Taís Civitarese

Uma amiga me perguntou o que houve e eu não consegui dizer. Faltaram palavras. Elas não se formaram na minha boca, não quis falar em voz alta para não parecer ser verdade. Contei apenas parte da história: Houve um acidente. Não contei que não te verei mais, nunca mais, e que isso está doendo bastante.

Não contei que te conheci com 17 anos. Você era gordinho e usava óculos. Muito inteligente. Desde sempre engraçado. Ficamos amigos no primeiro dia de aula. E desde então, você morou no meu coração.

Mais tarde, teve uma vez que você fez uma coisa muito importante. Você acenou para mim em um momento duro. Foi um conforto. Passamos a compartilhar piadas e carinhos esporádicos. E depois, nos unimos a um mesmo amor relacionado à música.

Fazia anos que não te via pessoalmente. E aí, combinamos um passeio juntos. No dia do passeio, conversamos muito. Era improvável, foi no meio de um estádio de futebol. Ainda assim, você contou coisas incríveis. Suas impressões sobre São Paulo, onde morou. Suas incursões pelo mundo da tevê, quando apareceu em um programa e conheceu diversos artistas. Caímos no riso sobre isso. Contou dos seus amores e paqueras. De como se sentia ao ouvir aquelas músicas que gostávamos e te falei que, paralelamente, também me sentia assim: livre. Demos um longo abraço. Tiramos foto para o Instagram (minha prima que bateu). Você mostrou mensagens engraçadas, algumas até secretas! E então, nos despedimos. Você foi ao encontro de um outro amigo, tinha muitos. 

Hoje me encontro emocionada por aquela ter sido a nossa despedida. E agradeço por isso. Aquele abraço, embora não pareça, e mesmo antes de saber que seria o último, significou muito. Ainda que seja um dentre os muitos abraços que damos e recebemos pela vida. A amizade sempre foi, para mim, uma coisa grandiosa. Uma faísca de identificação, compreensão e carinho. Uma leitura silenciosa do outro quando este se mostra. Você conseguiu mostrar-se inteiro pela vida. Isso é bastante difícil.

Sou muito feliz por termos sido amigos, por ter te conhecido e desfrutado da sua companhia. Você realmente marcou minha vida com ternura, com comédia, com coragem, com diversão, com inteligência e irreverência. Estou triste. Preciso parar de escrever agora e deixar sarar.

 

Tais Civitarese

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