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Cenas do ambulatório

Taís Civitarese

O ambulatório em que trabalho atende crianças e adolescentes. Os pacientes são chamados de neuroatípicos pelos códigos médicos. Para nós, no entanto, são crianças e adolescentes não muito diferentes de quaisquer outras. Podem ter seus “CIDs” e laudos, mas estes são meros detalhes. O que os torna realmente únicos são algumas outras coisas.

Outro dia, atendemos um menino que tinha caído da jabuticabeira. Ele ralou os cotovelos. Fiquei feliz por ainda existirem meninos que brincam de subir em jabuticabeiras. Muitos de nossos pacientes somente vivem através de avatares. Guerreiam, atiram e correm movendo apenas os músculos das mãos nos controles dos “games”. É um enorme desafio mostrar-lhes que a vida não-virtual também pode ser interessante. De vez em quando, aparece um professor de vida. Como esse garoto que subia em árvores para colher jabuticabas.

Teve também uma menina que, para sair de casa, precisava estar sempre carregando um espelho. Podia ser um espelho de estojo de maquiagem, um espelhinho pequeno ou de qualquer tipo. Ela precisava tê-lo no bolso o tempo todo para, de vez em quando, conferir sua existência. Sem aquilo, sentia-se insegura, invisível. Pensei no tom poético de sua solução para a solidão essencial de todos nós. Ela não negou a angústia e nem podemos fazê-lo. Mas ela encontrou uma forma simples de aplacá-la sem maior malignidade. Uma metáfora “do olhar para si” que cabe ao adulto. Enquanto a criança usa um espelho, ao adulto recomenda-se o autoconhecimento.

E há um menino que gosta de brincar com sereias. Muitos não o entendem. No entanto, esta é sua verdadeira paixão. Se há algo que pode ser entendido é que a uma criança não se impõe gostar e desgostar das coisas. Eles simplesmente gostam ou desgostam. E essa verdade e espontaneidade sem associações externas são inspiradoras. Isso reforça o respeito que deve ser dado a cada natureza. Embora este fato possa ser ’incompreensível’, lembremos que quem criou as leis e determinou as supostas predileções fomos nós. Tudo é artificial. Exceto aquilo do que diz gostar uma criança.

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