
Dramatizar tragédias não é novidade no cinema. Muitos filmes já fizeram isso. Quase todos eles finalizam com as fotos das pessoas, cenas reais ou nomes dos envolvidos para trazer o espectador à realidade que a dramatização pode afastar. A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab, 2025) até faz isso, mas não só. Indicado da Tunísia ao Oscar de Melhor Filme Internacional, o longa de Kaouther Ben Hania mostra algumas horas do dia do Crescente Vermelho na Palestina.
Em poucos minutos, a diretora mostra parte da operação, do responsável por atender telefonemas de socorro à psicóloga que orienta e dá suporte aos voluntários, passando pelo responsável pela logística e a gerente dos operadores. Um dos casos é de uma garota de seis anos, Hind Rajab, presa em um carro com parentes mortos após o exército israelense metralhar o veículo.
O resgate está a apenas 8 minutos do local onde Hind se encontra. O problema é que eles não podem mandar ninguém lá até o aval do próprio exército de Israel para liberar a rota. O grupo de operações então se encontra em um cerco administrativo enquanto lidam com a criança no telefone. Em outras palavras: presos em uma burocracia em meio à guerra.

Seria apenas mais uma dramatização de casos reais, algo que filmes como O Culpado (The Guilty, 2018 – 2021) já fizeram: pessoas atendendo telefonemas e tudo o que elas podem fazer é mexer pauzinhos burocráticos enquanto falam em telefones. A Voz de Hind Rajab vai além: trata de um caso real e utiliza o áudio original da criança ao longo da dramatização. Se o clima tenso poderia ser criado apenas nas atuações, o espectador sente o desespero do atendimento que pouco pode fazer de um modo ainda mais próximo.
O filme se encaixa perfeitamente no que se convencionou a chamar de “docudrama”: dramatizações de casos reais e com recursos que todo o tempo o espectador é trazido à tona da dura realidade em Gaza e do absurdo que é o sítio imposto por Israel. Além dos áudios reais, a diretora ainda utiliza imagens reais dos operadores, num engenhoso enquadramento de celulares filmando a cena enquanto a tela mostra as pessoas reais no antendimento original.
A Voz de Hind Rajab não é um filme fácil e requer preparo do espectador para assisti-lo. Afinal, trata de Gaza e de um drama real vivido por uma criança, algo sensível para muita gente. Por outro lado, mostra que por trás de todo número ou novas notícias do cerco de Israel a Gaza, tem uma história muito pior. Tem gente sendo exterminada: mães, pais, crianças e até mesmo voluntários. Um final que não tem muito o que esconder e que, infelizmente, está acontecendo.



