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Ébria de prazer

Silvia Ribeiro

Tão necessário, quanto fascinante, o amor exerce um domínio surpreendente nas nossas vidas.

Algo que ganha movimentos, e faz com que o nosso cérebro rebole feito uma dançarina de cabaré.

E na melhor das hipóteses, passa de mão em mão sem se tornar promíscuo.

Torrõezinhos de loucuras que num simples contato com o nosso coração se derretem misteriosamente. Como se fatores químicos explodissem numa tempestade perfeita de sangue.

Tentando surpreender a mim mesma com comparações e metáforas, chamei algumas das minhas dezenas de amigas para um coffee break. Senhoras não bem comportadas, conhecidas como “divagações”.

Tudo isso com o intuito de re(batizar) esse fenômeno, já que várias definições sobre ele já caíram no ostracismo. Sem contar aquelas teorias que já foram até cremadas.

E entre um gole e outro de café com canela, produzi uma obra notável.

Uma escultura majestosa que não precisava de chapa metálica, pedra, cimento, tampouco barro ou areia.

Embora tivesse muitas peças que se encaixavam feito um quebra-cabeça, trazia consigo uma criatividade aguda no sentido indelével do amor.

A engenhoca não tinha forma, altura, cor ou largura. Pode-se dizer que só uma alma boa poderia alcançar aquele desenho.

Creio que alguns críticos de arte poderiam até dizer que se tratava de um formato abstrato. Enquanto outros, falariam que aquilo não passava de uma bela porcaria.

Ainda assim, continuei me dedicando. E a cada palavrinha que eu trocava com as minhas “amigas divagações”, mais bonita eu achava aquela manifestação artística.

Por influência dessas amigas, e perseguida por um lado mais viril, notei que aquela criação antes temerosa, acabava de optar por uma aventura em distintas paragens.

Dispensando a telepatia e me distanciando de qualquer recurso adivinhativo, joguei fora o meu lado pudico e dei ênfase àquela silhueta que servia para iluminar os meus olhos fixos.

Nos seus contornos sombras de paixões avassaladoras gesticularam na minha frente.

E quando a noite caiu sobre mim, senti que o meu corpo havia atravessado fronteiras entre toques, lábios, mordidas e orgasmos.

Aquela obra estava ébria de prazer.

PS: Desconfio que fiz um autorretrato.

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