Finalmente!

Finalmente - Fonte: Internet
Finalmente – Fonte: Internet
Tadeu Duarte
tadeu.ufmg@gmail.com

Foram longos anos de sofrimento desde que ocorreram o golpe parlamentar na Dilma, a prisão de Lula e a farsa da Lava Jato. Lembro das medidas antipovo do Temer e do meu desejo de que as próximas eleições chegassem para consertar aquela delinquência política.

Mas, décadas de antipetismo no jornalismo brasileiro chocaram o ovo da serpente: Jair. 

O ex- militar bunda suja, expulso do exército, indisciplinado e boquirroto passou a ser o remédio forte da direita para as eleições de 2018, após o PSDB perder quatro eleições presidenciais seguidas para o PT. 

O mercado sonhava com as velhas ideias do estreante Partido Novo, mas Jair comunicava melhor com o povão e, João Amoedo, o sapatênis humano da Faria Lima, tinha menos voto e carisma que uma maçaneta.

Para mim, Jair era nada mais que o Debatedor do Superpop e figurinha repetida no humorístico CQC, que o chamavam para fomentar polêmicas e aumentar a audiência. O político carreirista que colocou a família para mamar nas tetas do poder público e que discursava ecoando 1964. Seu teto era baixo, sua bolha era dos saudosistas do AI-5 e da tortura nos porões da Ditadura, diziam os analistas políticos dos jornais com ares de tudo saber.

Eu fui um daqueles iludidos que acreditaram que Jair derreteria ao longo da campanha. Na minha inocência política, imaginei até mesmo que ele teria dificuldades para montar seu Ministério. Onde Jair arranjaria pessoas dispostas a colocar sua biografia em risco e apoiar alguém tão abjeto, grotesco, inculto e mal intencionado?

Em sua entrevista ao vivo na bancada do Jornal Nacional, senti um calafrio na espinha ao perceber que Jair seria eleito. Suas lacrações criminosas, absurdas, rasas e preconceituosas eram música para o tiozão de bar, os moralistas e os radicalizados em geral. Sua nova roupagem evangélica aliada ao apoio do agro, dos militares, das forças policiais e das correntes de whatsapp, transformaram Jair em um candidato competitivo, que certamente enfrentaria Lula no segundo turno, mas a República de Curitiba  o tirou Lula do jogo, justamente o favorito à vitória.

Quando Jair venceu, eu continuei perdido. Obviamente sabia que esse tsunami conservador traria um governo horrível, promotor de atraso nas demoradas e poucas conquistas sociais. Mas não imaginava o quê de ruim e errado ele iria fazer. Com o Congresso tomado pela direita Jair teria ainda mais poder para realizar grandes merdas. Mas quais merdas?

Seu Ministério foi escolhido à dedo podre, com 100% de aproveitamento zero. Com ampla maioria no Congresso, inicailmente não precisou negociar Ministérios com o Centrão (o que fez depois que seu governo derretia e o impeachement passou a ser uma ameaça real). Daí Jair colocou Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente, o Dizimador Florestal. Na Justiça, colocou Sérgio Moro, o Juiz Parcial and Batoré de Toga de Curitiba. E na Saúde colocou Luiz Henrique Mandetta, lobista dos planos de saúde com a missão de privatizar o SUS. E na Economia, Jair colocou Paulo Guedes, o Guru dos Otários e Beato Salú da Inflação. E no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Jair escolheu Damares Alves, a Coruja Evangélica Fundamentalista.

Na medida que o caos se instaurava e os absurdos se sucediam em manchetes diárias, eu, ainda inocente, imaginava o constrangimento de quem apoiou isso tudo que estava aí. Pensava: agora eles estão vendo as consequências de atirar 17 nas urnas em apoio a um candidato despreparado e que passou a campanha fazendo arminhas com as mãos.

Que nada, estava errado ao subestimar a burrice do brasileiro médio. Desgostosamente descobri que familiares, amigos e conhecidos eram tal como Jair: comungavam da sua ignorância, preconceito de classe e ódio político.

Desisti de conversar com o Gado Amarelinho na pandemia de Covid. Ali Jair teve as manhas de colocar em prática toda a sua delinquência. Vivia com uma caixa de Cloroquina no bolso prescrevendo o curandeirismo do “tratamento precoce”, desacreditou as vacinas e atrasou sua compra (não respondeu os mais de 100 emails do laboratório Pfizer ofertando o imunizante, conforme provado na CPI da Covid) e debochou dos mortos na pandemia. Canalha e desumano, imitou pacientes internados com falta de ar. Motociatas, passeios de Jet Ski e seu boicote às medidas sanitárias transformaram o Brasil no pior do mundo em enfrentamento à Covid, produzindo os mais de 700 mil mortos na pandemia – fora a subnotificação. 

Jair chegou a incitar os seus apoiadores a invadir e filmar os hospitais, que, segundo ele, seguiam vazios. Carla Zambelli dizia que os cemitérios enterravam caixões com pedras no lugar de mortos para prejudicar o desgoverno Bozo.

Quem o seguiu apoiando depois disso, seguiria até mesmo se visse Jair batendo escanteio com um Lulu da Pomerânia.

Ainda hoje não consigo entender esse apoio cego e suicida. Acredito que até mesmo seus apoiadores mais ferrenhos queriam a vacina e não estavam dispostos a morrer pelo falso Messias. 

Novamente errei nas minhas previsões…

Quando chegou a eleição, novamente juvenil, acreditei que Lula ganharia no primeiro turno. Quando vi que Jair permaneceu com grande competitividade no páreo, eu caguei na retranca. Confesso que tive medo. O país não aguentaria um novo mandato com um Jair ainda mais forte militarmente e desumano.

Não suportava mais ver a bandeira do Brasil nos carros e janelas, usurpada pela milícia bolsonarenta.

O segundo turno das eleições foi o pior e também o melhor dia da minha vida. Pior porque eu estava desesperado ao ver Jair à frente de Lula na apuração, já pensando para qual país eu poderia me mudar. E melhor porque a vitória de Lula foi a vitória da democracia frente à barbárie. Apesar de tudo, o pais não estava perdido.

Comemorei tanto que pulei na fonte da praça da Liberdade com minha namorada, aquela mesmo que ainda hoje reúne o gado fascista.

Lula venceu o Palhaço Assassino, os militares, a Faria Lima, o Centrão, o Mercado, os tiozões de buteco, os burros, o Gado CBF e o fundamentalismo evangélico. E também todos os ressentidos, cretinos e filhos da puta em geral.

Ao ver Jair condenado a 27 anos e 3 meses, sinto um enorme alívio, mesmo consciente de que ainda é pouco. Ele precisa ser julgado pelo seu pior crime: sua gestão criminosa na pandemia. Ele e todos os seus ministros que colaboraram com esse genocídio.

A Mula Velha sai de cena arrastando consigo para a cadeia o seu núcleo duro, incluindo generais, mas seus carrapatos continuam se proliferando por todo o país. 

O ódio é um ativo político muito bem manuseado pela direita.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *