Taís Civitarese
Na oitava série, minha amiga Luisa me emprestou o livro de Goethe “Os sofrimentos do jovem Werther”. Éramos adolescentes românticas que, tanto quanto Werther, tínhamos em comum o afã pelo apaixonamento dramático e o apreço pela literatura. Lembro que achei linda a história, sobretudo as declarações de amor de Werther para Charlotte, imaginando-me ora na pele dele, ora na dela. O final surpreendeu-me (já tinha ouvido falar de como a história acabava), mas não anulou, para mim, toda a beleza da leitura.
Pouco tempo depois, soube que o livro, na época de seu lançamento, tinha sido proibido em certos países por ter induzido alguns leitores a cometerem suicídio. O protagonista toma esta decisão ao fim da narrativa. E que a partir dele tinha sido cunhada a expressão “Efeito Werther” para desaconselhar a reprodução de notícias jornalísticas sobre o tema, de modo a evitar uma onda de imitação dentro da sociedade.
No entanto, aparentemente, a recomendação estendeu-se de forma mais ampla do que o desejado, uma vez que tal tema ainda permanece como um enorme tabu entre as pessoas, sempre mencionado de forma obscura e solene, seguido de silêncio e consternação.
Por este motivo, admiro imensamente o trabalho de minha amiga Daniela Piroli Cabral que, além de seus inúmeros méritos profissionais, tornou-se também uma psicóloga especializada em suicidologia. Em seu um trabalho, Dani ajuda a desmistificar o assunto ao falar naturalmente sobre o tema, sobre os traumas, dores que o envolvem e suas consequências. Além disso, oferece um grupo gratuito de apoio para parentes e amigos de vítimas de suicídio.
Com ela, aprendi que apesar de não ser recomendado noticiar sobre o assunto em mídias públicas, ele precisa ser abordado em algum espaço. Não pode ser uma condição simplesmente ignorada, tratada como mera escolha ou ato impulsivo que concerne apenas a quem o faz. Os impactos de um suicídio são muito intensos também na comunidade ao seu entorno. Geram medo, despertam gatilhos, evocam reflexões de cunho religioso, filosófico e pessoal. Além de todo o sofrimento trazido às pessoas próximas.
A prevenção do suicídio requer atenção à saúde mental e o acesso a meios de assistência que já existem e estão ao nosso alcance. O primeiro deles talvez seja a oportunidade de poder conversar sobre isso. Poder falar sobre dores, pensamentos extremos, medos e desesperanças, de modo que, trazidos à baila, possa haver também algum vislumbre de direcionamento para tais sentimentos. Não há nada tão humano e natural quanto o sofrimento. Que se de deixe de marginalizar esse assunto para que se possa oferecer apoio a quem precisa, seja por uma mão amiga ou por um bom profissional de saúde.