O pai não aceita o fim da relação de 15 anos e mata os dois filhos com tiros a queima roupa e, em seguida, se mata. Ele atira nos filhos de 12 e 8 anos para punir a mãe deles, sua ex-mulher, ao descobrir que ela mantinha um relacionamento com outro homem.
Se ela não mais o quer como homem, ela também não mais merece ter os filhos consigo. Transforma os filhos em objetos de punição. Faz injustiça com as próprias mãos. Pune a ex-esposa ao vê-la desejando outro que não ele próprio. Suicídio-vingança.
Ele se mata não por que ama demais, mas porque está desesperado, sem recursos comportamentais ou narrativos para enfrentar esse golpe que a vida lhe impôs que é ser rejeitado, preferido. Suicidio-narcisista.
Ele se mata porque sofre, um sofrimento moldado pelas normas de uma sociedade patriarcal machista, que enxerga a mulher como propriedade dos homens que, por sua vez, “não podem chorar”.
Ele se mata para “escapar” dascondenações da justiça dos homens. Em sua ação não há amor ou altruísmo, foi apenas covarde e canalha. No auge da sua masculinidade quis lavar sua honra com o sangue de seus filhos.
Precisamos urgentemente debater as construções sociais acerca da masculinidade. Ser forte não é ser violento, é ser capaz de encarar as próprias fragilidades.
Precisamos urgentemente transformar a cultura misoginia.
Precisamos novamente falar sobre as políticas de acesso a armas de fogo.
Precisamos falar sobre o dito cidadão de bem que trata família como apêndice de si próprio. O chefe de família que não consegue suportar sequer um chifre.
Estamos todos em choque diante dessa barbárie. Essa tragédia não é somente sobre a dor e o luto dessa mãe. Uma mulher que sofreu o controle do ex-marido e agora, além de lidar singularmente com o luto mais dolorido que uma mãe pode ter, enfrenta o julgamento de uma sociedade patriarcal.
Trata-se de um luto coletivo a ser enfrentado por todos nós como sociedade. O luto como um processo civilizatório e estrutural necessário no enfrentamento das mais diversas formas de violência.
Em nome da sociedade na qual queiramos e possamos viver. Em nome do amor.
Vivemos numa sociedade doente.
Me desculpem, mas a primeira ideia que me veio à mente quando me inteirei dos fatos, é que o marido era secretário de governo do sogro, prefeito da cidade.
Ou seja, despotismo praticado sem nenhum pudor e que, provavelmente retrata a visão imoral e hipócrita que a família tem da vida.
Não quero justificar o ato criminoso praticado pelo pai. Mas, com certeza, o buraco é mais embaixo.
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Vivemos numa sociedade doente.
Me desculpem, mas a primeira ideia que me veio à mente quando me inteirei dos fatos, é que o marido era secretário de governo do sogro, prefeito da cidade.
Ou seja, despotismo praticado sem nenhum pudor e que, provavelmente retrata a visão imoral e hipócrita que a família tem da vida.
Não quero justificar o ato criminoso praticado pelo pai. Mas, com certeza, o buraco é mais embaixo.