Estudiosos atribuem ao grande general romano Pompeu uma frase histórica. Ele precisava resgatar o ânimo de seus soldados na iminência de uma forte tempestade que precederia uma batalha ferrenha. Ele a formulou, naturalmente em latim, com muita inteligência. Valendo-se do mesmo verbo, que tem mais que um sentido, provocou seus comandados dizendo: “Navegar é preciso! Viver não é preciso!”.

É muito interessante imaginar que há 2600 anos, soldados endurecidos pelas contendas fossem capazes de entender a sutileza dessa construção linguística. Inicialmente se refere à exatidão do navegar, ao cumprimento de uma jornada e ao respeito à rota determinada, portanto a precisão seria uma necessidade. Em seguida, viver extrapola a simples necessidade; implica mais amplas possibilidades e, com isso, ajustes constantes, portanto sem uma precisão previsível.

Talvez essas palavras já tivessem caído no ostracismo de páginas esquecidas em algum livro antigo de história, não houvessem sido resgatadas pelo espetacular poema do grande Fernando Pessoa, Os Argonautas, no emblemático ano de 1914, nascimento de meu saudoso pai e eclosão da Primeira Grande Guerra. Entre nós, ao sul do Equador, foi ainda cantada em versos de sucesso na canção homônima, Os Argonautas (1969), composta por Caetano Veloso e teve também a ótima interpretação de Maria Bethânia. O uso dos sentidos ambíguos da palavra “preciso” incita o leitor, ou ouvinte, a pensar sobre os contextos.

A inexistência de precisão no “Viver” talvez deva ser observada pela possibilidade de diversas nuances que entregam mais cores à vida; que afastam o marasmo de dias improdutivos; que aceleram o pulsar do coração frente ao novo. O desconhecido que sempre será entendido como outra batalha.

Cada pessoa tem seus próprios desafios, suas tormentas, suas calmarias; os prêmios das vitórias ou as chagas das derrotas. Não é diferente com as PcD, para as quais as ondas se apresentam mais elevadas e compactas. Muitas vezes, a escuridão das vagas é ampliada pela falta de oportunidade ou do excesso, por incultura, de proteção.

A busca por autonomia pode esbarrar na atitude de terceiros que assumem o protagonismo da vida alheia, dificultando o seu desenvolvimento e sua capacidade tomar decisões; de, pelo menos, tentar vencer suas próprias lides; de navegar suas próprias águas rumo à felicidade. As limitações naturais já são suficientes para trazer turbulência à viagem da vida. Portanto, ainda que a título de proteção, extrapolar o apoio, em contraposição ao estímulo, pode ser prejudicial.

É sempre bom lembrar as grandes ideias expressas em músicas por geniais talentos, como o fez o grande Cartola em Preciso me encontrar (1976): “Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir pra não chorar”. E esse entendimento se aplica também àqueles que a própria vida legou mais desafios que vitórias. No mesmo diapasão das PcD, esse recorte social precisa de apoio e oportunidade para crescer, não de esmolas que os tornem, ad aeternum, dependentes, subjugados. Conquistar o orgulho de usar sua capacidade intelectual, produtiva, em prol daqueles que ama, em respeito a si e a própria história é o que importa, afinal.

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