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Amores e monstros

Taís Civitarese

Quem já amou um monstro?

Eu já. E foi por isso que o livro “Monstros: o dilema do fã”, de Claire Dederer, me fez chorar.

Esse livro, lançado em 2023, trata do impasse entre apreciar a arte e conviver com a ética pessoal (ou falta dela) de seu criador. O que fazemos com as obras de arte que amamos quando sabemos das histórias sórdidas de seus autores?

Em um mundo em que a (suposta) defesa da moralidade voltou a ser o grande mote do nosso tempo, em que muitas verdades encobertas sobre aqueles que admiramos são avidamente desveladas para colocá-los à prova, surge esse questionamento. Como se comportar diante das coisas que amamos feitas por pessoas “imorais”?

A autora cita os exemplos de Roman Polanski e Woody Allen, gênios do cinema que cometeram crimes terríveis contra mulheres. De sua parte, ela sofria crises de consciência quando continuava gostando de seus filmes. Cita também Doris Lessing, autora britânica premiada com o Nobel de literatura que abandonou dois de seus filhos pequenos em um outro país para poder trabalhar.

Estas não são histórias comparáveis, porém esbarram em sombras na reputação de pessoas que executaram grandes feitos artísticos.

Não há resposta para tal dilema e tampouco a autora pretende propor uma. No entanto, em suas elucubrações, ela cita algo que me emocionou muito e que afagou minhas vivências de amores misturados no balaio dos atos reprováveis. Ela recorda que os caminhos do afeto e daquilo que nos emociona não passa por fichas criminais, códigos de ética terráquea ou modos objetivos de avaliação. Esse parecer é medido de misteriosas formas, para as quais frequentemente não há palavras nos idiomas conhecidos. Os rumos da apreciação já são silenciosos por si só, por isso, não podem ser necessariamente calados por atitudes horríveis. Seguem por outras estradas.

De certa forma, lembramos que todos nós somos um pouco monstros, com nossos lados capazes de executar coisas bonitas e aqueles em que somos torpes, falíves e imperfeitos.

Cabe a nós equalizar com liberdade nossa medida de amor que sucumbe aos atos nefastos ou que apenas se entrega às divindades da arte e das atitudes, apesar da humanidade dos autores.

Tais Civitarese

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