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Botas com nome e alma

Sandra Belchiolina
sandrabcastro@gmail.com

Percorri Lagoa da Prata inteira, minha cidade natal. Era como se os caminhos me chamassem pelo nome, e eu, criança ainda, respondia com os pés. Depois, já na adolescência, descobri que também havia praia em Minas — e que, para chegar até lá, bastava uma bicicleta e um pouco de vontade. Às vezes, nem a bicicleta: o passo era suficiente. Caminhar era meu jeito de estar no mundo.

Os campos e as fazendas foram abrindo passagem para uma paixão que cresceu comigo: o trekking. Foi na Serra do Cipó que comprei minha primeira bota de caminhada — daquelas que abraçam o tornozelo e parecem dizer: “vá sem medo, eu te sustento”. Desde então, passei a batizar cada par como se fossem parceiras de jornada — e eram. Nomeava-as em homenagem aos povos indígenas, os primeiros a pisarem nessas terras com respeito e intimidade. Cheguei a sonhar com um altar para elas, um espaço em casa com fotos e memórias. Mas, como muitas intenções bonitas, essa virou doação — e ficou a história.

A Pataxó foi a primeira. Andamos por Minas Gerais de “cabo a rabo”, como diz o ditado, mas foi na Serra do Cipó que ela se fez mais presente. Tempo de pesquisa e prazer: trilhas, cachoeiras, descobertas. A mais marcante foi a Travessia Lapinha–Tabuleiro: três dias de sobe e desce pela cadeia do Espinhaço. Não queria que acabasse. Caminhar já era meu modo de respirar. E a mochila de ataque? Parte do meu corpo.

Depois veio a Inca, nascida com vocação internacional. Não chegou a estrear na trilha dos Incas, mas quase. Primeiro, testei. Toda boa caminhante sabe: não se entra numa trilha sem conhecer bem os próprios pés — e as botas que os carregam. Depois do batismo, fomos juntas a Machu Picchu. Escrevi sobre aquela trilha mágica, onde cada curva parece guardar um segredo antigo.

A Inca, porém, abriu o “bico” em Araxá. E foi de lá que partiu a terceira: a Araxá — nome justo para quem percorreu as terras das tribos que batizaram a cidade. Com ela, explorei cafezais em flor, cachoeiras escondidas e escutei siriemas de perto. Araxá também me levou à Chapada Diamantina, da borda leste à oeste. Tudo era vasto, belo, vivo. E, entre um passo e outro, saboreávamos juntas um café especial da fazenda Barinas — com gosto de chão, de tempo e de pertencimento.

E ainda tem a Aimorés. Foi batizada na sua origem, ali mesmo onde o córrego Aieio encontra o Martins, formando um dos braços que alimentam o rio da integração nacional — o novo, bom e velho Chico. Aimorés nasceu com grandes pretensões. Trazia em si o desejo de novos caminhos e travessias longas. Mas ficou em caminhos curtos. Percorreu trilhas da Canastra, trilhas do Alto São Francisco, Floresta Uaimi, Serra do Rola-Moça. Com a chegada dos tempos obscuros da pandemia, ficou por perto de sua terra de batismo. Ainda assim, sua pegada resiste — como tudo o que é nomeado com afeto e ancestralidade.

Hoje, talvez as botas tenham seguido outros rumos. Mas comigo ficaram as trilhas, as paisagens, os cantos dos pássaros e os silêncios partilhados. E a certeza de que cada caminhada deixou pegadas fundas — não no solo, mas em mim.

Fotos: arquivo pessoal

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