clima do filme, que começou bem-humorado, vai ficando tenso, em rumos que são de fato surpreendentes.

Nesse desenvolvimento, há pontos negativos a se levantar. O caldo entorna quando não se respeita as regras criadas. Como o roteiro obviamente segue os conceitos apresentados em De Volta para o Futuro, percebemos falhas gritantes. Para não entrar em detalhes, cito apenas um folheto e um velório como pontos principais. Se um não faz muita diferença, o outro é essencial para a trama. Fica parecendo que os realizadores não encontraram outra forma de chegar onde precisavam e precisaram fazer vista grossa para algo que qualquer fã de Marty McFly sabe há anos.

As situações que envolvem viagens no tempo ocupam o Cinema e a TV há anos, e é claro que não há uma resposta definitiva. Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019) trouxe outra vertente que foge um pouco, mas a mais difundida acaba sendo a do Efeito Borboleta. A Gente Se Vê Ontem segue por aí até dar uma grande derrapada. E nos leva a um final que pode ser facilmente interpretado como preguiçoso. Há um conceito por trás, claro, mas ele pode não satisfazer a todos.

Bristol conduz seus atores

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Este também é um romance adolescente

por Marcelo Seabra

Mais um romance água com açúcar para adolescentes a chegar aos cinemas, O Sol Também É uma Estrela (The Sun Is Also a Star, 2019) tem seu diferencial na tentativa de mostrar seus protagonistas como pessoas inteligentes e engajadas, apesar da pouca idade, e na crítica ao movimento contra a imigração que os Estados Unidos vivem (e o mundo). Esses dois objetivos se perdem em diálogos decoradinhos e pretensiosos, coincidências mirabolantes e situações inverossímeis, contando apenas com o carisma do casal para se segurar.

A primeira coisa que causa estranheza é o título. Ele é explicado na trama, ok, mas não deixa de ser pré-fabricado e complicado de guardar. O livro que serviu como base, de mesmo título, é bem elogiado e muito vendido, e tem algo de autobiográfico. A autora, Nicola Yoon, não viveu as dificuldades retratadas, mas também é jamaicana e o marido, coreano. Ela é a responsável pelo livro que originou outro romance adolescente igualmente besta: Tudo e Todas as Coisas (Everything, Everything, 2017). A duas histórias têm muito em comum e o resultado é igualmente desastroso.

O Sol Também É uma Estrela nos apresenta a Natasha Kingsley (Yara Shahidi, de séries como Black-ish e Grown-ish), uma jamaicana que vive em Nova York há nove anos e vive seu último dia na cidade. Ela será obrigada, junto da família, a voltar a seu país de origem, mesmo que tenha construído sua vida nos EUA. Nesse dia tão tumultuado, ela cruza o caminho de Daniel Bae (Charles Melton, de Riverdale) e chama a atenção do rapaz – a razão é estapafúrdia! Quando os dois têm a chance de conversar, após coincidências que bem podem ser o destino agindo (!!!), descobrem que são perfis opostos. Enquanto ele é um romântico incorrigível, ela é pragmática e não acredita no amor. Ganha uma mariola molhada quem acertar o que acontece.

A cidade de Nova York se torna uma personagem, com a fotografia de Autumn Durald (de Teen Spirit, 2018) passeando por prédios, parques e ruas. Em suas andanças, o casal passa por várias paisagens e marcos interessantes, e fica clara a questão da família de ilegais morar bem longe do centro. Os coreanos, por serem legais, parecem ter um pouco mais de tranquilidade, mas ainda assim são sempre vistos como “de fora”. Mesmo tendo nascido lá. Com o presidente deles falando sempre mal de quem não é “americano puro” (como se isso existisse), é louvável que um filme levante essa peteca.

O problema é que a boa intenção da história cai por terra com soluções simplistas para situações que parecem ser complexas. Tudo o que envolve o advogado vivido por John Leguizamo (de John Wick 2, 2017), por exemplo, é absurdo, a começar pela forma como ele entra no quadro. E a preocupação de dar um pouco de profundidade para nos dois principais, já que todos os coadjuvantes parecem um poço de estereótipos. Shahidi e Melton têm sorrisos muito bonitos, mas o texto que sai de suas bocas não ajuda nada. Sem exageros, foi fácil ver gente dormindo ao olhar em volta no cinema. E era uma pré-estreia para convidados!

Os atores ajudam, mas o texto os trai

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Novo Cemitério Maldito segue outros caminhos

por Marcelo Seabra

Um livro lançado em 1983. Uma adaptação para o Cinema em 1989. Era necessário realizar outra versão? Não. Havia outras obras do autor para adaptar? Sim. O filme de 89 é bom? Sim! E é fiel à fonte? Sim. Mesmo com essas respostas, foram adiante e já é possível conferir na telona o novo Cemitério Maldito (Pet Sematary, 2019), releitura do clássico de Stephen King que busca desesperadamente se afastar da primeira versão. O resultado é uma mistura paradoxal e fraca de uma lenta construção de clima, abandonado sem aviso prévio, com uma dependência de sustos fáceis.

Um problema que costuma acometer reboots de super-heróis é a necessidade que os realizadores sentem de fazer tudo diferente. Caso contrário, não se justificaria uma nova produção. O Homem-Aranha, por exemplo, teve a trilogia de Sam Raimi e, num intervalo curto, apareceu em uma nova aventura que mais uma vez trouxe a origem dele. Com essas liberdades, cada vez mais se afastam da fonte. Uma adaptação entre mídias diferentes não precisa e nem deve ser literal, ajustes são bem-vindos. Mas devem funcionar a favor da obra, e não acabar com o sentido por trás dela.

É comum ver na internet gente desmerecendo o Cemitério Maldito de 89, que de fato tinha um orçamento baixo. Mas o longa de Mary Lambert está longe de ser ruim. Além de boas atuações, em especial do saudoso Fred Gwynne, tem um roteiro bem amarrado que traduz maravilhosamente as ideias presentes no livro. Ah, importante mencionar que o próprio Stephen King fez a adaptação. E, com os Ramones na trilha, não tem como errar. Eles inclusive compuseram o fantástico tema homônimo, que imediatamente ganhou vida independente do filme.

Com US$21 milhões para usar no remake, a dupla Kevin Kölsch e Dennis Widmyer poderia ir bem mais longe. Os diretores têm experiência no gênero, com vários curtas e um longa de estreia, e o responsável por reescrever a história, Matt Greenberg, foi o roteirista de 1408 (2007), também derivado de King. A versão final do roteiro é assinada por Jeff Buhler – que este ano trabalhou em outra refilmagem, a de Alucinações do Passado (1990). Os temas abordados por King, como a morte e a culpa, ainda estão lá, mas de maneira muito superficial e forçada.

Se no elenco não tem gente tão famosa, talento não falta. Jason Clarke já mostrou seu valor, como em Mudbound (2017), e Amy Seimetz (de Alien: Covenant, 2017) cumpre sua obrigação a contento. Com os dois, o casal de protagonistas está bem defendido. John Lithgow faz qualquer coisa com excelência: do drama (como em O Amor É Estranho, 2014) ao suspense (o Trinity de Dexter), passando pela comédia (How I Met Your Mother), para ficar em exemplos mais recentes. E a menina Jeté Laurence (de Boneco de Neve, 2017) consegue ir aos extremos que seu papel exige, completando o núcleo principal.

Para quem não conhece, o livro (O Cemitério, no Brasil) nos apresenta aos Creeds no momento em que eles decidem deixar a correria da cidade grande e se mudam para a pequena Ludlow (próxima de Derry, de It, 2017). O Dr. Louis (Clarke) assume a enfermaria da faculdade local, o que lhe permite mais tempo com a esposa, Rachel, e os filhos, Ellie (Laurence) e Gage. Ele logo faz amizade com o vizinho, Jud (Lithgow), que o apresenta a um antigo cemitério indígena capaz de trazer os mortos de volta.

Ao contrário do longa de 89, que fez alterações pontuais no andamento da história, o de 2019 parte dessa premissa para desenvolver algo diferente. Há uma grande simplificação, excluindo personagens e situações, e os chamados jump scares (sustos gratuitos, que dependem de uma montagem rápida) se proliferam. A trilha, discreta no início, vai se tornando cada vez mais invasiva e incômoda, exatamente o contrário do que deveria fazer.

Algo que chama a atenção positivamente é a fotografia de Laurie Rose (de Operação Overlord, 2018). Ela parte de tomadas gerais, apresentando bem o ambiente, para closes que parecem querer demonstrar o estado de espírito dos personagens. Mas o roteiro desequilibrado não permite que eles se desenvolvam decentemente, e o que é pior: ele cria regras, as apresenta e não se importa em descartá-las na primeira oportunidade. Quem conhece o livro nota uma pressa enorme, é como se o roteirista tivesse listado momentos a apresentar e fosse riscando-os, numa urgência de cumprir a lista.

Como o meio desse Cemitério Maldito vai rapidamente mostrando suas diferenças para com o livro, como o trailer irresponsavelmente adianta, podemos pressupor que o final será ainda mais distante. E a sensação que ele deixa, de tão absurdo e vazio, é de que os diretores queriam chocar a qualquer custo, mesmo que isso custasse qualquer lógica desenvolvida até então. A música-tema dos Ramones, regravada de forma genérica, reflete a falta de propósito do filme. Com tanto livro de King ainda “virgem”, não dá para entender a ânsia de sempre se voltar nos mesmos. E, com a bilheteria que tem sido alcançada, uma sequência vem aí.

“Louis, às vezes o original é melhor!”

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Netflix oferece duas chances para conhecer Dirty John

por Marcelo Seabra

Procurando por amor, Debra Newell, divorciada e mãe de quatro, encontra pela internet um sujeito que parecia o pacote completo: 55 anos, médico, ligado à família, frequentador de uma igreja. Alguém bem-sucedido que viria para somar. “Por que não tentar e conhecê-lo?”, ela pensou. Depois de um primeiro encontro com uma conclusão desastrosa, ela acabou dando a ele outra chance e logo se envolveram de tal forma que não demoraram a se casar. O único problema nisso tudo é o fato de John Meehan ser um psicopata.

Quem não conhece o caso tem duas oportunidades de se inteirar, ambas distribuídas pela Netflix. Uma minissérie foi lançada nos Estados Unidos em novembro de 2018 e logo chegou a outros países, contando todos os detalhes do caso. Paralelamente, a rede NBC produziu um documentário para a TV sem romantizar nada, trazendo “a verdadeira história”. O interessante é perceber que as duas produções têm, entre seus realizadores, o jornal L.A. Times, que foi onde a história surgiu.

Em 2016, o premiado repórter Christopher Goffard tinha uma vaga ideia do que havia acontecido e procurou Debra. A partir daí, começou a juntar as peças, lançou as reportagens no jornal e acabou criando um podcast. Dividido em seis partes, o podcast teve mais de 10 milhões de downloads nas primeiras seis semanas de lançamento, tamanho o interesse que atraiu. Goffard foi consultor no documentário e na série, trazendo veracidade a ambos, mas a segunda toma leves liberdades dramáticas.

Estrelada por Connie Britton (de American Horror Story) e Eric Bana (de Rei Arthur, 2017), Dirty John: O Golpe do Amor (2018) constrói bem a personagem de Debra para na sequência introduzir John, daí em diante dividindo seu foco entre os dois. Bana está muito bem como o galante médico que se revela um predador viciado em remédios e mentiras. Mas quem rouba o show é Britton (abaixo, à esquerda), merecidamente indicada ao Globo de Ouro pelo trabalho. É agoniante acompanhar a jornada de Debra (abaixo, à direita), que busca basicamente o mesmo que todos nós: um companheiro, alguém para dividir suas alegrias e tristezas.

Mas Debra não foi a primeira vítima de John. Episódio após episódio, conhecemos o quadro completo, com direito a flashbacks para apresentar a família Meehan, além das outras mulheres que caíram na mesma armadilha. Algumas participações especiais, como Shea Whigham (de Vice, 2018) e Alan Ruck (o eterno Cameron de Curtindo a Vida Adoidado, 1986), são um adicional interessante, e temos ainda no elenco principal Juno Temple (de Roda Gigante, 2017) e Julia Garner (de Ozark), as duas fazendo um bom trabalho como as filhas mimadas de Debra.

Com quase 90 minutos, o documentário Dirty John, The Dirty Truth (2019) segue a mesma trilha, mas trazendo quem de fato viveu aquela experiência traumática. Alguns dos envolvidos optaram por não aparecerem, como a filha mais velha de Debra – na obra ficcional, ela teve até o nome alterado. Mas dá para entender bem o que houve. Só não é possível, em momento algum, saber o que se passa na cabeça de John. Ele emendava uma mentira na outra e, quando se sentia acuado, atacava.

Ver a verdadeira Debra enfrentando corajosamente as câmeras dá um aperto no peito. Ela mesma diz que se expõe dessa forma para dar forças a outras que podem estar passando por algo similar. Goffard (acima), criador das fontes das duas obras, aparece dando depoimentos, juntando as partes e preenchendo lacunas. E que figura antipática é Goffard! Com caras e bocas, como se fosse a atração principal, ele narra sua parte dos fatos de maneira bem blasé.

Ao compararmos as duas atrações, percebemos como foi fiel a criadora da ficção, Alexandra Cunningham (produtora de séries como Aquarius e Desperate Housewives). O fato de os oito episódios terem o mesmo diretor, Jeffrey Reiner (de The Affair e Fargo), mantém uma mesma linha por todo o andamento, com uma montagem ágil que vai e volta no tempo. Quem acompanha séries e gosta de manter o suspense deve conferir primeiro os episódios. Mas não deixa de ser interessante emendar com o documentário.

John e Debra se casando, antes de tudo ruir

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Bumblebee é a salvação dos Transformers

por Marcelo Seabra

Não está de todo errado quem correu de ver Bumblebee (2018) nos cinemas. Afinal, trata-se de um derivado (ou spin off) da modorrenta franquia Transformers, aquela bagunça visual comandada com mão de ferro por Michael Bay. Dá para deixar qualquer um desconfiado. Mas a decisão de focar esse episódio no simpático Fusca, com diretor e roteirista frescos, sem os vícios dos longas anteriores, deu um resultado bem razoável. Se não é uma obra de arte, ao menos passa longe da chatice esperada e vale uma espiada em serviços de streaming.

A premissa coloca os Transformers em guerra em seu planeta-natal, e os Auto-Bots estão levando um coro dos Decepticons. Por isso, o líder dos mocinhos, Optimus Prime, encarrega o jovem B-127 de verificar se a Terra daria condições a eles para se reagruparem e organizarem um contra-ataque. Aqui, o robô vai passar por poucas e boas, fará amizade com uma terráquea e vai acabar ganhando o apelido que carregou dali em diante: Bumblebee.

No papel que basicamente foi de Shia LaBeouf no filme de 2007, temos agora Hailee Steinfeld. Com saudades do pai, ela não se encaixa na nova estrutura familiar, com mãe, irmão e padrasto, e acredita que ter um carro resolveria muitos de seus problemas. Numa oficina de bairro, onde consegue peças para consertar um Corvette antigo, ela descobre um Fusca (ou Beetle) estacionado e consegue fazê-lo funcionar. Daí para descobrir que seu novo carro é na verdade um robô alienígena fugitivo é um pulo.

Steinfeld, cujo talento já foi comprovado em trabalhos como Bravura Indômita (True Grit, 2010) e Quase 18 (The Edge of Seventeen, 2016) segura bem a personagem, por mais maluco que seja o cenário. Ela tem um bom timing cômico e é igualmente competente nos momentos mais dramáticos. John Cena (de Na Mira do Atirador, 2017 – abaixo) é bem mais engessado, mas o militar que ele vive não exige muito. O outro destaque é Jorge Lendeborg Jr. (de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, 2017), que forma uma dupla afiada com Steinfeld. No elenco humano, não temos mais participações especiais, como é costume na franquia, mas elas aparecem entre os dubladores dos robôs. Dylan O’Brien, Justin Theroux e Angela Bassett são as principais novidades.

Bay, que assina Bumblebee apenas como produtor, passou o comando para Travis Knight, um experiente animador que traz no currículo Coraline (2009), ParaNorman (2012), Os Boxtrolls (2014) e a direção de Kubo e as Cordas Mágicas (2016). Duas indicações ao Oscar de Melhor Animação (por Boxtrolls e Kubo) devem ter lhe dado moral para assumir um projeto dessa magnitude, e ele se mostra mais apto que Bay, entregando cenas mais fáceis de digerir e uma montagem menos frenético. Apesar de ser responsável pelo terrível Paixão Obsessiva (Unforgettable, 2017), aqui a roteirista Christina Hodson acertou bem o tom, explorando o carisma de seu robô principal e alternando vários sentimentos ao longo de quase duas horas.

Um expediente que sempre funciona é contar com músicas amadas pelo mundo. Como a trama se passa em 1987, medalhões desse filão desfilam, como Bon Jovi, Duran Duran, A-ha, Simple Minds e muitos outros. O destaque da trilha fica para The Smiths, que parece ser a banda favorita da garota. Morrissey, o líder dos Smiths, se comunicava muito bem com adolescentes, daí a preferência. Somando-se todos esses elementos, temos um resultado acima da média, que deu dinheiro suficiente nas bilheterias para garantir uma sequência. Mas não esperem muito: o produtor Lorenzo di Bonaventura disse que pretende aproximar o segundo da franquia original, demonstrando não aprender com os próprios erros.

Uma bela imagem, com um quê de O Gigante de Ferro

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