O que fica

Taís Civitarese

Finalmente assisti a “Ainda estou aqui” (este texto contém muitos spoilers do filme). O momento foi oportuno porque esta semana teve início o julgamento da recente tentativa de golpe de Estado em nosso país. O filme ajuda a entender o horror de viver sob uma ditadura fascista e mostra do que escapamos e por que os autores devem ser responsabilizados.

Entre cenas violentas e algumas tomadas nostálgicas – como o momento em que a família toma sorvete de passas ao rum -,  houve duas situações no filme que me emocionaram bastante. A primeira foi quando o personagem Baby, amigo de Rubens Paiva, explica a Eunice Paiva sobre os motivos do marido dela ter sido preso. Ele diz: “(No contexto da ditadura), não tem como não fazer nada, Eunice!”. Com essa frase, entendi que lhe parecia impossível permanecer inerte diante da opressão imposta pelo regime. Que para ele e o amigo era inconcebível não reagir em oposição às medidas injustas, o que justificava a atuação de Rubens e sua consequente prisão. Isso me transmitiu um forte senso de caráter e de coragem.

Da mesma natureza, o segundo momento foi um ato de resistência de Eunice diante do desmoronamento de sua vida até então. Após ter sido presa por doze dias, interrogada, ter tido o marido apreendido, possivelmente torturado e assassinado, ela viu-se sozinha com 5 filhos, mantida sob suspeita e vivendo em um país cada vez mais ameaçador. Ao posar para a foto de uma reportagem que denunciava o suposto crime contra sua família, Eunice sorri e pede que os filhos façam o mesmo. Para mim, aquela foi a simbologia de algum tipo de resposta diante daqueles que tentavam subtrair direitos, alegrias e esperanças. Como se ela demonstrasse que podiam lhe tirar tudo, mas havia algo que ficava. Algum tipo de dignidade ou envergadura. Uma força combinada de resiliência e desaforo. A partir dali, Eunice resistiu e seguiu em frente. Mudou de cidade, criou os filhos, graduou-se em Direito e tornou-se professora universitária.

Pode-se argumentar que caráter e dignidade não servem para muita coisa diante de perdas irreversíveis e ameaças sofridas. No entanto, eles ajudam a preservar uma identidade fora do alcance do opressor. Ajudam a criar memória e a fundar a base das lutas futuras para que outras pessoas não vivam sob as mesmas circunstâncias. Nos dias de hoje, precisamente, colhemos uma parte desses frutos.

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