Fico assuntando se na verdade preferia ter nascido há tempos atrás. Sempre pensei assim, desde menino.
Sempre fui encantado com as roupas, o porte, o jeito das pessoas andar, dialogar. Me encanta as mesuras nunca dispensáveis. A timidez do respeito excessivo em qualquer abordagem.
Me vejo, com certa frequência, dispensando todo e qualquer equipamento que, de uma forma ou de outra, não sobrevive sem a energia elétrica.
A placidez daqueles tempos me dá a impressão de que nos derramávamos em mínimas tarefas com mais afinco. Os dias eram mais longos, o tempo mais disponível.
A vida de hoje nos impõe tantas tarefas periféricas fazendo com que o principal fique soterrado sob escombros absolutamente sem sentido. Assim, perdemos muito tempo a justificar o que, efetivamente, é de todo dispensável.
Pensar que um pintor, como Da Vinci, demandar diversosanos na conclusão de sua obra prima é algo inimaginável hoje em dia. Só foi obra prima porque teve ele todo tempo do mundo para conclui-la, não se preocupando, absolutamente, com os dias e meses gastos na tarefa.
Quando imagino aqueles tempos atrás, tenho a sensação de que viver era algo mais artesanal. As golfadas de ar que recebíamos pela manhã, ao abrir a janela, eram mais saboreadas. Os sabores minimalistas de cada ocasião eram, ou deveriam ser, únicos, nos convidando a sorver cada momento com todo o mérito que o bom momento deve ter.
Sair para um passeio, no final da tarde, era um acontecimento. Um simples caminhar pela praça, observando as demais pessoas que com conosco cruzavam. Os olhares, sempre avessos, escondidos, quando refletidos impunham o disparar de nossos corações. Coisas bem simples, mas que provocavam tamanho encantamento em nossas vidas. Pensando assim, viver era então mais fácil. Sentar a beira do mundo e observar cada momento mágico que a vida proporciona.
A lua, nossa amada desavisada, parceira inseparável dos amantes e amados, com certeza era mais admirada. Nasce aí o paradoxo: no mundo moderno chegamos até suas terras, mas, de longe, com certeza, ela é muito mais bonita e instigante. Seu brilho, seu reflexo, nas pupilas dos apaixonados.
Acho que até o amor era mais sublime, nos tempos atrás a que me refiro. Qualquer loucura de amor era uma verdadeira loucura. As pessoas se estendiam por inteiro, desfraldavam a alma em sentido à pessoa desejada. Hoje o mundo gira rápido demais e se focarmos em determinada pessoa por muito tempo, com certeza perderemos outras observações.
Amar, naquela época, era razão de viver, penso eu. Hoje não! Infelizmente o amor banal sobre o qual canta o poeta é mais presente do que imaginamos. Deixou de ser uma metáfora, uma figura de linguagem, para figurar como uma triste realidade.
A palavra, essa então tinha dons múltiplos. Não saía tão sorrateiramente das nossas bocas. Pensávamos mais, afinal o tempo era nosso aliado. E pensando, nos cuidamos ao falar, até porque o que foi dito jamais voltará. O vento trata de levar as palavras e nunca mais trazê-las de volta.
Fico mesmo pensando como seria o mundo de tempos atrás. O brilho raro das poucas coisas era mais intenso, até porque não havia muito espaço a disputar. As coisas simplórias e banais não o eram, até porque eram poucas em quantidade.
O mundo moderno traz com ele a efemeridade, o trespassar do desnecessário. Hoje cuidamos de correr a comprar, ao melhor preço, aquilo que sabemos não ser nossa necessidade. Tudo é impulso, uma mola propulsora que, como um quasar, num mero instante projeta nossas ações sem qualquer compromisso.
Hoje não cuidamos mais, sequer, de escrever. Nossa caligrafia é artigo sem mínima importância. Se observarmos, é bem possível que convivamos com alguém por muitos anos sem sequer conhecer a forma como se escreve.
Essa é uma dissintonia absoluta. Escrever era algo pensado. Escrevia-se para convencer, para conquistar, para agradar, para distribuir sentimentos profundos em gotas de tinta. Hoje não mais escrevemos, cuidamos de mandar malditos bonequinhos cujo nome é um tanto estranho – emojis!
Que a modernidade é uma consequência do caminhar da vida, e que tudo, certamente, desaguará num dia mais complexo que o anterior, disso não tenho dúvida. Nem repilo, injustificadamente, as facilidades que os dias atuais nos proporcionam. Delas faço uso constante e, confesso, me refestelo com cada uma. Mas daí a se deixar contaminar pela insensibilidade do correr do tempo, vai outra via. O homem pode e deve mesmo desfrutar dessas benesses, porém não pode justificar nelas a perda de sua essência. E, ser gente é o melhor de tudo. Se assim não for, deixamos de ser os protagonistas e passamos a atuar como simples coadjuvantes dos tempos.
Não vocifero quanto ao novo! Apenas argumento que os sentimentos não podem ser deixados de lado em prol da pressa. Me utilizo da sábia lição de Pessoa ao afirmar que mais importante que viver é navegar. E nesse viés, não há plano melhor do que os olhos da mulher amada, transformados em mar.
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Peter Rossi,vc nos envolve com os seus mais belos textos.
Como era empolgante esperar o carteiro? Melhor ainda deliciar com aquelas palavras de amor ali escritas?
Confesso,tenho cartas,bilhetes e cartões postais guardados décadas e mais décadas. São os meus mais belos tesouros .
Nada substitui uma carta,bilhetinho de amor.