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Cinema

Ele chegou trôpego à sala de cinema. Era, afinal, uma oportunidade há muito perseguida, e só agora conquistada. Imaginou estarem juntos, quase cúmplices, uníssonos.

O cinema é um mundo à parte. Às vezes o Olimpo, noutras o pior dos quadros no Inferno de Dante. Mas é único, disso não podia discordar. Entrar naquela caixa escura é transcender. Ele tinha essa exata noção.

Perto dela então? Nossa! Nada mais era importante, não havia tempo que andasse. Os ponteiros do relógio pregados ao fundo. Era simplesmente imperdoável ao tempo passar. Ali, naquela hora, hora nenhuma existia que não estivesse absolutamente petrificada. Ele e ao lado, ela. Simples assim. Como se simples fosse. Os cheiros e sua respiração lhe denunciavam. Ele exalava vontade e realização plena – êxtase.

O filme estava por começar. Colocou os óculos e se ajeitou na cadeira. Buscou encostar no ombro ao seu lado. As luzes vão diminuindo e o som alto entra como que no fundo da sua alma. As imagens perpassam, uma a uma, a dezesseis quadros por segundo. É hora de seguir viagem num trem de luzes, som e cores. De lágrimas e sorrisos. De emoções tão intensas que os pregam na tela e a consciência tem muito trabalho e desapego prátirar de lá.

Mas o escurinho do cinema seduz a todos – os apaixonados. Os que querem a umidade de um convívio único. Beijo em gotas e flores de pipoca. Beijos de amor, enrolados como num filme, colados um no outro. Olhares que se consomem e mergulham um no outro, como a lua no mar, na mais bela das noites.

No aconchego da cadeira mãos nervosas tateiam pelos corpos como a medi-los e no escuro imagina-los junto aos seus. Beijos mil, beijos de vilão e mocinha, beijos de super-heróis. Beijos em 3D, beijos molhados, beijos legendados, com letrinhas saltitantes a gritar: amo, amo, amo!

No escurinho do cinema é onde a vida vira filme, onde a vontade de estar junto vem acalentada pela certeza de que ali estarão, mesmo quando o filme acabar. E, num olhar embevecido, os amantes dão uma sonora piscadela, propositadamente para que não leiam a palavra fim.

Ele, intuitivamente, sabia de tudo isso, mas como que declamava o script em seu interior.

Sabia que aquele momento era um filme em cinemascope, colorizado, dublado por elesmesmos, costurado pedacinho por pedacinho, quadro por quadro, beijo por beijo. Um filme em que um vilão atrapalhado insiste em dizer para a mocinha que não pode viver sem ela, que tudo fará para tê-la ao seu lado, até salvar o mocinho dos trilhos pouco antes do trem passar. E o trem passou …

As imagens, como o trem, também passam, seguidas, ritmadas, cada uma no exato espaço entre o que foi e o que será.

Ele não imaginava – ou melhor sempre imaginou, ou quis imaginar, que poderia se sentir assim. Ao lado dela, e profundamente nada mais.

O mágico cinema que nos leva à lua, num foguete descompensado, e nos traz de volta, com um botão de rosa nas mãos. Grande sacada aquele botão de rosa, no escurinho do cinema, vindo direto do foguete.

O filme é documentário de suas vidas, que num primeiro momento pode até não fazer sentido, mas que foi escrito num roteiro sobrenatural e indecifrável, roteiro gravado nas duras pedras da distância. Mas que problema tem? Os filmes são feitos para isso mesmo: para os fazer sonhar que das telas se despregaram e que como heróis podem voar! 

Foi quando ele percebeu que voava. E como borboleta pousou no braço da cadeira. Estava ali, pertinho, inebriado pelo perfume dela. E pousou, tilintando todas as asas. Tentava ficar quieto, se equilibrar, mas equilíbrio era tarefa das mais difíceis. Sua respiração era ofegante. Sentia a dela também trôpega. Como borboleta pousou sua mão na dela, agasalhando cada dedo com toda pressa do mundo, mas com o carinho dos inconsoláveis, afinal o filme estava por terminar. Respiravam juntos, assustados, encantados. E se beijaram como se o mundo fosse acabar naquela hora. Como se o filme nunca fosse acabar … Beijo de alma, daqueles que transforma nossos olhos justamente em telas de cinema. Beijos que não se cansam, que estalam, que soltam faíscas, beijos que se beijam.

Ele, entorpecido, não perde uma cena do filme, ainda que de olhos fechados. Beijo e filme se confundem, se fundem. A caixa escura é mágica. Traz estrelas, nuvens. Traz montanhas, uma atrás da outra. Traz até céu iluminado. Traz beijo.

E eles se beijam, como meninos, como se fossem únicos e os beijos, últimos.

Tem beijo de pera, uva e maçã. Beijo roubado, emprestado. Beijinho, beijo com estalo, beijo impulsivo e assustado. Beijo andarilho, beijo perdido, beijo encontrado.

E a cada beijo o filme se renova, traz uma cena que a princípio não estava no script original. Um novo ângulo da câmara os permite ver que, num espaço, no fundo da tela lá estão, sentados, iluminados, encantados … de tanto amar!

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