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Entre o véu e o espelho

Sandra Belchiolina

Sem falso moralismo — porque ele derrete no primeiro suor de fevereiro — é fácil admitir: o Carnaval é a grande festa brasileira. A pátria onde confete é argumento, serpentina é vírgula e purpurina funciona como tese de doutorado. Há brilhos suficientes para iluminar as sombras do ano inteiro.

É também o momento em que a fantasia toma o volante e manda o Eu punitivo tirar férias. O chefe interno, sempre tão consciente e vigilante, perde o crachá por alguns dias. O Supereu — esse fiscal da alegria — até tenta apitar, mas a bateria passa por cima.

No Carnaval, a alegria dá vazão (com “z”, porque ninguém merece erro ortográfico em plena avenida) e o véu da censura escorrega sem pedir licença. A fantasia social — aquela versão discreta que sustentamos o ano todo — reaparece com plumas, salto 15 e nome artístico. Para alguns, claro. Há quem use um véu tão espesso que nem raio-X atravessa. Para esses, enxergar, ouvir ou falar é opcional; reclamar, jamais. Permanecer na censura parece mais seguro do que encarar o espelho — ainda que o espelho esteja coberto de glitter.

Mas há sempre o risco delicioso de ver o que está por trás do véu. E isso, convenhamos, é salutar. Às vezes terapêutico. Às vezes revolucionário. Quase sempre desconcertante.

E então chega a quarta-feira de cinzas — esse dia em que a maquiagem vira memória e o corpo pergunta: “e agora?”. O que sobra da soma dos excessos? O que fica quando o som desliga e a fantasia volta para o cabide?

Talvez o Carnaval seja menos fuga e mais ensaio. Um laboratório afetivo a céu aberto. O jogo amoroso sai do privado e ganha rua, palco, calçada. Mostrar-se e ser visto deixa de ser exceção e vira método. Corpos diversos, estilos múltiplos, amores fluidos (ou nem tanto) ocupam a cidade como quem reivindica existência.

E isso pode ser insuportável para quem precisa que tudo permaneça velado, organizado, etiquetado. O brilho alheio incomoda mais do que a própria ressaca.

Se a quarta-feira é cinza ou ainda colorida, dependerá da ética do desejo que cada um sustentou nos dias de Rei Momo — e, principalmente, do que fará com ela quando o samba silenciar. Fantasiar-se de homem, de mulher, de ambos ou de nenhum; atravessar fronteiras ou redesenhá-las — tudo isso pode render um lucro subjetivo interessante, desde que não seja arquivado na pasta “foi só Carnaval”.

Porque a fantasia autorizada nesses dias não sacode apenas o corpo: sacode a estrutura. Às vezes vira a pessoa do avesso — e ainda bem. Um pouco de desorganização pode ser mais vital do que anos de compostura impecável.

No fim das contas, viver permanentemente reprimido é muito mais triste do que encontrar glitter no travesseiro em pleno mês de março.

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