Quando o Prozac surgiu, no início dos anos 90, lembro de assistir a uma reportagem do “Fantástico” falando que nunca mais seríamos tristes. Havia sido inventada a cura para a depressão. Um repositor de serotonina cerebral, que é o neurotransmissor das boas sensações. Uau. Aquele foi o primeiro indício de que se iniciava um novo milênio, de que o futuro seria incrível e promissor. Nascia um antidepressivo mais seguro, com poucos efeitos colaterais e que prometia maravilhas. Trinta e cinco anos depois, entendemos que não foi bem assim.
Não somos receitas de bolo feitas de químicos que se misturam e produzem resultados prontos e previsíveis. Somos um compilado de muitas influências, sobretudo das palavras que ouvimos, dos ambientes em que convivemos, das experiências que temos.
Quem dera um comprimido mágico fosse capaz de nos tornar felizes. Ainda assim, lembro das conversas daquele tempo em que se dizia: “sinto isso porque falta uma substância no meu cérebro”.
Doce ilusão. Nada é assim tão simples. Nosso sistema nervoso central é um labirinto cheio de complexidades e interações entre elas. O que nos faz únicos, mas também complica a questão quando se pensa em um tratamento de saúde mental.
Talvez estejamos perdendo a perspectiva do que é ser humano vivendo em um sociedade que objetifica tudo. Quando sofremos, não é como uma torradeira que perdeu a peça ou um casaco que soltou o botão. Nosso “conserto” requer uma manutenção um tanto mais complicadas. Às vezes, faz-se necessário o acréscimo de uma substância somada à aquisição de um novo hábito, junto ao encerramento de uma interação, associada a um bom sono e ao exercício físico. Sem falar nas doses requeridas de afeto, de acolhimento, de escuta e de reflexão. Nossa engrenagem mental é ajustada por múltiplos fatores.
Que tenhamos sempre isso em mente para não continuarmos a enriquecer indefinidamente as indústrias de remédios e a iludir-nos em sequências de tentativas medicamentosas sem fim. A receita adequada para certas curas pode ser de outra natureza.
Texto naravilhoso. Você está cada dia melhor
Parabens Tais! Grande escritora!