O jantar brasileiro

Taís Civitarese

Lucas chegou do colégio contando que, naquele dia, teve uma aula de História diferente. O professor tinha proposto que discutissem um quadro. O quadro era a pintura de Jean Baptiste Debret, pintor francês que morou no Brasil entre 1816 e 1831, chamada “Um jantar brasileiro”. 

Nesta pintura está retratado um casal de época sentado à mesa diante de várias travessas de alimentos. Em volta deles há três pessoas negras de pé, em atitudes de serviço. Uma mulher segura um espanta-moscas, um homem fica de braços cruzados, a postos, e outra mulher mais velha usa um avental escorada no marco de uma porta. Enquanto o homem da mesa leva uma garfada à boca, a mulher oferece alimento a uma criança negra que está de pé no chão, ao lado de outra, sentada.

Lucas contou que o professor fez para a classe as seguintes perguntas: “Neste quadro, o que vocês acham do gesto da mulher branca? Ela está sendo gentil com a criança? Ou é uma cena que demonstra discriminação?”

Perguntei o que ele achava e ele afirmou concordar com a segunda opção. Disse que a criança estava no chão e não à mesa, como os personagens brancos. Que as pessoas da mesma cor de pele da criança estavam em pé, sem desfrutar da refeição servida. E ressaltou que o pequeno estava nu, descalço e distanciado, recebendo restos sem indícios de cuidado ou de afeto. Comentou que o professor parabenizou a turma porque, segundo ele, desde que começara a ensinar, aquela foi a primeira vez que todos responderam assim. Que ninguém considerou que a cena pudesse indicar benevolência.

Foi um alento saber que a escola, contra muitas tendências, ainda comporta mestres que semeiam consciência de classe nos estudantes. Fiquei orgulhosa dos alunos que não se deixaram levar por um fragmento deturpável e passível de falácias presente em uma imagem. Souberam interpretar o contexto, o que falta a tantos, tantos adultos. E fiquei esperançosa de que a unanimidade da reflexão nos jovens represente um avanço no entendimento de nossa história e no combate às injustiças.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *