Mário Sérgio

Quando um querido amigo foi afligido por um AVC, sua esposa iniciou um ciclo de orações e pedidos de fé para que o problema se resolvesse. A filha dele, mais jovem e pragmática, ligou para o serviço de emergência.

O fato me lembrou de quando fui contaminado pela pólio, ainda bebê. Não memória pessoal, óbvio, mas as inúmeras histórias reiteradas nas conversas em família que resgataram aqueles momentos ímpares da infância. Algumas pessoas, parentes, amigos, vizinhos, também rezaram fervorosamente pela minha recuperação. Minha mãe, de fé inabalável, optou por um tratamento de mezinha, emergencial, que reduziu drasticamente os danos, até que eu fosse atendido no Hospital Margarida.
Acredito que as duas coisas se completam. A oração ajuda a colocar o espírito em calma suficiente para que ações possam ser tomadas de forma assertiva e proativa, na proporção em que resgata a calma e a lucidez.

Num antigo programa de auditório, “Um Instante, Maestro”, apresentado pelo saudoso Flávio Cavalcanti, o jovem Gonzaguinha teve seu disco literalmente quebrado – era uma prerrogativa da atração da atração – porque alguns “jurados” se ressentiram por acreditarem que ele era ateu. A música apresentada, importante na história da MPB, foi “Assim seja. Amém” (1975) de Luiz Gonzaga Júnior e Miltinho (do MPB-4). A parte da letra que incomodou naquele momento foi:

O meu maior pede uma bicicleta
A mãe diz que é pra ter fé que Deus dará
Eu, do meu canto, digo: eu só fiz isso;
Então, sentei aqui pra não cansar

Entendo, todavia, que rezar para se acomodar ante situações de injustiça ou de autoritarismo seja contraproducente. Ou fazê-lo, mesmo sem orações, apenas pela cultura imposta de quem se acredita acima de quaisquer direitos de seus concidadãos. E não se trata de um entendimento pessoal ou recente. O filósofo e humanista Étienne de La Boétie, em sua curta jornada pela vida, 32 anos, deixou um legado importantíssimo, que é basilar na questão da liberdade dos povos. Em seu “Discurso da Servidão Voluntária”, nos ensina:

“A primeira razão da servidão voluntária é o hábito: provam-no os cavalos sem rabo que no princípio mordem o freio e acabam depois por brincar com ele; e os mesmos que se rebelavam contra a sela acabam por aceitar a albarda e usam muito ufanos e vaidosos os arreios que os apertam.”
(https://citacoes.in/autores/etienne-de-la-boetie/)

O que faz, então que um povo opte por ser espoliado por alguém? Dominado a ponto de perder sua própria liberdade ou seu direito de se expressar e, ainda assim, defender aquele que o explora? No caso das pessoas que cerceavam a minha liberdade de criança PcD, até certo ponto, poderia ser compreensível, analisando-se pelo instinto de proteção a alguém fragilizado fisicamente. Mas e quanto a uma nação? Tiranizar através de abusivos impostos, sem a devida contrapartida em serviços.

A saída, avalio, é a educação, por ser investimento estratégico e perene. É essencial em qualquer projeto civilizatório, pois é com esse instrumento que se barram processos ditatoriais de exclusão social.
Ou podemos continuar apenas com as rezas.

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