Categories: Peter Rossi

Arrependimento

Viver um arrependimento, na maioria das vezes, é uma situação desconfortável, e isso pelas mais diversas razões. Poderia citar que arrepende-se aquele que confessamente concluiu que errou. Assola também o arrependimento os que foram covardes consigo mesmo, ou omissos  com relação às próprias vontades.

Mas sou forçado a reconhecer que a pequenez humana enseja, em algumas ocasiões, a adoção do reconhecimento do erro. E arrepender-se não é apenas certificar-se de que sua atitude foi equivocada. É muito mais, é assumir perante os seus semelhantes que apesar de ter agido de tal maneira, se pudesse volver no tempo e reavaliar seu pensamento, daquela forma não teria se portado.

Mas se existe o arrependimento no vocabulário é porque deve ser usado. Ele dói, envergonha. Temos a mania de dizer que arrepender nos engrandece. Pode até ser, mas ele nos emagrece de amor-próprio. Escancara nossa baixa estatura e, o pior, evidencia perante tudo e todos o mal feito.

Mas, ainda assim, é uma sensação de alívio que, obviamente, depende umbilicalmente da condescendência alheia. Perdoar, aquiescer, relevar pode ser mais caro ainda que arrepender, e acredito mesmo que o seja. Nesse viés, o arrependimento convida para a dança o par que nem sempre se encontra no mesmo compasso, no mesmo passo. Contar com o apoio do incomodado por nossa atitude é um ato de egoísmo, devemos reconhecer, sem o qual o arrependimento não seria pleno. E devemos ter a maturidade de contar com a hipótese de que o incomodado se sinta mais incomodado ainda em perdoar. Essa é outra hipótese, como também há a possibilidade da aquiescência apenas por conveniência. Esses, são os que nunca esquecem, mas fingem que sim para sempre ter na memória o ás de ouros a ser utilizado quando lhe for de boa oportunidade.

É … o arrependimento é mesmo complicado, sobretudo porque não foi fabricado pelo homem – ou quem quer que o tenha patenteado – para funcionar como uma borracha ou uma tecla “delete”. As coisas acontecem no varal do tempo, estendidas,umas ao lado das outras. Não há como interromper o processo. Ele é imperativo – ação, reação e indignação! As coisas, na complexa simplicidade do mundo, acontecem assim.

Esse não é um texto amargo em sua essência. O arrependimento que o é, e isso pelo simples motivo de que vem precedido de um erro e errar nunca é confortável.

Vamos nos amoldando a essas curvas da vida, que retumbam como dobras de conduta. Daí a máquina da impressão alheia apresenta a conta: o julgamento prévio, a condenação.

Se o erro é inato, e de fato o é, até porque as normas de conduta são diversas e nem sempre contemporâneas, por outro lado não existem elementos de medição uniformes. O que para uns é bom, para outros tantos é execrável, e à míngua de uma normatização única – e me perdoem aqueles que pensam que a uniformização está na Bíblia – cada um segue seu próprio código. É certo que o espaço alheio não há de ser preenchido sem o consentimento do proprietário, mas as inconveniências não são modulares.

Elas acontecem e nem sempre cabem na sala da conveniência ou na varanda do politicamente correto.

Arrepender dói, e como! Assumir o erro mais ainda e mente quem diz que com isso saímos mais fortes. Não, apenas transferimos o julgamento para o outro, torcendo para que ele seja nosso advogado de defesa. Se algoz for, o que é uma variável a se considerar, a reprimenda imolará a culpa, ou pelo menos fará dela algo que possa se esvair no tempo.

Ah … esse tempo que tudo molda, mas que apenas pulveriza as lembranças, cuidando de preencher a memória com histórias outras. E assim a vida segue, com arrependimentos … um atrás do outro.

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