Taís Civitarese
Algumas amigas me perguntam por que coloquei meus filhos na mesma escola em que estudei, sendo que era um colégio apertado no qual passávamos perrengue com notas, disciplina e estudos. Alegam que não querem esse caminho para os seus, optando por outros modelos de educação.
Além disso, não parece lógico que eles estudem lá porque o colégio fica longe da minha casa e requer uma pequena viagem diária para se chegar até ele. Também não fui inspirada por ter sido particularmente feliz nos tempos de estudante ou por cultivar especial nostalgia em relação àquela época.
Tenho argumentos para responder a elas e todos eles podem ser considerados “pífios”, já que se adequariam a muitas outras escolas semelhantemente boas da cidade. No entanto, envolta nos pensamentos, um dia, me dei conta da razão exata pela qual os matriculei ali.
Por muitas vezes, como quase todo ser humano, senti-me inadequada e sem lugar no mundo. Senti que minhas convicções eram incompreendidas, meus hábitos eram estranhos e tive desinteresse completo por muitas coisas que pareciam ser o caminho natural das pessoas. Senti-me desadaptada ao tempo e à minha comunidade. Diante dessas sensações, havia um lugar de consolo no qual eu sempre pensava e, ao pensar, vinha um afago que renovava as minhas esperanças. Esse lugar era uma sala de aula da quarta série quando, aos dez anos, eu escrevia textos e os lia para os colegas de turma.
Percebi que essa cena me acompanhou na memória por muitos momentos ao lembrar-me que, apesar das batalhas, havia um ponto no espaço-tempo em que eu me sentia incrível. Era num ambiente cercado por crianças e relacionado a leitura, imaginação e escrita. E são esses os significantes que tenho perseguido por toda a vida.
Esse oásis imaginário só foi possível porque havia ali uma professora que me deu a oportunidade de exaltar aquela habilidade que eu tinha. E também porque o colégio abria espaço em sua filosofia para esse tipo de atitude.
Talvez por isso, inconscientemente, tenha escolhido para os meus filhos o mesmo destino. Apesar da distância, apesar dos muitos anos passados, apesar das provas difíceis e de todas as voltas que o mundo já deu desde então, eles foram parar dentro das mesmas paredes, diante das mesmas lousas e sob os mesmos ventiladores de teto.
Recentemente, tive a sorte de encontrar uma professora que deu aula para mim quando criança e também para os meus filhos na infância deles. Se há algo mais bonito do que isso, desconheço. Uma professora afetuosa que guardou a marca da continuidade e da transmissão dos bons valores. E que foi com eles tão generosa quanto foi comigo. Ela irá se aposentar esse ano e, assim, mais um ciclo se fecha.
Penso que talvez tenha sido isso que eu tenha ido buscar naquele colégio tanto tempo depois. Que meus meninos tivessem a oportunidade da fascinante e momentânea sensação de pertencimento. E embora nada esteja garantido, caso desse certo, que isso pudesse direcioná-los quando tivessem dúvidas sobre quem eram e sobre o que gostariam de fazer neste mundo.
Seu texto fez o tempo girar por aqui…
Voltei às lembranças e pude ver, com nitidez, uma aluna quieta, de olhos curiosos — tão inteligente e tão observadora — que já escrevia divinamente.
Depois, conheci seu filho mais velho. Outro observador nato, que desenhava em qualquer borda de papel ou página de livro. No começo, confesso que duvidei da atenção dele… mas bastaram algumas perguntas, os questionamentos precisos e a participação viva nas aulas para revelar um garoto sensacional, completamente engajado nos conteúdos.
E agora, o caçula.
Ele me conquista todos os dias com sua alegria, sua vivacidade contagiante e uma inteligência que salta aos olhos — daquelas que iluminam a sala e despertam curiosidade em quem o observa.
Todos vocês carregam uma sede bonita no olhar… são curiosos, abertos ao novo, desejosos de aprender.
E não existe nada mais gratificante para um professor do que ter diante de si alunos assim — é como beber água fresca quando se tem muita sede.
Obrigada pelo texto, especialmente neste ciclo que estou encerrando.
Ele chegou como um abraço nesse meu momento de despedida.
Um colégio para toda a vida, inquestionavelmente.
Amo fazer parte dele.