Categories: Mário Sérgio

Quem vem lá?

Mário Sérgio

Qual a expectativa de conquista, ou presentes, para crianças que se empenharam todo o ano, para não desagradar o Papai Noel?

Ao final de cada ano, naquele bairro – uma pequena vila – instalado na encosta de uma colina íngreme, os olhos das crianças assumiam novo brilho. Era perceptível a diferença para os olhares dos dias comuns. Havia uma esperança que não se percebia nem nas vésperas de aniversários. O mais comum para quem completava mais um ano de vida era ganhar algum presente prático, funcional, como roupas ou calçados. O Natal, no entanto, trazia uma promessa diferente, pois quem traria o mimo não eram os pais ou as pessoas do seu entorno. Era o Bom Velhinho, com suas roupas exóticas, sua aparência distinta daquelas que se via no cotidiano. Suas botas lustradas diferiam totalmente daquelas que os operários usavam para o trabalho na grande siderúrgica. Essa mesma empresa que construiu a primeira vila operária da América Latina, cujo fundador emprestou seu nome à própria cidade, João Monlevade. A Vila Tanque, inaugurada na década de 1940 para abrigar os operários da indústria, recebeu de braços abertos centenas de pessoas que construíram ali sua vida.

Santa Claus, nome que soube só muitos anos depois, quando já adulto, que era o original do sorridente senhor rechonchudo, de espessa barba e longos cabelos brancos. E ele, para nós, crianças, tinha um dom mais do que especial: era onisciente. Sabia de tudo o que havíamos feito durante todo o ano. Nossas boas e más ações. As “palavras feias” que porventura houvéssemos proferido; nossas notas baixas; nossas desobediências; e até quando lançamos um olhar “libidinoso” para aquela menininha linda da escola ou – quanta coragem! –  para as professoras que, aos nossos olhos, eram muito sabidas, cultas, elegantes e sempre apaixonantes.

Às vezes, nas cartinhas escritas com todo o cuidado, pedíamos presentes luxuosos e caros, como um velocípede ou uma patinete. Bolas e bonecas eram os pedidos básicos, reiterados a cada Natal. E isso foi bastante estimulado quando a garotinha Maria Regina Cordovil gravou a composição de seu pai, Hervé Cordovil: Carta a Papai Noel (1961), quando eu contava 4 anos, e que alcançou enorme sucesso. O pedido da intérprete, na canção, era “uma boneca bem grande. Se for pequena, não faz mal…”

Meus pedidos eram baseados em minha condição de PcD, com sérias restrições motoras, as sequelas da poliomielite que, naquele período, entre as décadas de 1940 até meados da de 1970, fez inúmeras vítimas em todo o mundo. Então restavam, como opções, os jogos de tabuleiro, de varetas, dominó ou, extrapolando o orçamento, um carrinho de bombeiro ou de polícia. E, claro, por se tratar de um período em que o cinema estava em alta, enquanto os filmes de faroeste dominavam a cena cultural, um revólver de espoleta foi objeto de desejo também. Quando íamos nos deitar, por volta das oito ou nove da noite, fingíamos dormir para ouvir, à meia-noite, meu pai perguntar a quem nunca víamos: “Quem vem lá?”

Blogueiro

Share
Published by
Blogueiro

Recent Posts

Tudo a seu tempo

Início de ano e aquela ressaca das festas parece tomar conta de nós como se…

7 horas ago

Quando eu morri

Rosângela Maluf Ontem, quando eu morri, era quarta feira, 19 de abril, dois dias depois…

14 horas ago

Sonho

Peter Rossi Que história é essa? Não me comprometa! Só me comprometa! Vida às avessas,…

2 dias ago

O rei está nu, sem coroa e algemado

“O ex-príncipe Andrew foi preso”. O texto poderia ser só isso. Esta frase sintetiza boa…

3 dias ago

Entre o véu e o espelho

Sandra Belchiolina Sem falso moralismo — porque ele derrete no primeiro suor de fevereiro —…

4 dias ago

Em nome do amor

Daniela Piroli Cabral danielapirolicabral@gmail.com O pai não aceita o fim da relação de 15 anos…

5 dias ago