Trabalho, trabalhadores e trocas

 

Uma reflexão que tem me rondado recentemente é a seguinte: o capitalismo nos ensinou que as pessoas são substituíveis. Um funcionário de uma empresa que se demite pode ser rapidamente reposto por outro que faça a mesma função.

O mundo funciona assim tanto nas empresas públicas quanto nas privadas. E isso se estende também aos trabalhadores domésticos ou informais. Qualquer trabalho pode ser igualmente exercido por outra pessoa – desde que capacitada – uma vez que o posto é deixado vazio.

No entanto, o passar do tempo me ensinou algo diferente. Algo óbvio, mas que costumeiramente passa despercebido. As pessoas quando deixam suas colocações levam consigo muitas coisas importantes. Muitas características essenciais e únicas. E resultam em uma falta bem maior do que o vazio de seu posto. Do mesmo modo que, quando são admitidas, o peso da função que exercem não é maior do que o peso de sua presença, de suas histórias e de sua existência em particular.

Talvez fosse mais fácil pensar diferente e intencionarmos funcionar de forma adaptada à linguagem inumana que rege o mercado. Porém, na prática, ainda não somos máquinas. Ainda não somos robôs.

E assim, nunca ninguém é verdadeiramente substituível. Quando as pessoas vêm, elas vêm com suas histórias. Algumas trazem suas famílias, suas questões de saúde, seus problemas. Nada disso está completamente dissociado do trabalho, pois o trabalho é apenas algo que a pessoa faz enquanto também carrega essas coisas. Se as ignorarmos, ignoramos parte importante daquela pessoa e, consequentemente, a relação por inteiro se empobrece. O vínculo se fragiliza. A volatilidade estereliza o que poderia se tornar uma história longeva e sólida. Ainda que seja uma história primordialmente de trabalho.

Nem sempre esse aprofundamento é possível e nem todas as situações o permitem. Porém é válido   considerá-lo nas relações mais frequentes.

Tem-se assim a oportunidade de realizar uma troca genuína de aprendizados e vivências com quem trabalha. Troca essa por vezes ainda mais valiosa do que a troca primária entre dinheiro e um serviço prestado.

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