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O “mito” e o STF

Taís Civitarese

Em “Totem e Tabu”, texto de 1913, Freud teoriza sobre a organização das sociedades baseadas nos dois elementos presentes no título. Ele cita o exemplo de uma sociedade primitiva governada por um pai tirano que acaba sendo morto por seus filhos. Cientes de seu poder recém-adquirido, os filhos precisam fundar as leis (os tabus) para regulá-lo. Ao mesmo tempo, culpados por seu ato, transformam o pai morto em algo sagrado: um totem.

Assim, o sagrado e a lei – como os conhecemos hoje – regiriam todas as sociedades humanas.

O exemplo dado por Freud também evidencia a ambiguidade de sentimentos que um filho pode ter por seu pai. Enquanto o admira a ponto de transformá-lo em algo etéreo, tem também o desejo de superá-lo em relevância e importância.

De certa forma, Freud prevê que a derrocada de um pai ocorre através da sucessão, ou seja, pelas mãos dos seus descendentes. Dado o atual cenário político de nosso país, é impossível não traçar um paralelo com essa tese.

Um deputado, filho de um ex-presidente com aspirações tirânicas, pede licença do cargo para ir a um outro país pedir clemência a um louco em nome da defesa de seu pai. Esse louco lança uma chantagem sobre toda uma nação que se volta, em parte, contra essa família (a qual se julga imune à justiça). O filho, imbuído de poder por ter sido atendido, inflama-se mais e começa a atacar até mesmo os aliados de seu pai. Pelas consequências de suas ações, prejudica um país inteiro, reduz sua base de apoio e só pode ser interrompido em seu ciclo de intimidações por meio da intervenção da lei (nesse caso, do Supremo Tribunal Federal).

Assim, por ambição e mau uso do poder por parte de um filho, o fim da vida política de Bolsonaro pode estar próximo. Embora poderoso em outros tempos, ele tende a permanecer apenas como um “mito” ideológico enfraquecido, aviltado pelas ações inconsequentes e auto-implosivas de sua prole.

Que a profecia freudiana se cumpra nessa triste – e em parte, previsível – fábula da história política brasileira. Pela existência de um tirano a menos em nossas instâncias governamentais.

 

 

imagem: Freud e seu pai, Austria, ~1865.

Tais Civitarese

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  • Incrível a comparação como nosso cotidiano. Muito bem escrito.
    Brilhou, meu amor.

  • Parabéns pelo texto. "Somos nossos pais". Somos ancestralidade. Este indivíduo é o reflexo da educação que recebeu. Infelizmente,está equivocado quanto aos seus direitos e deveres. Está confundindo liberdade de expressão com falsidade ideológica. Ameaçar um povo com bombas atômicas é um crime geopolítico.

  • Li seu texto por indicação do querido amigo Eduardo Ávila e adorei sua retomada de Totem e Tabu para explicar, com muita clareza, essa pataquada da família B. Que assim seja, e consigamos nos livrar deles, embora devamos continuar atentos ao "legado" que, infelizmente, deixam.

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